terça-feira, 27 de junho de 2017

Quando os sonhos se apequenam



Ontem, indo para casa, me acometeu o terror. Percebi o quanto a gente pode se acostumar com o que nos impõe o capital. Os particularismos que esse sistema nos apresenta como universais vão se impregnando na gente e, de repente, estamos navegando na órbita dele achando tudo natural.

Pois lá ia eu, no ônibus, tentando dormir, visto que os engarrafamentos em direção ao Rio Tavares já são comuns a toda hora, não mais só em horário de pico. Revira daqui, revira dali e não conseguia acomodar o corpo. Então, me veio o pensamento de que as empresas poderiam melhorar a ergometria dos bancos, permitindo que a gente pudesse se ajeitar melhor. Foi apenas um segundo de vacilo. Mas, foi vacilo. Aprumei o corpo e arregalei os olhos. Mas, como? Não tem que arrumar o ônibus para eu dormir, tem que ter faixa exclusiva para a porra do ônibus levar apenas 15 minutos do centro ao Rio Tavares, como tem de ser. Como é possível que a gente permita que isso siga sem solução, com a vida da gente sendo sugada cada dia mais por esses transporte desintegrado?

Então fui pensando sobre outras coisas as quais nos acostumamos, como se fossem benesses do capital, como os bancos nos espaços de serviço público. O sistema de atendimento é tão ruim, e tem tanta falta de gente, que as filas são gigantescas. Então, o que faz o sistema? Em vez de contratar mais pessoas e tornar o serviço mais eficiente, coloca bancos nas recepções. A gente chega, pega a senha e fica ali, sentado, ordeiramente, esperando pela vez, ainda que o nosso número seja o número 122. E pensamos: ah, que bom que tem um banco. Antes eu ficava em pé.

Ou então a lógica perversa de a gente trabalhar para os bancos, setor da economia que mais tem lucro no mundo. E claro, eles são os mais lucrativos porque todos nós trabalhamos para eles. Nosso salário obrigatoriamente é depositado em banco. Não existe mais o envelope entregue pelo patrão. A pessoa é obrigada a ter uma conta bancária. E, estando no sistema, é obrigada a fazer todo o serviço. A máquina está ali, disponível, mas é a pessoa que tem de preencher os envelopes, fazer as operações. Ah, e claro, ficar nas filas. Mas tudo bem, os bancos também têm assentos de espera. Fico pensando nos velhos, esses seres tão abandonados, que se desesperam na boca dos caixas, sem saber como lidar com todo aquele aparato. E ainda são obrigados a sofrer os olhares de reprovação de toda a gente, por demorarem demais num atendimento que lhes deveria ser prestado pelo banco.

E assim, vamos nos acomodando ao que nos dita o capital. “Trabalhe para nós 24 horas”. É no emprego formal, é no bico do fim de semana, é no banco, é no serviço público, é no posto de gasolina, é sentado em casa, vendo TV. Seja um “self-safe man”, faça tudo sozinho, não dependa de nada, nem de ninguém. E as pessoas vão se deixando escravizar, orgulhosas de sua “autonomia”. Até que, de repente, mesmo os seus desejos são de acomodação aos horrores da exploração, como eu, naquele ônibus, sonhando com um banco mais confortável para enfrentar o absurdo de se levar duas horas num trajeto de 15 quilômetros. Perde-se a visão de totalidade, não se consegue mais enxergar as relações de dominação que nos exploram ao máximo.  


Vai daí a sempre necessária prática do pensar criticamente. Cada imposição do capital precisa ser vista no seu todo, como um braço a mais do sistema tentando te prender. Que ainda sejamos obrigados a suportar tudo isso, vá lá. Ainda não chegou o dia da revolução. Mas, pelo menos, que a gente não se acomode. E que nossa indignação não fique prisioneira apenas no resmungo. Que ela nos mova... Que ela nos mova! 


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Sobre a compaixão



Minha formação é cristã, mas eu, ao longo do caminho fui desbravando outros caminhos da fé. Ainda assim, algumas coisas ficam impregnadas na alma. Minha mãe tinha por prática ir, todos os sábados, à missa das sete na igreja matriz de São Borja. Ele entrava, e nós ficávamos com o pai, passeando na praça, ou dando uma volta pelo Passo. Mãe nunca obrigou a seguirmos sua fé, daí essa opção pagã enquanto ela rezava. Mas, havia também a missa na capelinha do hospital, próximo à nossa casa, no sábado à tarde. A gente ia e curtia, porque era uma missa diferente. O padre instigava as pessoas a falar e fazia interpretações bem diferentes dos textos dos evangelistas. Era criativo e prazeroso.  

Uma das interpretações que mais me marcou ao longo da vida foi a do bom samaritano. O cara que levanta o homem caído na estrada para Jericó, e o leva a uma estalagem para que seja cuidado. Varias pessoas haviam passado, mas só aquele homem da Samaria teve compaixão. A estrada, uma das mais perigosas da região, era cheia de ladrões e as pessoas temiam umas às outras. Mas o samaritano não temeu. Enquanto as pessoas pensavam “O que poderá me acontecer?”, aquele homem pensou: “o que poderá lhe acontecer?” Então, generoso, o transportou até um lugar seguro.

Essa é a postura que persigo desde então. O sentimento sobre o outro, caído. O que poderá lhe acontecer? E nessa aflição, estender a mão, cuidar, acolher, independentemente dos riscos.

Não vi os vídeos sobre o tal ator que teve uma recaída e foi filmado na queda. Mas acabei lendo alguns comentários na rede. De doer. Há os que comparam os caídos da cracolândia com o atorzinho branco e rico, tripudiando do segundo. Há os que condenam. Há os que fazem chacota. Há de tudo. Desde a maldade mais pura até a hipocrisia mais fecunda. O ser humano na sua face mais vil. De fato, ali estava um ser humano em escombros, tenha ele a cor que for. Assim como estão em escombros os negros pobres da cracolândia. Unificados na dor e na condição de ser um ser perdido nesse doloroso mundo capitalista.

“O ser humano é a pior pessoa que existe”, dizia, brincando um amigo meu. E outro amigo, o Danilo, é o primeiro a bramir o dedo, negando isso. Não. Não é que o humano é ruim. São as condições históricas que o fazem assim. É o modo capitalista de produção que torna o humano egoísta, insensível, competitivo, invejoso, desprovido de compaixão. Afinal, nesse sistema, para que um viva, outro precisa morrer. Então, o pensamento da maioria é simplista: se um tem que morrer, que seja o outro. E aí, vale tudo.

E essa máxima é bombardeada o tempo todo pela indústria cultural. No cinema, na televisão, nos livros, em tudo. Basta pensar que um programa como o Big Brother está no ar há quase 20 anos. E que sua lição fundamental é basicamente a possibilidade de eliminar o outro. Ah, não gostei da risada dela: elimina. Não gostei do cabelo: elimina. Não gostei que ele disse: elimina. E as pessoas, milhões e milhões – já houve pico de 35 milhões – gastam dinheiro para eliminar o outro. É chocante. Mas, ainda que chocante, é a realidade cotidiana. Assim o sistema capitalista nos ensina fazer. Sempre eliminando o outro, o diferente, o desigual, o que nos ameaça, o que nos obscurece.  

Eu prefiro seguir como o homem da Samaria ou mesmo como El Che, que dizia que enquanto houver uma pessoa injustiçada no mundo, temos de ser companheiros. Pois é. Pode ser branco, pode ser preto, azul, vermelho, amarelo. Pode ser rico ou pobre. Mas se tiver caído, fragilizado, oprimido, o melhor a fazer é levantá-lo, levar à estalagem e deixar protegido. Mesmo que seja um inimigo.

Lembro Fidel Castro que criticou as secretárias que vibravam com o atentado contra Ronald Reagan. Ele as chamou e disse: “Não façam isso. Aos inimigos, temos de enfrentar de frente. Não podemos nos regozijar porque ele está caído. Essa não é uma conduta ética”.

Então, Fidel faria o mesmo que o samaritano na estrada para Jericó. E eu também prefiro fazer. Compaixão, empatia, o coração leve.


sábado, 24 de junho de 2017

Seu Getúlio, patrimônio do Campeche


Seu Getúlio, com Amaro Manoel em mais uma festa no rancho


O bairro do Campeche, em Florianópolis, é um lugar especial. Aqui convivem histórias de belezas e de lutas. E nessas areias vicejam pessoas especiais. Foi no Campeche que os aviões da Aeropostale pousaram num tempo distante e foi aqui que os pés de Saint Exupery caminharam entre os pescadores.  Foi o Campeche o primeiro bairro da cidade a construir um plano diretor, para si e para todos, e foi o Campeche que abrigou o Bar do Chico, espaço de construção de tantas batalhas, morada das lutas e das festas comunitárias.

Por isso, quando vim morar no Campeche, tinha certo temor: como entrar nessa comunidade tão antiga e tão peculiar? Como, vinda desde fora, ocupar espaço no coração e na casa de pessoas tão significativas para mim e para a cidade. Já conhecia o Lázaro Daniel, o Hugo, a Débora, Janice, Fernando, parceiros de lutas na cidade. Mas, a planície era grande, e os núcleos nativos são fechados. Não seria coisa fácil.

Pois foi bem na beira do mar, aberto para a imensidão, que encontrei o caminho. O rancho de canoa. Ali, um pescador, conhecido como filho do seu Deca, iniciava um projeto de música com a juventude local. Pescador, músico e aposentado da Aeronáutica, ele decidiu fazer do rancho um espaço de ensino, buscando atrair os jovens para uma vivência comunitária mediada pela música.

Tinham acabado de chegar de Minas, dois meninos que vinham viver comigo, atrás do sonhos do estudar, um sobrinho de sangue e outro do coração. Estilo meio bicho-grilo, cabelo comprido, e aquele jeito quietinho e cismador. Falei do projeto e lá foram eles procurar o pescador para se inscrever. Bateram na casa dele. Pediram uma vaga. Ele olhou, desconfiado, aqueles guris estranhos. Franziu a testa e disse: “as vagas já foram preenchidas”. Os guris amuaram, carinha de tristes. Ele pigarreou, fez um suspense e finalizou: “mas vou dar uma chance pra vocês, mineiros”.

No dia seguinte lá estavam os guris no histórico rancho de pesca, começando, com seu Getúlio Inácio, esse projeto de música no rancho da canoa, que sobrevive até hoje. Foi ali que o Rubens aprendeu a tocar clarinete e o Renato, o sax. E foi ali que a vida do Campeche começou a se abrir também para mim. Cada apresentação dos músicos, cada festa, cada ensaio ia aproximando a gente – de fora – dos locais. Os pescadores que rodeavam o rancho, ajudando no projeto, os moradores que chegavam para a missa de abertura da pesca, os nativos históricos, todos e cada um abrindo espaço para que a gente também pudesse vivenciar esse sentimento de pertencimento.  O rancho do Getúlio foi o portal.

O trabalho do seu Getúlio com a gurizada e com a cultura local foi crescendo a tal ponto de que hoje ele não é mais apenas o filho do seu Deca, outro personagem histórico local. Ele é o Getúlio, tem luz própria, palmilhou o próprio caminho construindo belezas, na terra e no mar. Vivencio isso todos os dias quando vejo meu sobrinho saindo para aula, na Faculdade de Música da UDESC, cria daquele rancho e do sonho do seu Getúlio.

Vejo Getúlio Inácio como mais um patrimônio do Campeche. Dessas pessoas imprescindíveis que lutam sistematicamente pela manutenção da nossa cultura, das nossas tradições mais bonitas.  Um morador apaixonado que sempre teve esse gesto generoso de acolhimento para com os diferentes. Um pescador que abre o rancho para a vida, um músico que de maneira dadivosa entrega o que aprendeu, um militar que conserva  o gosto pela disciplina e pela vida ordenada. 

Seu Getúlio é o típico ilhéu. De pouca fala e poucos gestos de afeto, mas ele é pródigo em gestos poéticos, simbólicos, cheios de amor e generosidade. Como é comum no Campeche, existem as rixas e os desacertos. Seu Getúlio faz parte de alguns. E, ainda que existam as tretas, não dá para negar o papel que ele hoje representa na comunidade.  

Sempre que o vejo passar, de passo lento, em direção ao Rancho, meu coração transborda de alegria. Por um dia ter encontrado aberta a porta do rancho e por ter achado o caminho do coração do Campeche.

Obrigada, seu Getúlio...




quinta-feira, 22 de junho de 2017

A pizzaria, o capital e a greve geral


Foto: Rubens Lopes 

O capitalismo é como um bicho voraz, um sistema sem controle. E quem entra nessa órbita está perdido. Sair é quase impossível. Ali, o que manda é o lucro, não há espaço algum para coisas “prosaicas” como vidas humanas. Tudo fica submetido ao ganhar mais e mais. 

Um exemplo concreto disso é uma pizzaria que tinha aqui no meu bairro. Ela era perfeita. Um lugar bem “simplinho”, de toalhinhas quadriculadas. Uma pizza boa, grande e barata. As mesas de plástico e os donos como atendentes. Simpáticos e queridos.  Como requer o mercado, aquele do cara a cara, no qual o que vende precisa do que compra.

O entorno cresceu, vieram os condomínios, a clientela começou a inchar. Aí, o que era só uma pizzaria começou também a servir churrasco, e depois almoço completo. Vieram mais clientes, e vieram os garçons. O negócio expandiu. Os donos já não atendiam mais. O lugar, que era simples, começou a exigir reformas. Era preciso atrair os novos moradores, endinheirados. 

Então, um belo dia, a pizzaria fechou. Estava em obras. Duas semanas se passaram e ela reabriu. Já não era mais a mesma. As janelas de madeira velha foram substituídas por vidro temperado. As mesas de plásticos sumiram, vieram as de madeira de lei. Novas cadeiras, novas luminárias e o banheiro virou puro chiquê. Os pratos cresceram, os talheres mais apresentáveis e o cardápio recheou de novidades. 

É claro que as reformas e as novidades tiveram um preço. E a velha pizza que a gente comia, grande e barata, diminuiu de tamanho e aumentou de preço. Os garçons, uniformizados e com aquelas caras homogêneas, simpáticas, mas um pouco artificiais, atendem com eficácia, mas não exibem familiaridade. O lugar que era amigável e aconchegante tornou-se sofisticado e frio. “A gente tem de progredir”, diz o dono, satisfeito com as melhorias. 

E é assim. O capital é orientado para a expansão e acumulação, não tem como controlar. O dono do negócio busca o lucro e quando ele vem, é preciso fazer mais lucro. Então a coisa vai crescendo, crescendo e crescendo. Incontrolável. Não tem como o empresário ficar ali, pequeno, com sua pizza simples. A clientela vai chegando, vai exigindo, e ele, para não perder o cliente, precisa se adaptar. Então, precisa de mais reformas, mais empregados, mais isso e mais aquilo. Não há espaço para “romantismos”  de simplicidade e amizade. É preciso produzir dinheiro. 

Agora, pensem, se numa pizzaria de bairro a coisa é assim, imagina como é numa grande empresa? Por isso o capital não tem pátria, não tem coração, não tem compaixão. Nada fica no seu caminho. E se algo se interpõe, ele tira, com violência. Precisa crescer. É como se fosse uma maldição. Mesmo os capitalistas estão subordinados, são os amaldiçoados, como um Midas, só que transformando o que tocam, não em ouro, mas em miséria. Porque não são eles os que produzem o valor, não são eles os que geram o lucro. 

Quem produz valor é o trabalhador.  E para que o empresário cresça, e faça reformas, e aumente os negócios e suba os degraus da glória, é preciso que o braço de quem trabalha seja exaurido até mais não poder. Muitas horas no batente, salário de miséria. E o lucro transbordando dos baús do patrão. 

É por isso que os deputados brasileiros, e os senadores – que são os empregados de um grupo bem importante de patrões -  estão aí, querendo mudar as leis que regem o trabalho.  Porque os “amaldiçoados” pelo capital precisam gerar mais lucro, mais dinheiro, mais lucro, mais dinheiro.  E isso só é possível com mais exploração dos trabalhadores. Então, há que tirar a hora do almoço, há que aumentar a jornada, tirar benefícios, fragilizar, provocar o medo. Ou isso ou se acaba o trabalho. Essa é a ameaça. Então, as pessoas, temendo perder o emprego, chegam até a fazer passeata de apoio às reformas, como aconteceu numa triste marcha chamada “para Jesus”. 

O fato é que se é o trabalho que gera a riqueza, os trabalhadores não precisam dos patrões. O capital depende do trabalho, mas o trabalho pode existir sem o capital. Então, quem tem, de fato, o poder? São os trabalhadores. Se os braços não trabalham, o capital colapsa. Ocorre que o sistema capitalista de produção criou um mito, muito difícil de destruir, de que quem manda é quem tem os meios de produção: ou seja, os patrões. Isso não é real. É justamente o contrário. Quem manda é quem tem a força de trabalho, o que gera valor. 

Assim, a fórmula parece bem simples. Esse 1% que pegou para si os meios de produção, precisa ser desapropriado deles. Porque essa é uma riqueza roubada. E o roubo, todos sabem, não é legal. 

Dito isso, é tempo lutar. Primeiro, impedir que o capital avance sobre os direitos dos trabalhadores. Barrar o Congresso. Depois, é preciso ir derrubando todos os outros “castelos” inventados pelo capital. São de areia, não se sustentam. Precisam da força dos trabalhadores para serem reais. Se a força é retirada, eles caem, como as muralhas de Jericó. 

Então, pra começar, todos à greve geral, esperando que ela se transforme numa greve cívica, de um povo inteiro. E que, nessa marcha pagã, de trabalhadores, se possa dar o recado bem dado.  O poder é de quem trabalha.   




segunda-feira, 19 de junho de 2017

Que é de ti, cidade?


Barra da Lagoa, ainda uma beleza

A prefeitura de Florianópolis está chamando para o dia 23 de junho uma audiência pública para finalizar o processo do Plano Diretor. Mas, segundo os movimentos sociais e lideranças populares que participam dessa discussão desde há 11 anos, mais uma vez os governantes atuam contra a população, visando aprovar as medidas que interessam apenas à classe dominante e aos especuladores.

 Antes de qualquer coisa é preciso lembrar o que é o plano diretor. É o documento que estipula como a cidade se organiza no espaço, ou seja, define as zonas residenciais, comerciais, de preservação, as vias públicas, os parques, o número de andares que os prédios podem ter, etc...

Em Florianópolis, por conta da luta das comunidades, durante anos foi possível reunir e discutir o modelo de cidade que a população queria. Os governantes tiveram de obedecer ao Estatuto das Cidades e democratizar o debate, o que permitiu que cada bairro pudesse pensar como a vida poderia ser, segundo as possibilidades e os desejos da maioria. Foram meses e meses de reuniões que culminaram em um golpe, dado pelo então prefeito Dário Berger que, em vez de desenhar a cidade pensada pelas gentes, desenhou um modelo que traduzia o interesse dos empreiteiros e dos abutres de plantão. O golpe foi desarticulado pela população e o prefeito teve de colocar o “rabo entre as pernas”.

Depois, foi a vez de César Souza Junior, um jovem de direita que assumiu a prefeitura prometendo dar um fim ao processo do Plano Diretor que, segundo ele, mantinha a cidade parada. Uma bela duma mentira, pois a Câmara de Vereadores seguiu, ao longo dos anos em que se discutia o plano, fazendo e acontecendo conforme os desejos dos donos do capital.

Acreditando ser possível passar por cima das gentes César Souza colocou para a votação um Plano Diretor totalmente alterado, com mais de 600 novas emendas, e os vereadores aprovaram mais da metade delas sem sequer saber qual era o teor das propostas. Uma votação ilegítima e ilegal, acontecida num final de ano, de maneira atabalhoada. A coisa não se deu sem luta. A população foi até a Câmara e protestou, não faltando a repressão policial, a violência e o desmando. O plano foi aprovado, mesmo assim.

Mas, a partir da ação popular, a Justiça agiu em favor da cidade e obrigou a prefeitura a voltar atrás. Deveriam ser feitas novas audiências, para que as comunidades pudessem conhecer e votar o teor das novas emendas. E, como cabe a uma gestão incompetente, o processo foi se arrastando, sem término.

Agora, estamos aí com mais um prefeito, o Gean Loureiro, tal e qual os outros, governando para o 1% que domina a vida: empresários, construtores, os ricos. E, outra vez, o processo do Plano Diretor foi acontecendo de forma irregular, atendendo aos interesses dos graúdos e não das comunidades. Novas reuniões aconteceram para avaliar as emendas, mas, no caminho, outras propostas foram agregadas, de novo de maneira ilegal. Muita luta se travou e ainda assim, ao final da etapa garantida pela justiça, os membros do Núcleo Gestor chegaram a contabilizar 90 dissensos, tanto no teor das emendas quanto nas regras para fechamento do processo. Alguns grupos dentro do NG começaram a boicotar as reuniões, visando não dar quórum e, mais uma vez a coisa se arrastou, o que de certa forma é bom para os empresários. Afinal, enquanto não tem plano diretor eles vão negociando suas demandas diretamente com os vereadores.

Agora, a prefeitura pretende fazer a última audiência no dia 23, sem que o rebatimento das propostas seja feito pelos representantes do Núcleo Gestor. O IPUF é quem vai ficar responsável por isso. Na prática, significa que as questões mais polêmicas do plano, as quais não tiveram consenso, serão levadas diretamente para disputa dentro da Câmara de Vereadores. E ora, pois, todos sabem muito bem qual é a posição dos vereadores: sempre a que o prefeito mandar.  Tirando uma bancada ínfima de vereadores da oposição, os demais votam de olhos fechados no que for de interesse dos empresários.

É por isso que só a luta mesma pode mudar a cara do processo do Plano Diretor, definindo um modelo de cidade para as pessoas que aqui vivem e não para os turistas que passam aqui suas férias. Florianópolis se verticaliza, cresce de maneira desordenada, perde seus espaços de preservação, não consegue definir parques e praças, pois a intenção é sempre mais e mais moradias de alto luxo, voltadas à especulação e ao turismo.

Aos moradores fica relegada a periferia, longe do local de trabalho, sem transporte de qualidade, e com aluguéis cada vez mais fora da realidade dos trabalhadores. No sul da ilha, uma casa com três quartos, para abrigar uma família pequena, não sai por menos de dois mil reais. Quem pode bancar isso? Em outros bairros, a construção de monstros de cimento, também vai descaracterizando a cidade que perde, inclusive, aquilo que deveria ser o chamariz para o turismo: sua beleza natural, sua simplicidade.

No plano traçado pelos empresários do cimento, Florianópolis deverá ser uma cidade de altos prédios, com apartamento de alto padrão, para “pessoas de bem”, que no dicionário deles quer dizer “ricos”. Basta ler a coluna de um dos jornalistas porta-voz dessa camarilha, que frequentemente repudia a chegada dos turistas sem dinheiro, dizendo que eles fazem é atrapalhar a vida da cidade.

Os endinheirados não estão procurando uma cidade para morar. Eles vivem em qualquer lugar, têm todas as condições para se mover daqui para ali sempre que as coisas não forem do seu agrado. Mas, os que vivem aqui, e que trabalham na cidade, gerando a riqueza, esses não tem mobilidade, não têm o direito de ir e vir. Precisam vender sua força de trabalho cada vez mais barato e estender a jornada para pagar o aluguel e dar de comer aos filhos. Esses querem e precisam de uma cidade de verdade, para morar e para viver. E é para essa gente que um governo deveria governar.

Mas, claro, isso é um sonho... Que pode virar realidade se a população participar e virar o jogo. Unidas, as gentes têm poder e podem garantir uma cidade boa de viver.

O primeiro passo é ir à audiência e erguer a voz. Dia 23 de junho, Alesc, 19h.


sábado, 17 de junho de 2017

FAM abre com Zeca Pires

Texto: divulgação


Filme abre o FAM, na terça-feira, dia 20, às 21 horas, no Auditório Garapuvu, Centro de Eventos/UFSC.

ANAUÊ, filme documentário de longa metragem, revê os tempos do Integralismo e Nazismo na região de Blumenau em Santa Catarina. Com depoimentos de populares da região de Blumenau, historiadores, filósofos e sociólogos, o filme ao tratar da história passada visita enfaticamente o momento atual no Brasil e no mundo.  São vários depoimentos intercalados com imagens e filmes de arquivo cuja narrativa em primeira pessoa, Édio Nunes faz a voz do diretor, conduz o espectador a este polêmico tema. Fragmentos dos discursos de Getúlio Vargas e de uma entrevista de Nereu Ramos são reproduzidos nas vozes de Gringo Starr e Roberto Lacerda,respectivamente.  O material de arquivo fonográfico em ANAUÊ é riquíssimo com sonoridade da época.

Zeca Pires há anos vem trabalhando na pesquisa deste documentário e o projeto há alguns anos atrás passou pela consultoria de Eduardo Coutinho. O cineasta considera que este documentário, sobre o Integralismo e Nazismo na Região de Blumenau, trás à luz uma discussão que não pode e deve ficar sem provocação e considera o pouco encontrado na historiografia oficial .

O filme foi realizado como a verba do prêmio Edital Cinema da Fundação Catarinense de Cultura edição 2013/2014 (prêmio de R$ 120 mil). Zeca e sua equipe viajaram às cidades do Vale do Itajaí e Itapocu resgatando depoimentos e mapeando acervo fotográfico, fílmico e fonográfico. Portanto o filme também se caracteriza por esta memória.

O filme tem em sua equipe, profissionais experientes como Giba Assis Brasil, que montou o junto com Jonatas Rupert, assessoria de filosofia da Dra. Maria de Lourdes Borges e também profissionais estreantes citando o diretor de fotografia Adenor Gouvea Filho, e o animador Érico Monteiro, reunião  que o cineasta considera de imensa riqueza de diálogo entre gerações.


    

Exposição da obra de Ademir Damasco


Uma exposição com fotos, esculturas e filmes de Ademir Damasco está aberta ao público na padaria Recanto dos Pães. Uma passada para um café e uma conversa e as pessoas podem desfrutar dos documentários feitos por Ademir e seu filho Gustavo. Podem ver as fotos do velho Campeche e as formas que Ademir imprime em raízes e sobras de construção. O trabalho fica na Recanto até o início de julho. Apareça para deixar seu carinho a esse homem que tem dedicado sua vida a registrar a memória do nosso bairro e da nossa cidade. Vida longa Ademir Damasco.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Do que vai se aprendendo



Uma das coisas difíceis de lidar no cuidado com as pessoas mais velhas é a teimosia. E se elas têm problemas de memória então, valei-me São José do passa-quatro. As coisas precisam ser repetidas e repetidas, sem exasperação. Com carinho e cuidado, para que a pessoa não se estresse. Já é duro ter de enfrentar a falta das lembranças, se tiver alguém forçando ou impaciente, tudo fica pior.

Agora nesses dias de frio fui fazer o pai colocar um casaco mais quentinho, para além das blusas de lã. Qual o quê!

- Esse casaco não é meu! Não é meu.

- Pai, é teu sim, tu trouxeste lá do Rio Grande.

- Nunca vi esse casaco na vida. Não é meu, não vou botar.

Respira, respira e respira. Lá fora faz 8 graus. E é lá que ele quer estar.

Rendo-me e deixo o teimosinho sem o casaco. Pego um livro e vou ler, como se nada. E ele fica por ali, no alpendre, com o cigarro entre os dedos, baforando.

- Mas tá frio, heim? Ele diz, e vai para o quarto.

Dois minutos depois volta com o casaco que até poucos minutos “não era dele”.

- Tá quentinho esse aí, pai?

- Tá ótimo!


É assim, na paciência, deixando que as coisas se acertem por si, que vamos levando.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Che e a Universidade necessária a Cuba



Quando a revolução cubana se fez vitoriosa, os estudantes universitários trataram de tomar a universidade. Assumiram o controle das casas de estudantes, passaram a impor regras aos antigos professores e a intervir na direção da universidade. Queriam fazer valer suas demandas. Começaram então várias lutas internas porque a revolução precisava dar a linha para o ensino universitário. Os estudantes queriam autonomia, e não aceitavam que o governo revolucionário dissesse como iria ser o ensino e que carreiras seriam prioritárias.

Então, o governo revolucionário mandou Che Guevara para falar com os estudantes. Ele era um ícone. Haveria de ser ouvido. E o que Che disse não foi o que os jovens queriam ouvir. Mas, foi o que era preciso dizer. “Dizemos nossas verdades, talvez azedas, talvez injustas em alguns aspectos, que machuquem talvez muita gente, mas que transmitem o pensamento de um governo revolucionário honesto”.

E o que disse el Che aos jovens que estavam querendo decidir seus destinos isolados da revolução? Que era preciso uma universidade capaz de formar os técnicos, teóricos e profissionais de que Cuba precisava. Que era preciso formar pessoas para fazer avançar a revolução. Que o governo revolucionário tinha de apontar o caminho. “Quem tem o direito de limitar a vocação de um estudante por uma ordem do Estado? Quem tem o direito de decidir que apenas podem se formar dez advogados por ano e que devem se formar cem químicos industriais? Isso é ditadura? Está bem, é ditadura. Mas a ditadura das circunstâncias terá o mesmo caráter que a ditadura que existia antes sob a forma de vestibular ou de pagamento de matrículas ou de exames que iam eliminando os menos capazes?”

Che foi então confrontado com o ponto central que dividia os estudantes. Eles clamavam por autonomia, não queriam a intervenção do estado.  E Che enfrentou, com sua honestidade crua. Jamais mentiria aos jovens para conseguir o que queria: “Não queremos aqui mistificar as palavras e tentar explicar que não, que isso não é perda de autonomia, que na realidade não é nada mais do que uma integração mais sólida, como o é na realidade.  Mas, essa integração mais sólida significa perda de autonomia, e essa perda de autonomia é necessária para a nação inteira”.

Ele insistiu com os estudantes que a batalha pela qual tantos cubanos deram a vida era a luta de uma nova classe social que agora teria direito à cultura: “O que tentamos fazer desaparecer em Cuba é a luta de classes. Quem se opõe a que um grande número de estudantes de origem humilde adquira os benefícios da cultura, está tentando exercer um monopólio de classe sobre esta”.

A charla dura e verdadeira do guerrilheiro convenceu os estudantes e Cuba seguiu seu caminho de belezas. Formou os profissionais que precisava e é um dos países com mais alto índice educacional.




quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sempre contra o capital...




Todos os dias acontecem coisa que nos mostram o quanto o capitalismo é um modo de organizar a vida que não deu certo. Fracassou. Não cumpriu com a promessa de uma boa vida para quem se esforça. Tudo isso é mentira. Quem mais se esforça é quem menos tem vida boa. Essa é a verdade nua e crua.

Hoje, no centro, vi mais uma dessas cenas que me fortalecem a certeza de que é preciso que chegue o comunismo.

Estava na saída de um desses centros de compras, onde tem várias lojas de variados produtos.  Então vi sair uma típica família classe alta. A mãe, bonita, de salto altíssimo, cheia de joias e as duas filhas, vestidas como princesas. As garotinhas traziam algumas sacolas nas mãos e falavam alto, excitadas, possivelmente por conta das coisas bonitas que estavam dentro das sacolas. No pé da escada rolante estava uma menina, agarrada a uma bolsa puída, com roupas bem surradas e chinelo de dedo com meia.

Impossível descrever aqui, com palavras, o olhar da guriazinha. Ela mirava as duas meninas que estavam com as sacolas. Era um olhar abissal. Não havia inveja, nem raiva, nenhum sentimento ruim. Era um olhar de profunda tristeza. Uma tristeza imensa, oceânica. Ela seguiu as garotas com aquele olhar, até que elas se perderam entre as gentes. Então, ela voltou seus olhos para os pés e ficou ali, parada, olhando pra baixo, pensando sabe lá o que.

Não sei o que motivou aquele olhar de um desespero impotente. Se a alegria das garotas com as compras, se a cena familiar, se a belezura das roupinhas. Não sei. Mas foi o olhar mais triste que eu vi. A menininha de chinelo com meia, em frente a loja chique.

Pensei que num mundo de riquezas repartidas não haverá espaço para isso. Não haverá quem tem mais, quem pode mais, quem consegue comprar e quem não. Não haverá abandono, nem medo, nem insegurança, nem desespero. Ah, quando eu vejo uma guria assim, de olhar tão triste, eu tenho ainda mais certeza de que o caminho é esse que escolhi. Lutar contra o capital e construir o mundo novo.   


Artigas, um caminho





Por Raul Fitipaldi

“Artigas, um caminho”, de Elaine Tavares é um documentário que percorre a estrada épica do Protetor dos Povos Livres, José Gervasio Artigas, líder e ícone da independência oriental e apresenta o trajeto que durante quase 600 km recorreram Artigas e seu Povo, de Montevidéu até Concórdia, na atual Argentina.

Elaine Tavares resume em 35 minutos, com entrevistas, belas paisagens e grande sensibilidade jornalística, o Êxodo Oriental, ou melhor, a Redota, nome dado pelo povo da Banda Oriental àquela gesta histórica que, iniciada em 23 de outubro de 1811, construiu o caminho da independência uruguaia.

É nesse momento resgatado pela jornalista e escritora que começam os processos libertários do Sul das Américas. A luta pela Reforma Agrária, a luta dos pobres do campo e das periferias, dos indígenas, dos negros e pardos, marchando em retirada estratégica, tão dolorosa como genial, para organizar a vitória final contra o dominador espanhol e as oligarquias nascentes.

“Artigas, um caminho” se oferece como um audiovisual leve, informativo e didático, que recolhe, na história desta região da Pátria Grande, o instante exato em que nossos povos do Sul, tomaram consciência de sua capacidade para conquistar a liberdade e derrotar a opressão.

O vídeo será apresentado no Festival Audiovisual do Mercosul, o FAM, dia 21 de junho, na sessão de documentários que começa às 16h e 30min. Artigas, um caminho será projetado junto com o documentário Som dos Sinos, de Marina Thomé e Marcia Mansur.

Ficha técnica:
Roteiro e direção: Elaine Tavares
Direção de fotografia e edição: Rubens Lopes
Som direto: Paulo Renato Venuto
Assistente de câmera: Antônio Martins
Duração: 31’54”

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Quem controla os meios controla a vida


No filme, como na vida, os trabalhadores são os desgraçados

Tem um desses filmes bobos, de roliúdi, bem antigo, estrelado pelo canastrão Arnold Schwarzenegger, que sempre me impactou, desde a primeira vez que eu o vi. Por acaso, me deparei com ele outra vez nesse final de semana e fiquei a matutar sobre o domínio que os que manejam o sistema capitalista de produção têm sobre nós. Eles nos mantém no limite da vida, para que possamos gerar, com nosso trabalho, a riqueza da qual eles desfrutarão.  É um grotesco jogo, no qual os trabalhadores são as peças mais frágeis, porque só tem a força de trabalho para vender.

O filme, produzido em 1990, do qual falo, é “O Vingador do Futuro”. Conta a história de um cara que viaja para Marte, planeta que naqueles dias já está ocupado pelos terráqueos. É um filme tolo, com muitos tiros e força bruta, afinal, é Schwarzenegger.

A cena que me impactou é a do momento em que os dirigentes da colônia de terráqueos desligam o ar. Como todos sabem, em Marte não tem oxigênio. Todos que ali vivem dependem do suprimento de ar que é liberado por quem controla/dirige o lugar. Então, como eles não conseguem parar o herói, decidem punir a colônia inteira, para ver se o cara se entrega. É assustador. Sem o ar, as pessoas vão asfixiando, iniciando um processo de morte horrível.

Pois no capitalismo é assim. Os caras vão privatizando tudo, tirando da gente inclusive aquilo que nos é vital, como a água, por exemplo. Quantos milhões de pessoas vivem hoje em luta por conta da água? E como todos nós naturalizamos o fato de que a água é uma mercadoria, tendo cada um sua garrafinha? Como se ter a garrafa, garantisse a água. Não garante. Se tu não tiveres dinheiro, não terá a água. Logo, logo eles encontrarão um jeito de privatizar o ar. Imaginem como será?

É o que acontece agora com a reforma trabalhista. É o núcleo duro do capital asfixiando os trabalhadores até o limite do suportável. Como naqueles jogos sexuais em que um amante leva o outro até o limiar da morte, e depois goza sobre ele. Assim faz o capital. Aperta, asfixia, leva ao limite, depois goza. E o gozo é só para uns poucos, sempre. Para a maioria resta esse agoniante esperar. Quando virá o próximo momento de tortura? Como colocará comida na mesa? Como salvará o filho doente? Como cuidará do pai velho? Não sabe. Não saberá. Tudo o que sabe é que as coisas vão ficando sempre pior. 

No filme de roliúde tem um herói que, enfrentando todo o poder, com a ajuda de uma mocinha, consegue liberar o oxigênio para todos, exatamente naquele momento em que a morte escorrega seu manto sobre as gentes. No filme, as maiorias estão apáticas, apenas suportando o domínio e a tortura impostos por um grupo minúsculo que está no poder. É o herói que as salva. 

Mas, a vida real não é um filme de roliúdi. Não há heróis, nem heroínas que, sozinhos, possam liberar o oxigênio. Essa batalha, aqui e agora, contra o capital, tem de ser uma construção coletiva, das gentes conscientes, organizadas e em luta. Somos sete bilhões de almas contra um grupo muito pequeno de gente que domina o sistema de produção. O poder é nosso.

Então, porque não o liberamos? 

A historiadora Virgínia Fontes diz que as pessoas tem medo de enfrentar algo novo. Não sabem o que pode vir com um novo modo de produção, como o socialismo, por exemplo. Temem o que não conhecem. Pensam que a vida vai se desarrumar. Mas, como bem diz Virgínia, o capitalismo já desarruma a vida, sempre e a toda hora. Por que, então, não arriscar? 



domingo, 4 de junho de 2017

Sobre os livros



Para Ângela Vilma

Outro dia uma amiga postou no “face” um texto sobre a solidão dos livros que se escreve e que não são lidos. Fiquei a pensar sobre isso, eu que escrevo. Também tenho alguns guardados nas  estantes, como outros escritores que conheço. Livros que ninguém comenta, que ninguém faz resenha. Livros mortos, que não falam nada a ninguém. Mas, creio eu, esses livros não estão acabados. Não. Sozinhos, eles esperam.

Há quem diga que não vale mais a pena editar livros. Ninguém mais lê. É só textinho de “facebook” (o livro da nossa cara). Prefiro achar que não. Os livros são entidades eternas e, ainda que dormidos, preservam sua magia.

Guardo na memória a descoberta de um livro, desses, feito morto, numa velha estante do sebo Martin Livreiro, em Porto Alegre. Eu estava lá, procurando por exemplares da Revista “O Cruzeiro” para as análises do meu mestrado. E o moço mandou eu subir. Por certo era um andar onde pouca gente ia, no qual ficavam as publicações mais antigas. A revista “O Cruzeiro” a primeira revista de reportagens com distribuição nacional, nascida no longínquo 1928.

E eu fiquei ali, sozinha e esquecida, a fuçar pelas estantes cheias de livros e revistas velhas, sentindo o nariz coçar, com a fuligem característica do papel carcomido. Procura aqui, procura ali, move uma revista, move um livro e então, quando eu puxava um grande volume de capa dura, um livrinho pequeno saltou para fora da estante. Assim, como se tivesse vida própria. Catei do chão e sem curiosidade, já ia devolvendo para o armário, quando ele outra vez se moveu, e escorreu da mão. Eu, que creio em bruxarias, entendi que o livro queria ser visto.

Peguei-o de volta e fui folheando. A capa estava rasgada, meio comida pelas traças. Antônio Olinto. Nunca tinha ouvido falar. Na contra capa, a surpresa: Jornalismo e Literatura. Um achado! O livro, escrito em 1955, me saltava às mãos numa tarde fria de Porto Alegre, no ano de 1999. E o que descobri nele abriu caminhos para minha compreensão do jornalismo.

Ele estava ali, dormindo. Sabia que um dia iria chegar uma mulher, pequenina e curiosa, e ele então saltaria da estante, pronto para o encontro. Estamos juntos até hoje. Vez em quando, se o jornalismo vira gosma, se não consigo vislumbrá-lo na vida mesma, eu recorro ao livrinho e me aconchego às suas palavras, ditadas desde tão longe no tempo. “O jornalista tem que ser como o artista, que mantem intacta em si a capacidade de sentir e transmitir sentimentos estranhamente verdadeiros”, dizia Olinto. Ah, mestre, que bom que te encontrei... E assim sigo eu, cumprindo essa lição.

Então, por conta desse encontro, tão abissal, eu insisto: os livros são entidades mágicas, que esperam por nós, em algum lugar. Não deixe de escrevê-lo, escritor, escritora. Não deixe!!! 


sexta-feira, 2 de junho de 2017

A padaria do Bonetti

A velha casa ainda está lá...

Das memórias de infância uma que me assalta de tempos em tempos, de infinita ternura, é a dos irmãos Bonetti. Eles tinham um grande armazém numa das esquinas próxima à minha casa, e também uma padaria. Todos os dias eu ia, com meu irmãozinho, buscar o pão. O pedido era sempre igual: um pão d´água grande e outro sovado, conhecido naquelas bandas de São Borja como pão cabrito, por conta de seu formato, com uma espécie de chifre.

Lembro como se fosse hoje do jeito e do clima da padaria. Tinha aqueles balcões antigos de madeira boa, com tampos e vitrines de vidro, onde ficavam os pães, à mostra. E tinha o Bonetti, um italiano grande, de grandes mãos. Acho que o “grande” aparece porque éramos nós, então, pequeninos. E todos os dias tínhamos o mesmo diálogo:

- Bom dia, quero dois pães, um d´água e um cabrito – Eu dizia, solene.

E o Bonetti devolvia, igualmente solene:

- Trouxe a corda?

Eu, primeiro, arregalava os olhos, surpreendida, e depois vinha a gargalhada: a corda era para amarrar o “cabrito”. Ele também ria, um riso bom, e ia pegando os pães pra gente, enrolando-os naquele papel pardo de padaria.

No dia seguinte lá vínhamos nós com mesmo pedido, e lá vinha o Bonetti com a mesma piada. E era sempre engraçado.

Hoje, quando vou comprar pão, no geral pão ruim, porque nunca mais se viu um pão como aqueles do Bonetti, eu sinto sempre uma nostalgia. Do formato do pão, grande e crocante, do riso do Bonetti, daquela cumplicidade, daquele jeito de ser comunidade. Já os pães cabrito, nunca mais vi, mas os tenho fixos na memória. E, por vezes, nos sonhos, me vejo buscando-os, com a corda na mão, subindo a João Palmeiro, que naqueles dias era de terra vermelha. Eu e meu mano, de mãos dadas, num tempo tão feliz.  


quinta-feira, 1 de junho de 2017

O pai e as poças


Depois de quase um mês de chuva, o sol apareceu nessa quinta-feira. Hora de pegar o pai e sair para dar uma volta, desenferrujar as pernas. Fomos ao mercado, que é o único passeio possível. E lá fomos nós, arrastando os sapatos, devagarito no más.

Uma boa parte da rua é calçada, mas há um trecho onde o chão é de areia e, quando chove, é comum a formação de centenas de buracos nos quais a água fica acumulada. Cuidando dos passinhos do pai, avisei:

- Pai, vai pelo cantinho, cuidado com as poças de água.

E ele, sem nem me olhar, se foi caminhando na direção das pocinhas. Splash! E lá tascou ele o pé dentro d´água.

- Cuidado, vai molhar o pé.

E ele, tal qual o Armandinho, do Alexandre Beck, seguiu saltitando, sempre fazendo questão de pular bem dentro da poça de água, esparramando o barro por todo o lado. Ria feito um menino. Foi assim por todo o caminho de areia.

Resultado: deixei que ele fosse enlameando os pés e a calça. Afinal, só se vive uma vez, e o quê pode haver de mais divertido do que ficar saltando dentro das poças de água numa manhã de sol?


Chegando a casa, foi hora de fazer um escalda pés, limpar os tênis e trocar as calças. E ele, faceirinho, curtindo a traquinagem. 


terça-feira, 23 de maio de 2017

Artigas, um caminho

o exército de Brancaleone...


Gina, a condutora, artiguista de valor


Sempre que nos encontrávamos nosso assunto preferido era o Artigas, o homem que conduziu o povo da banda oriental para a liberdade. Gina e eu somos orientais. Ela, do Uruguai e eu de Uruguaiana. Nossas histórias se misturavam com a história daquela região. Gina, carregando suas caixas de livro, armando a barrada da Expressão Popular, me provocava. “Tens que escrever o livrinho sobre o general”. E eu dizia: - vou escrever, vou escrever. Por vários anos fomos recolhendo tudo sobre Artigas e nas nossas conversas ele era sempre o foco. Ambas éramos apaixonadas por aquele homem. Então, em 2015 decidi fazer o caminho do “êxodo”, a saga do povo oriental que seguiu Artigas por mais de 500 quilômetros Uruguai afora, primeiro fugindo e depois voltando para a vitória.

Num carrinho Fiat, todo estuporado, confiando na providência, partimos, eu, Rubens, Antônio e Renato. Uma equipe minúscula, com uma câmera e a ideia na cabeça. Dois nunca tinham mexido com vídeo. Mas, não faltava vontade. Viajamos por quase 20 dias, atravessando o Uruguai. Buscávamos as pegadas de Artigas. Foi uma viagem fantástica, de risos, lágrimas e descobertas.

Na volta, fui ver a Gina. Queria contar pra ela tudo que tinha vivido. Foi uma tarde memorável. Ela já estava doente, mas sua alma era a de uma menina, encantada com todas as estórias. Rimos, tomamos café, falamos de Artigas, de toda a experiência, do meu encontro com sua alma libertária. Pedi a ela que me desse uma entrevista. Falando de Artigas. Ao longo de toda nossa vida juntas ela nunca quis me dar entrevista. Dizia que sua vida não era importante. Ora, pois. Mas, para falar de Artigas, sim, topava. Foi a primeira e última vez que ela fez um depoimento gravado em vídeo. Nós duas sabíamos o quanto aquilo era importante. Era Artigas.

Ela queria muito que o vídeo sobre o Artigas ficasse logo pronto, para que mais pessoas pudessem conhecer aquele homem que tanto nos arrebatava. E nós, com as parcas condições materiais que tínhamos, fomos fazendo o que era possível. Demorou demais.

No dia 2 de setembro de 2016 a Gina me fez essa sacanagem. Encantou. Não pode ver o vídeo pronto. Quase desisti do projeto. Estava difícil demais terminar. Mas, a Gina merecia que fôssemos até o fim. Com a parceria essencial do amigo/filho/irmão Rubens Lopes, o trabalho seguiu. Com sua mão firme na edição, o documentário sobre o Artigas foi tomando forma. E, no início desse ano, depois de várias batalhas, terminamos.

Hoje saiu a notícia de que o nosso vídeo, pequeno e intimista, foi selecionado para o FAM, a mais importante mostra de vídeos e filmes do Mercosul. Foi uma alegria sem fim. Finalmente Artigas vai ser visto por outros tantos brasileiros, tal qual a Gina queria, mostrado pelos nossos olhos. Ela é condutora. Ela é alma que move cada centímetro. Chorei bastante. Queria que ela estivesse viva para ver. É um vídeo singelo, como era a Gina, e eu sei que ela o amaria.  

Divido então esse contentamento, certa de que todos os nossos amigos lá estarão no dia da mostra, que será na UFSC, em junho. Para ver a Gina, para ver Artigas e para conhecer essa saga incrível do povo da banda oriental. A nossa história. A história da nossa libertação.

E, sei, que de algum lugar - talvez de dentro de mim - a Gina estará vibrando com seu riso doce, murmurando: mi general!!!! 


O terror na Venezuela vem da oposição


Oposição ao governo Maduro começou trancando ruas, depois, passou a queimar prédios públicos. Chegaram a colocar fogo em um hospital infantil. Agora, queimam na rua pessoas que eles identificam como "chavistas". Uma série de ações coordenadas e financiadas possivelmente pelas instituições dos Estados Unidos. A intenção é provocar uma guerra civil, destruir economicamente a Venezuela e recuperar o poder. Com todos os erros de Maduro, a maioria da população ainda prefere o bolivarianismo e nessa nova fase da luta, certamente haverá de tomar as armas para defender a revolução. A oposição, hoje estrategicamente liderada pela mulher de Leopoldo López não está nem aí para os jovens que se matam nas ruas. O que quer é colocar outra vez a mão no petróleo. Uma tristeza. Todo apoio ao povo venezuelano, soberano e lutador. No pasarán!

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domingo, 14 de maio de 2017

Um dia de domingo


Dia de domingo, sol de outono, aquela belezura. Mas, aqui no meu bairro não há qualquer espaço onde se possa passear com um velho. Ou é a praia, ou nada. Como ele precisa caminhar, eu vou com ele até o mercado. São 20 minutos no tempo do passinho dele. Vinte pra ir, vinte pra voltar. Andamos pelas prateleiras, compramos alguma guloseima, passamos na farmácia para pesar e pronto. Acabou. No pequeno centrinho comercial do Castanheira não há opções, e até os cachorros precisam ficar de fora. Como o Steve insiste em nos seguir, temos de voltar rápido, pois todos nos olham com maus olhados. Então, lá vamos nós de volta para casa.

É incrível como nesse nosso mundinho periférico, capitalista dependente não há mesmo qualquer cuidado com as crianças ou os velhos. Tudo é planejado para a azáfama do capital e os caminhos só levam ao trabalho. Lazer é para poucos. Se a pessoa não tem carro, então, baubau. Resta o girar em torno da quadra, no geral em solidão, pois os muros são altos e as pessoas estão fechadas nas suas casas.

As crianças ainda recebem algum cuidado, afinal, elas serão os braços do amanhã. Por isso há creches, escolas e alguns parquinhos mal cuidados. Mas os velhos, esses não têm mais nada para dar. Já foram sugados de todo. Não geram mais valor. Então, que se fodam.  Para eles, não há espaços de lazer, não há cuidados, não há nada. Cada família que se vire. E o destino da maioria é ficar dando tratos ao nada, sozinho, em alguma varanda, quando não, trancado em algum quarto.

Cuidar de um velho é um desafio. Não temos mapas, não nos preparamos, não sabemos como fazer. Tudo é feito às escuras, tateando, errando e acertando.  O que temos nas mãos é um cristal, frágil, delicado, qualquer aperto quebra. Com eles não são válidas as didáticas e as pedagogias infantis. Eles já cruzaram todo o caminho e, se estão esquecidos, não se perderam de todo. Então, há que ser cuidadoso. Por vezes demoramos horas para arrancar um sorriso e é preciso muita paciência para enfrentar os ataques de mau humor, a impaciência e a tristeza.

Com meu pai tenho aprendido. Não é fácil. Penso que eu, ainda tenho a sorte de contar com a ajuda dos que vivem comigo, meus sobrinhos e meu companheiro. Mas me angustia saber que nesse mundão de deus tem uma carrada de velhinhos perdidos e sozinhos, porque as famílias não têm a menor condição de cuidar. Há que prover a vida, há que trabalhar, há que moer o corpo na roda do capital. Não é culpa de ninguém, é a porra da vida que não abre saídas.

Essa é outra batalha que temos de travar. Arrancar do poder público garantias de cuidados para aqueles que já atravessaram o grande deserto. Dura batalha num país que hoje discute justamente o contrário, buscando tornar a velhice ainda mais cruel, sem aposentadoria digna, sem amparo. E ainda temos de aturar propaganda de previdência privada falando em "melhor idade". 

Definitivamente precisamos de revolução. Pelos que ainda não vieram e pelos que insistem em ficar, mesmo quando o sistema de moer gente os quer excluir. 


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sobre obrigada e gratidão...



Já faz algum tempo que pessoas que vivem a minha volta incorporaram a palavra “gratidão” quando querem agradecer alguma coisa... Um dos argumentos, me disse um amigo, é o de que a palavra “obrigado”, dá um sentido de obrigação. E que as coisas que as pessoas fazem graciosamente por alguém não podem obrigar que o outro tenha de retribuir ou pagar. Por isso, gratidão. Eu, que tenho sangue e alma indígena, nunca gostei muito dessa explicação. Sigo usando o “obrigada”.

Explico o porquê disso. Na cultura dos povos originários de toda a franja oeste da América Latina existe um elemento fundante da cultura e do modo de ser que é a reciprocidade. Ou seja, a cada coisa que alguém faz para outro alguém, deve corresponder um ato recíproco. Isso quer dizer que o nosso “obrigado” deveria ser mesmo a promessa de uma obrigação. Fazer pelo outro algo tão bom quanto foi feito para nós. Porque na cosmovisão originária, a reciprocidade não é um ato de vontade individual, mas um dever cósmico, coletivo, que reflete a ordem universal da qual o ser humano é parte. Assim que a reciprocidade também deve existir  entre os humanos, os humanos e a natureza, os humanos e as divindades. É isso que determina o senso de justiça. A ética cósmica. Por isso que se dá pago à terra e se oferecem graças aos deuses e aos animais.

Assim que mais do que nos sentirmos agradecidos, sempre que alguém nos fizer algum bem, temos de nos sentir obrigados, sim... Obrigados a estabelecer uma reciprocidade com aquele “bem”, mantendo assim o equilíbrio no cosmo, na vida.

Falo isso porque hoje percebi que o facebook colocou um botãozinho de “gratidão”. E fico cá comigo pensando se isso não reforça esse absurdo individualismo que toma conta de nossa sociedade. Aceitar o “bem” sem que nos sentirmos obrigados a uma recíproca? Apenas fruir o que nos agrada sem se sentir obrigado a manter o equilíbrio cósmico? Talvez não, talvez sim... 

Sei lá, ainda prefiro a sabedoria ancestral dos meus  antepassados, que me é sussurradas na noites desse meu lugar. E, amorosamente, prefiro seguir com meu “obrigada”, sempre obrigada a retribuir, de alguma forma, todo o bem que me é dado, seja pelos humanos, pelos bichos, pela natureza, pelos deuses... Na corda bamba intergaláctica, equilibrando o cosmo.