quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Milanesas




Minha mãe odiava cozinhar. Mas, cozinhava. Nunca trabalhou fora de casa e então, sobrava para ela essa tarefa difícil. Acordava às 10 horas da manhã e já vinha resmungando. Sempre foi assim. Tomava um cafezinho preto e já começava as lides da cozinha. Geralmente mantinha uma horta, com verduras e legumes. Nunca foi capaz de fazer um prato só. Quando dava onze e meia, e o pai chegava do trabalho para almoçar, tudo já estava na mesa. Havia sempre uns três ou quatro tipos de comida diferentes. Todos com um sabor espetacular. Sempre me surpreendeu aquilo, visto o mau humor que tinha ao prepará-los.

Não gostava que metêssemos o bedelho na cozinha, mas ainda assim, fui aprendendo, no olhômetro, os segredos de sua culinária. Saí de casa bem cedo e quando vinha, nas férias, gostava de cozinhar pra ela, aliviando-lhe o fardo, ainda que por poucos dias. Ela deixava, mas ficava na supervisão. Assim que meu jeito de cozinhar tem o jeito dela.

Tal qual ela tampouco gosto de cozinhar. E tive sorte. Saí de casa cedo e desde os 17 anos vivi sozinha, sem preocupações com horários ou almoços. Comer fora virou hábito e nos finais de semana sempre me satisfiz com um sanduba ou um arroz com ovo. Quando resolvi enfrentar uma vida a dois, lá pelo final dos anos 90, também me presenteou a sorte com um companheiro que gosta de comandar a cozinha. E quando meu sobrinho veio morar comigo trouxe sua veia gourmet. Sorte grande em dobro. E eu fora da cozinha.

Agora, há mais de um ano estou cuidando do meu pai. E nisso, vou vivendo um processo de re-cordações. Voltam ao coração às lembranças de um tempo que ele vai esquecendo. É como um jogral maluco. Dentre essas coisas que ele esquece e eu lembro está o gosto da comida da mãe.  E como às vezes eu fico sozinha com ele, sou obrigada a voltar à prática das panelas, afinal, a comida tem de aparecer na mesa.

Hoje, resolvi fazer bife à milanesa. Minha mãe os fazia de um jeito espetacular, ao estilo argentino. Quando ela anunciava esse prato, as bocas salivavam e até os vizinhos passavam pela cozinha para experimentar. Eram famosos os milanesas. Puro primor. Assim, ouvindo sertanejo de raiz e tomando vinho com o pai, fui construindo o edifício do sabor, exatamente como ela fazia. Havia tanto tempo que não me aventurava por esses caminhos e não sabia o que poderia dar.

Mesa posta, milanesas prontos, servi com arroz e purê. A carne era macia e o pai comeu três bifes, com estalos de prazer. Quando já ia terminando o terceiro, vaticinou: “estão iguais aos da Helena”. Era a primeira vez que ele falava da mãe em meses. E saiu assim, naturalmente, como se nada. Eu fiquei quieta e ele seguiu mastigando, tranquilo.

A vida e suas prosaicidades... 


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sobre Lula e o espetáculo judiciário



Sempre é bom frisar. Não sou petista, nem lulista. Faço minhas críticas ao governo do PT desde que Lula, no primeiro mandato, fez a reforma da previdência dos trabalhadores públicos. Nunca me abstive de apontar os erros e os equívocos e considero que os quatro mandatos petistas causaram muito mal aos trabalhadores, em vários aspectos. Desde a cooptação de lideranças até a responsabilidade pela domesticação e desarmamento político de sindicatos e movimentos. Isso sem falar na política econômica, na conciliação de classe e muito mais. Mas, também nunca me furtei a aplaudir o que sempre considerei importantes pontos, como a eliminação da fome e a criação de vários programas sociais que ajudaram milhões de famílias a sair da pobreza extrema.

Também já me manifestei várias vezes sobre o que considero um tremendo absurdo: o fato de o judiciário burguês, que é o realmente existente, não cumprir suas próprias regras no trato com os cidadãos e cidadãs. Sejam eles pobres, negros, favelados ou figuras em queda da classe dominante. A lei burguesa, que dizem valer para todos, é clara no quesito presunção de inocência e certas coisas só podem passar a alguém depois que foi julgado e condenado.

Bom, isso nunca foi respeitado no trato com as gentes empobrecidas. Desde minhas primeiras reportagens nas delegacias por onde andei, sempre foi comum delegado mandar filmar cara de “vagabundo”, mesmo que só pairasse sobre o dito cujo a mera suspeita. Fosse pobre ou preto, tudo era permitido. No geral, figuras ilustres ou filhos da classe dominante nunca passavam por esses constrangimentos. Caso fossem presos eram preservados, suas imagens não eram permitidas em nome do direito do cidadão em não querer ser filmado, ainda mais numa situação vexatória.

A queda da presidenta Dilma, a partir de um golpe, tendo como pano de fundo uma histeria anticorrupção por parte da população que, sempre foi muito bem dirigida ao PT em particular, virou essa prática de cabeça para baixo.  Na ânsia de derrubar os políticos petistas naquilo que eles tinham como patrimônio (a ética), todos os holofotes passaram a ser dirigidos a eles, e uma pequena suspeita já era suficiente para espetáculos midiáticos, repetidos à exaustão nos meios de comunicação. Assim, o que era uma prática para os empobrecidos passou a ser usada também com importantes figuras da política. Detenção escandalosa acompanhada pela mídia, algemas, prisões preventivas, raspagem de cabeça, toda a sorte de humilhações, comuns aos comuns, e que agora eram usadas também com os políticos, “essa raça ruim”.

Na malta enfurecida pouco importava que se dissesse que eram ações ilegais, que estavam ao arrepio da lei, que não respeitava a presunção da inocência. Não. Danem-se! A regra era a mesma já tão familiar às famílias de bem, a pedagogia do Big Brother: elimina, elimina, elimina.  E assim foram caindo figuras como José Dirceu, José Genoíno e tantos outros em julgamentos estranhos, nos quais não apareciam provas, mas apenas convicções.

O alvo sempre mirado era Lula. Havia que encarcerá-lo também, fazê-lo passar por toda a humilhação reservada aos párias. E começaram os ataques. De novo, ações espetaculares, atos de mídia, teatro romano, detenção coercitiva, colheita de documentos, intimações, tudo para seguir incentivando a histeria anti-PT. Pelo que se sabe nada de provas contra Lula. Nenhum ilícito. Ainda assim ele já foi condenado pela compra de um apartamento que, como já foi provado, nunca foi efetuada. Um processo digno de Kafka. Uma aberração. E a cada novo documento apresentado, novas convicções: os documentos são falsos, as alegações não são verdadeiras. Tudo baseado no desejo dos juízes. O direito do desejo. Essa é a cruz dos petistas.

Mas, como tudo escapa, a sanha contra os petistas foi tocando outros nichos e outros personagens foram sendo igualmente enredados na rede dos abusos. Corruptos confessos, por conta de delações espetaculosas, iam agregando “provas” (feita do disse-me-disse) e saindo ilesos. Novas prisões de “inimigos menores” como Cabral e Garotinho seguiam a cartilha irresponsável da ação conjunta polícia/mídia. Até o milionário Eike Batista passou pela dolorosa exposição vexatória, de cabeça raspada, adentrando o presídio. E os juízes começaram a ganhar as redes como novos heróis da malta. Como se tudo isso estivesse barrando a corrupção. Não está. pelo contrária, ela avança, e está nas entranhas do poder.

Em Santa Catarina o modelo espetacular da trinca judiciário/polícia/mídia levou um homem à morte. Acusado de tentar obstruir uma investigação sobre corrupção no interior da universidade, o reitor da UFSC foi preso de forma espalhafatosa e submetido ao escracho público. Nenhum documento, nenhuma prova, nada que pudesse transformá-lo em um risco para a sociedade. Ainda assim foi levado ao presídio de segurança máxima. O reitor não suportou ver toda a sua vida escapar das mãos por um ato tão insano. Matou-se. Ainda assim, as gentes que atuam nessas áreas não arrefecem. Lançam notas dizendo que estão certas. E que é assim mesmo, e é porque é.

Essa semana, outra vez o denuncismo anônimo levou a polícia, sempre junto com a mídia, à casa do filho de Lula. Acusação: ele estaria fumando maconha. Opa! Teria dentro da casa a carga do helicóptero encontrado na fazenda de Parrela? Não. Ele estaria fumando. Ah, tá, então é crime grave. Invade! E lá foi a polícia com um mandato fazer revista na casa para achar um baseado. Não achou. A tática é boa. Já que não dá para pegar o Lula, vamos destruindo pelas beiradas. Pega um filho aqui, uma sobrinha ali, uma tia, um primo, um cunhado e tudo isso pode formar um mosaico que diga o quanto Lula é ladrão. E dê-lhe a alimentar a histeria, para que os julgamentos se façam nas redes sociais e nas ruas, e a condenação aconteça sem passar pelos tribunais. Está abolido o direito. Agora é a malta ensandecida que decide e abaixa o polegar como nos espetáculos romanos, exigindo a morte do gladiador.

Tenho gravada na mente a frase do desembargador, amigo do reitor Cancellier, na sessão fúnebre da UFSC: “Eu não conheço esses juízes, esses delegados. Não conheço e não quero conhecê-los. Porque tenho medo deles”. Eis o drama. Quando aqueles que deveriam ser os guardiões do direito nos provocam medo, que fazer? É a treva.

O clássico do cinema “O advogado do diabo” é uma boa reflexão para esses tempos. Quando a vaidade assoma tomando conta de tudo, nada mais pode ser parado. O ovo da serpente choca serpentes. A justiça não é uma ação espetacular. Ela é, ou deveria ser, espaço do cuidado e da dignidade. E os crimes deveriam ser investigados no silêncio das sombras, para não espantar o criminoso, para preservar as provas e tudo mais. Os agentes da lei deviam ser alguma coisa assim como o Batman, necessários às gentes, mas anônimos, para que pudessem atuar melhor, garantindo a justiça e não alimentando o ego. Os holofotes acendem a vaidade e a vaidade é a porta do inferno. Para o vaidoso, e para os que ele ataca. 

Não sei se Lula é ladrão, nada foi provado. E mesmo que fosse. Nem ele, nem o Eike, nem o reitor, nem o Garotinho, nem o Rafael Braga ou a qualquer outra pessoa precisa passar pelo aviltamento de ser julgado antes de ser condenado, antes que tenham sido respeitados todos os ritos da Justiça. 

Isso é o mínimo que podemos querer, apesar de saber que ainda assim pode haver injustiça.

Mas o linchamento público, feito com base na histeria descabeçada, fatalmente leva a tragédia, como a que vivemos agora, aqui em Florianópolis, com a triste decisão do reitor da UFSC. 

Há que estancar esse surto sob penas de perdermos o controle sobre a Caixa de Pandora. Uma vez aberta, ninguém mais consegue controlar.




A UFSC e os desafios dos trabalhadores


Fui até a reitoria ontem, acompanhar a reunião do Conselho que discutiria os rumos da administração da universidade após a trágica morte do reitor Luis Carlos Cancellier. Levei minha câmera. Imaginava encontrar o saguão lotado de gente. Professores, alunos e técnico-administrativos, ansiosos por acompanhar o debate e dar seu pitaco, como sempre foi. Os destinos da UFSC suscitando discussões e massivas aglomerações. Surpreendi-me. Pouquíssimas pessoas acorreram e ali estavam entre perplexas e apáticas. Apenas um pequeno grupo de trabalhadores - no qual me incluo - preocupava-se em participar do debate, distribuindo um panfleto com sua posição sobre o tema aos conselheiros e aos presentes.

Os demais seguiam sua vida nos espaços da UFSC, aparentemente indiferentes ao que se desenrolava na Sala dos Conselhos. A instituição tocando sua vida, intocável e inerte. Praticamente nenhuma paixão, como as que outrora sacudiam a universidade, no debate de qualquer coisa que tivesse a ver com sua realidade. 

Entrei na UFSC em 1994, indo direto para a Agência de Comunicação. Lá, a vida pulsava. Havia o Jornal Universitário, que discutia a realidade local e nacional, havia trabalhadores que se envolviam com a UFSC até o pescoço. Tinha amor, tinha paixão, tinha ódio, tinha compromisso, tinha alegria e tinha união. Trabalhava-se além da conta e ao final do expediente ainda ficava-se na UFSC para um churrasquinho, uma cerveja de fim de dia, uma confraternização que era sempre regada ao debate sobre a política da instituição. 

Nos movimentos de trabalhadores também iluminava a paixão e o compromisso. Reuniões, greves, debates, festas, muita discussão, divergências, lutas. E, em tudo, o amor pela UFSC, o compromisso com o serviço público, o cuidado com o trabalho, com o atendimento das pessoas. Vêm à memória pessoas como Helena Dalri, Moacir Loth, Valcionir Correa, o Assis, o Silva, o Maneca, a Angela Dalri, entre tantos, gente que entregou sangue e suor pela UFSC. Para quem a universidade era casa.  Lembro-me da alegria que dava na gente, caminhando pelo campus, com suas flores, seus canteiros bem cuidados, seus projetos de música na Concha, a estudantada pelos caminhos, no Centro de Convivência, nos CAs, debatendo e discutindo o país.

As grandes batalhas contra os projetos de privatização de FHC. Anos e anos de resistência, passados na luta renhida, com movimentos, ocupações e batalhas campais na rua. Trabalhadores, estudantes, juntos, na defesa da universidade pública. 

Ontem, era essa universidade que eu queria ver. Mas, é claro que ela não existe mais. Praticamente toda aquela geração que fazia a luta nos anos 90 e 2000 já está fora da UFSC. Muitos se aposentaram justamente por conta dessa mudança na atmosfera da vida universitária. A universidade acomodou-se aos tempos de “vacas gordas” do governo petista. Os salários melhoraram, as lutas foram ficando pontuais, no geral por arrumação no plano de cargos. Depois, por conta de algumas gestões, principalmente a de Roselane/Lúcia passou de espaço de acomodação a um ambiente doentio, hostil, feio. Quem não se lembra da chuva de processos contra os trabalhadores que levou pessoas ao adoecimento e à exclusão? 

Os novos trabalhadores que chegaram já no século XXI encontraram uma universidade diferente. Muitos deles também sequer vinham para a UFSC por conta daquele desejo fervoroso de servir ao público, de atuar na área da educação. Era só mais um concurso, e deparando-se com o empobrecimento salarial, já partiam para outro e outro. E os que ficaram vivenciaram momentos de profunda decepção, o que os levou ao medo ou a indiferença. Um exemplo disso foi a greve das 30 horas, movimento histórico dos trabalhadores, no qual as portas da UFSC ficaram abertas ao público de forma ininterrupta. Um movimento que levantou de novo a estima dos trabalhadores, que envolveu em paixão, em amor, aqueles sentimentos que marcaram a geração passada. Uma greve “diferente”, de ação, de atuação, de trabalho contínuo, que mobilizou toda a nova geração. Mas, a forma como terminou, derrotada pelo próprio sindicato da categoria e punida exemplarmente pela reitora Roselane, sufocou e interrompeu o processo de recuperação do compromisso pela UFSC. Foi um golpe e tanto.

Desde aí, com cortes de salário, perseguições e até a tentativa de exoneração de um de seus líderes, o movimento arrefeceu. Cada um foi cuidar da vida, cortado das asas. Muita gente adoeceu, outros tantos seguem doentes, se arrastando pelos corredores. Muitos sofreram processos e tiveram a vida interrompida. Um estado policialesco foi sendo criado dentro da universidade, o que marcou de maneira profunda os trabalhadores. 

A nova administração, com Luis Carlos Cancellier, tinha esse desafio. Devolver o velho quadro de alegria e de comprometimento que a UFSC sempre suscitou nos trabalhadores. E ele começou mal, já que o processo de exoneração do trabalhador Daniel Dambrowski, fruto da greve das 30 horas, durante a gestão de Roselane/Lúcia, seguiu seu curso, deixando os trabalhadores com a orelha em pé. Foi preciso muita batalha para reverter a situação. Assim, pressionado pelo que ainda restava do espírito de luta dos técnico-administrativos, Cancellier acabou encontrando um caminho, e isso era o que o diferenciava. A incansável busca por soluções negociadas, passando ao largo dos conflitos. Daniel não foi exonerado e essa pequena vitória poderia ser a alavanca para a retomada da participação dos trabalhadores na vida da universidade. 

Esse é o cenário da UFSC hoje. O reitor, símbolo da conciliação, que iniciava uma prática pouco conhecida na UFSC, de presença cotidiana no campus e de portas abertas, está morto. Os trabalhadores seguem desarmados diante da realidade. Sem um sindicato de luta, sem grupos de oposição atuantes, sem ação política interna. Parece que a UFSC é só um espaço aonde se vem cumprir as obrigações, aonde se vende a força de trabalho. Não se vê aquela entrega de outras épocas. “Não vale a pena”, dizem alguns. Temos uma universidade burocrática e ainda sobrevive a atmosfera do medo. Agora, renovado, por conta de nova caça às bruxas, desta vez externa. 

Assim que não deveria ser surpreendente o esvaziamento do dia de ontem. Nem mesmo os apoiadores da administração compareceram em massa, para apoiar a vice-reitora Alacoque. Apenas um que outro. Apareceram poucos estudantes e o pequeno grupo de técnicos que, apesar de não ter votado na proposta Cancellier/Alacoque foi manifestar seu posicionamento de que o Conselho Universitário deveria referendar a sequência da gestão, com Alacoque como reitora. 

A melancólica tarde da UFSC serviu pelo menos para essa reflexão. E a certeza de que há um longo caminho de reconstrução para ser feito junto a nossa categoria. O desmonte da universidade e dos serviços públicos já está em andamento, desde a aprovação do congelamento dos investimentos públicos por 20 anos. Há uma guerra declarada contra os trabalhadores, para usar uma expressão do professor Nildo Ouriques. Novos ataques virão, bem logo. E, se foram travados nesse campo de apatia e desamor, a derrota é certa.

Nós, os trabalhadores, temos um compromisso: recuperar a beleza que já vicejou nessa universidade. Recuperar a paixão, o amor pela coisa pública, o compromisso, a alegria de construir uma casa de saber. Sim, não é a universidade sonhada, nem a necessária. Mas essa universidade, para se fazer, precisa da nossa ação. Eu, que sou velha, e vivi momentos de profunda beleza nesse campus, não esmoreci. Penso que os jovens também não devem ceder ao sistemático assédio e à proposta de destruição que está à porta. Ninguém vai salvar a UFSC. Somos nós, os trabalhadores, aliados aos estudantes comprometidos com a universidade pública, que podemos insuflar vida e luta nesse campus. É tempo...

Ontem, conversando com o Leandro, da segurança da UFSC, ele contava que era prática comum do reitor aparecer lá no setor, tarde da noite, e acompanhar a ronda para, segundo ele, “ver como estavam as festinhas dos estudantes, se estava tudo bem”. Cancellier tinha lá os seus problemas, nem era um cara de esquerda. Mas, uma coisa não podemos negar. Ele amava a UFSC, com esse amor como o do Assis, da Helena, do Moacir, do Silva e de tantos outros que também cuidaram da UFSC como se fosse a sua casa. 

Esse amor é o que precisa voltar a existir em nós, trabalhadores. Porque a UFSC não é só um local de trabalho. Ela é o espaço da construção de uma nova sociedade. E cabe a nós erguer esse edifício ainda inconcluso. Não se trata de reproduzir a lógica liberal de “vestir a camisa da empresa”. A universidade não é uma empresa. Há mais coisas em jogo aqui do que apenas a venda da força de trabalho. Ela é campo fértil de disputa de ideias e concepções de mundo.

A decisão do Conselho Universitário foi a de referendar Alacoque para que termine o mandato. Foi a melhor decisão. Nós, que somos oposição, seguiremos atuando, de olho e em luta, não só com as coisas da UFSC, mas com as coisas do Brasil. Afinal, a história nos ensina. Só a luta muda a vida. 



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Che: um homem movido pelo amor



Sempre que se fala em Che Guevara a primeira coisa que vem a mente é a imagem do soldado, do revolucionário. Essa era uma das facetas do Che. Mas não a única. Desde bem garoto ele inventou de andar pela América Latina, gostava de conhecer as gentes e, com elas, estabelecia vínculos de amor. Formou-se em medicina e ainda estudante voltou a percorrer os caminhos da América do Sul. Seu coração de jovem médico era apaixonado por essa América profunda, pelos trabalhadores, pelos empobrecidos.  Ele não queria que a realidade fosse assim, tão dura, com os trabalhadores.  E foi esse amor pela sua gente latino-americana que o levou a ser um soldado da revolução cubana. Com seus companheiros cubanos ele empunhou o fuzil para derrubar uma ditadura, mas também cuidou dos caídos, dos doentes, dos feridos. Médico e soldado, coração e razão, sempre andando junto. 

Quando a revolução foi vitoriosa ele acabou sendo Ministro da Indústria e Comércio. Mas, seu trabalho nunca foi só de gabinete. Ele andava pela ilha, vendo as coisas com os próprios olhos, trabalhando junto com os trabalhadores no corte da cana, no carregamento dos grãos. Vivia como pensava. Ele acreditava que um homem e uma mulher revolucionários precisavam  ser perfeitos, éticos, pautados pelo bem comum. Ele dizia: “temos de ser o melhor marido, o melhor filho, o melhor pai, o melhor estudante, o melhor trabalhador, o melhor tudo. Temos de ser perfeitos, para ser exemplo. Tudo aquilo que formulamos como moral para o outro, temos de ser”.  A palavra para ele não era coisa vã. Era a escritura de uma ação concreta na vida. 

Tanto que não conseguiu aquietar-se num cargo de ministro da recém liberta nação cubana. Aquela gente sofrida da América que ele conhecera nas suas andanças continuava amargando dores, misérias e exploração. Então, para ele não podia haver acomodação na vitória. Seu desejo era voltar e iniciar uma revolução na parte sul do continente. Mas, naqueles dias, outros povos clamavam por libertação. Eram as gentes do continente africano que começavam suas lutas de independência das colônias europeias e do racismo fomentado por elas. Che não pensou duas vezes. Largou a pasta de ministro e foi se fazer soldado de novo. Ele era movido por profundos sentimentos de amor. “Enquanto houver um irmão injustiçado, somos companheiros”, era seu lema.  Como poderia descansar se outros companheiros e companheiras estavam em luta. E lá se foi para o Congo e Angola, batalhando contra o apartheid e o colonialismo. 

Na volta da África, de novo, seu coração decidiu por fazer valer a ética que o caracterizava: o amor pelo outro, pelo caído, pela vítima do sistema capitalista, pelo que se levantava em rebelião. E, mais uma vez recusou cargos ou honrarias. Não haveria de descansar enquanto toda a América Latina não avançasse para um tempo de justiça. Foi quando viajou para a Bolívia, onde iria combater outra ditadura. Lá, por conta das diferentes condições históricas e erros de estratégia, foi capturado. Um dia depois, assassinado friamente por um soldado boliviano, mas a mando de agentes estadunidenses que foram chamados para documentar a morte do revolucionário. Não contentes em executar o então prisioneiro, desarmado e indefeso, os agentes lhe cortaram as mãos. Um toque de sadismo. Era preciso tripudiar do homem que ousara sair do comodismo de uma boa vida de médico burguês, e abraçara a causa dos trabalhadores, dos oprimidos. 

A última imagem que temos do Che é a de um homem morto, deitado numa mesa fria, com os olhos bem abertos, mirando o infinito. Nem na morte os seus carrascos conseguiram apagar a luz que emanava do seu ser. 

Obedecendo aos preceitos éticos que pregava, el Che foi o homem perfeito. Amou as mulheres, amou seus filhos, amou Cuba, amou o conhecimento, amou os cubanos, amou os africanos, amou os latino-americanos, e por conta desse amor incondicional entregou sua vida.  Ele curou vidas, produziu teoria, dirigiu uma revolução, comandou um ministério, morreu por seus ideais.

Esse é seu maior legado. Viveu o tempo todo, na prática, aquilo que apontava como teoria, como moral e como ética. Morreu de pé, olhando o inimigo no olho. Seu exemplo de ser humano é sua maior herança.

E hoje, quando lembramos os 50 anos do seu assassinato, é isso que nos conforta. Che Guevara ainda é um caminho. 


domingo, 8 de outubro de 2017

Perfecto Romero, o fotógrafo da revolução cubana


Ernesto Guevara, médico argentino e guerrilheiro cubano, é considerado o homem mais importante do século XX. Sua capacidade de amor pela América Latina, seu comprometimento com a luta dos povos oprimidos o levou a lutar na Guatemala, em Cuba, no Congo, em Angola e na Bolívia. À libertação das gentes ele dedicou sua vida. Capturado na Bolívia em 8 de outubro, foi executado na manhã do dia 9, entrando para a história. Sua morte, ao contrário do que pensavam seus algozes, não fez desaparecer suas ideias. Elas voaram e seguem pairando por todos os lugares onde há povo em luta contra a opressão. 

Nesses dias em que lembramos dos 50 anos de sua semeadura apresentamos uma pessoa que foi parte da vida de Ernesto, durante a revolução e no tempo em que ele atuou como ministro na Cuba já libertada: o fotógrafo Perfecto Romero. Ele registrou um número expressivo de imagens do revolucionário cubano, já que partilhou com ele o cotidiano da luta.

Um número muito grande das fotos que hoje conhecemos sobre a revolução e sobre Che são obra de Perfecto. Ele ainda vive em Havana e lembra com respeito o homem que ajudou Fidel e Raul a garantir a liberdade para e com o povo cubano. 

Perfecto foi encontrado pela fotógrafa argentina Laura Lavergne nas ruas de Havana. Ela fazia registros em Cuba quando foi abordada por um senhor, querendo saber o que ela buscava para registrar. Ele conversou com ela sobre fotografia, disse que era fotógrafo também e a convidou para ir até sua casa ver seu trabalho. Deu o telefone, o endereço, como é comum aos cubanos, sempre hospitaleiros. Laura não sabia quem ele era, nem do incrível arquivo que ele possuía. Dias depois ela resolveu ir até a casa do fotógrafo, curiosa que sempre foi com as coisas de Cuba. Seu pai, Néstor Lavergne, havia sido o único argentino que trabalhara com Ernesto Guevara no Ministério da Indústria e Comércio, e Cuba sempre fora sua segunda pátria. Estava ali justamente para isso, levantando imagens e informações sobre o tempo em que seu pai passara ali e o trabalho que fizera. Vai fazer um video documentário sobre esse período da vida de Néstor.

Chegando à casa do homem que encontrara na rua, ele abriu seus arquivos para que ela visse o trabalho feito ao longo de décadas. Pois, ali, na mesa da cozinha, foram estendidas praticamente todas as fotos conhecidas de Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Raul Castro e outros. Perfecto Romero tinha sido o fotógrafo que acompanhara as lutas, ele mesmo um combatente, e, depois, a caminhada dos principais líderes da revolução. 

Foi um encontro emocionante, com a memória da revolução, com Che e com Perfecto Romero. 

Ele contou que nasceu em Cabaiguán, no dia 25 de janeiro de 1936 e ali começou sua carreira como fotógrafo em 1955. Filho de uma família de camponeses, bastante numerosa, ele também trabalhou vendendo pão e lustrando sapatos. Ainda bem jovem, durante a ditadura de Batista, começou a participar do Movimento 26 de julho, liderado por Fidel Castro. Quando veio a revolução ele foi para as montanhas do Escambray para atuar como combatente e como correspondente de guerra. Era um soldado da Coluna 8 Ciro Redondo, então comandada por Ernesto Guevara.  

Assim, foi na lida cotidiana da guerra que ele conheceu Che e participou como uma testemunha privilegiada das campanhas de Las Villas e da tomada de Santa Clara. Foi Che Guevara quem lhe pediu pessoalmente para que fosse o fotógrafo oficial dos combates finais que levaram ao triunfo da revolução. 

Naqueles dias ele era um jovem de 20 anos e com Che aprendeu muito mais do que guerrear e fotografar. Ele foi um dos fundadores e o primeiro fotógrafo da revista Verde Olivo, criada em 1959, por iniciativa de Che, Raul e Camilo.

A partir daí foi registrando a vida do país que se erguia com as próprias pernas, tornando-se hoje o guardião de imagens históricas inesquecíveis. Hoje, com 81 anos de idade, segue trabalhando, sendo parte da equipe da revista Palante. Na sua casa, mantém viva a memória da revolução, uma memória colhida por suas próprias retinas, plasmada na fotografia.

O encontro com Perfecto fez com que Laura ampliasse seu foco para além do vídeo que está produzindo sobre seu pai, Néstor Lavergne. Agora ela também está trabalhando no projeto de um livro-ensaio sobre a obra desse incrível fotógrafo cubano, Perfecto Romero, que também será constituído por entrevistas gravadas. O vídeo que apresentamos é uma parte do trabalho e da pesquisa que vem sendo feita junto com Vera Bandeira (fotógrafa brasileira ) e com assessoria do também fotógrafo Pepe Pereira dos Santos. 

O IELA pode participar da finalização do trabalho, com a jornalista Elaine Tavares e o fotógrafo Rubens Lopes ajudando na edição. 

Aqui, disponibilizamos parte desse trabalho de Laura Lavergne  que é também uma homenagem a Che Guevara.

Perfecto Romero tornou-se o fotógrafo que é por conta do incentivo e da confiança que Che depositou nele naqueles duros tempos de guerra. Hoje, passado tanto tempo daqueles dias de profunda alegria na grande revolução que mudou a cara do mundo, o velho fotógrafo, através de sua própria história, mostra mais uma face desse homem incrível que foi Ernesto de la Serna, el Che. 

Com Perfecto, el Che. Perfeito! 


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O cantor


Já faz algum tempo, ele tomou o espaço ao lado do camelódromo. Chega com sua caixa de som e começa a cantar. Já tem até um público cativo. Senhorinhas alegres param e acompanham as canções, batendo palma e cantando. Também param os senhores mais velhos e alguns mais jovens. Ele já conhece muitos dos fãs pelo nome. Faz piadas, oferece música. É uma alegria. O pessoal dos boxes parece gostar muito dele, e as gurias mandam biscoitos, bolos, café e refrigerante. Ele recebe, agradece, manda música. É uma estrela ali naquele pequeno pedaço do centro da cidade. Canta canções antigas, sucessos dos anos 60 e 70, distribui beijos e autógrafos. É um homem bonito, ainda que maltratado. Tem uns olhos claros magníficos e emposta a voz para cantar. 

Sempre que vou ao centro eu fico ali um tempo, junto com as senhorinhas, vendo sua performance e cantando com ele. Gosto das músicas. Vendo-o sou tomada por uma infinita ternura. Pessoas assim são raras. Nada sei da sua vida, das suas dores, mas só de olhar para ele, e acompanhar o brilho intenso dos seus olhos claros a gente percebe o quanto ele faz aquilo com gosto, com amor. O quanto é grato por aquele carinho. Olho para aquelas senhorinhas que cantam e batem palma e sinto vontade de abraçá-las. Elas mesmas buscando ali pedaços de beleza de um passado que as canções evocam. E nessa busca, estendendo amorosamente seus braços ao artista, que se alimenta daquele amor. Pequenos gestos poéticos que esboroam a tristeza ... 


Conversas com El Che


Sempre que vem chegando o nove de outubro eu convoco el Che para uma charla. Ele vem. Chega mansinho e se aboleta no meu alpendre, nas cálidas noites desse mês de primavera. Então, cevando um bom mate, vamos falando sobre as coisas do mundo. Conto tudo o que se passou desde a última conversa, falos dos ataques do império. Ele cospe no chão e pragueja em argentino.

Esse ano cumprirão 50 anos do seu assassinato em La Higuera, Bolívia. A gente sempre fala disso. Da tristeza do nunca mais, da interrupção dos planos e sonhos. Mas, também falamos dos avanços dos trabalhadores e dos revolucionários de todo o mundo. Ele gosta de saber que a Bolívia hoje é um estado plurinacional, e que os indígenas tem constituído um poder capaz de fazer avançar suas demandas. 

Ele lembra bem do dia em que morreu. Executado por um soldado boliviano que sequer sabia muito bem quem era o homem que matava. Lembra do tremor da mão do garoto, dos olhos perplexos, lembra de ter sentido um queimor e, depois, o silêncio.

O corpo do jovem guerrilheiro argentino, que ajudou na vitória cubana e nas lutas africanas por libertação, virou poeira cósmica, energia. Mas suas ideias seguem reverberando tanto tempo depois. Os homens da CIA que decretaram sua morte, cortaram suas mãos e desapareceram com o corpo. Como se isso pudesse fazer desaparecer toda uma proposta de um novo tipo de ser humano, ético e solidário, capaz de se comprometer com cada irmão caído.

Aqui, no alpendre, entre um mate e outro, vamos relembrando tudo o que já se passou no mundo desde que ele se foi. E o quanto sua figura e seu ideário ainda evoca libertação, paixão, amor pela vida. 

Ele olha pra mim e sorri. "Não há silêncio". Sim, comandante. Não há. As gentes empobrecidas e exploradas pelo capital seguem resistindo e clamando por um tempo novo. Novas lutas, novas propostas, novas práticas. 

Nessa semana de lembranças de sua caída, milhares de pessoas no mundo estarão lembrando, estudando, conhecendo, construindo projetos, lutando. "Ainda goteja a fonte do crime", grita Mahmoud Darwish, o poeta palestino.  E acrescenta: "Rebelem-se". É o que seguimos fazendo, até que chegue o grande meio-dia.

No amargo do mate, que ronca uma última vez, a lição mais profunda: "Há que estudar, estudar e estudar. Há que ser perfeito. Há que se mover por grandes sentimentos de amor".

Vamos tentando, comandante. Vamos tentando. 




domingo, 1 de outubro de 2017

A igreja da prosperidade e a mais-valia espiritual



J.A.F tem 32 anos e trabalha como diarista em casas alheias. Ela tem um único sonho, que persegue desde quando era bem pequena: ter a sua própria casa. “Quando era menina eu comecei um cofrinho de moedas. Dizia que era dali que sairia a casa que eu iria comprar para minha mãe e para mim. Hoje ainda tenho o cofrinho, e com ajuda de deus eu vou conseguir”. A mãe já morreu. Tuberculose. E J. embarcou numa profunda depressão. Foi nessa fase da vida que ela encontrou a igreja. “Eu tava passando e o pastor estava na porta. Ele me chamou e disse que ali eu encontraria a paz. Não sei como ele percebeu que eu estava muito mal”. Pois ela entrou e veio a paz. Depois de abraçar a fé ela melhorou da depressão, conseguiu voltar a trabalhar e já tem até um carro. “Eles lá disseram isso bem claro. Se a gente trabalhar bastante, a gente consegue chegar lá”.

Esse “chegar lá” é a ponta de lança da teologia da prosperidade, essa que carregou para o sagrado o que há de mais profano no mundo: o fetiche da mercadoria. Muitas igrejas realizam cultos específicos com o intuito de chamar a riqueza para os fiéis. Não é sem razão que crescem sem parar, arrebanhando cada vez mais gente. Num mundo marcado pela exploração, pelo individualismo e pela solidão, essas igrejas conseguem dar uma centralidade para almas em escombros, típicas do espírito do tempo.

Mas, o crescimento dos cultos pentecostais, geridos pela ideia de prosperidade, nada tem a ver com a religião. Eles estão muito mais ligados ao modo de produção capitalista, mantendo milhares de pessoas justamente na batalha pela prosperidade, girando a roda do capital. O mais importante é observar que, no mais das vezes, as pessoas realmente melhoram de vida, porque estão mais centradas, mais determinadas e incluídas em um grupo que as impele para frente. Nos cultos, quem é exorcizado é o diabo, o demônio, satanás, belzebu, como se fosse essa entidade mágica a responsável pelas dores e pelos fracassos. Então, o verdadeiro culpado pelo drama dos trabalhadores – o capitalismo – segue intocado, esquecido e apagado. Se é o demônio que se apossa da pessoa e a impede de prosperar, basta que a comunidade, em comunhão, garanta a expulsão do malvado, para que a vida comece a melhorar.

É bom que se diga que todas as pessoas que buscam na religião um bálsamo para as dores, lá estão porque realmente creem. Sentem-se acolhidas e não acreditam que muitos pastores ou pastoras, estejam ali para roubar seu dinheiro. Acham que o dízimo, que oferecem de bom grado, servirá para abrir as portas do céu, ainda que seja apenas o céu do líder da igreja. E como, de alguma maneira, a vida melhora mesmo, não se importam de aplicar seu tempo na esperança de conquistar coisas boas.

Marx, ao analisar o modo capitalista de produção fala desse tempo a mais que o trabalhador deixa com o patrão. Na jornada de trabalho, no geral, muito mais da metade é lucro do patrão. A famosa mais-valia, ou mais-valor. Ludovico Silva, um filósofo venezuelano, vai dizer que assim como o patrão surrupia a mais-valia do trabalhador no local de trabalho, o sistema como um todo rouba uma mais-valia ideológica quando o trabalhador está em casa, vendo televisão. Pensando estar se distraindo ou usando seu tempo livre para curtir um bom programa de TV, ele está na verdade sendo consumido pela máquina de vender mercadorias. Ainda que fora do local de trabalho, segue prisioneiro do capital. Pois essas igrejas pentecostais que atuam com a teologia da prosperidade fazem algo bem parecido. A pessoa está lá, pensando estar em sintonia com deus, com o sagrado, mas ao final, não consegue se desvencilhar do desejo de ter coisas, de amealhar mercadorias. Isso significa que ainda está presa no sistema, gerando uma espécie de mais-valia espiritual. Sua própria relação com deus acaba mediada pelo tanto de coisas que pode conseguir.

Não é também sem razão que são os líderes dessas igrejas os que, totalmente tomados pelos interesses seculares, adentram no jogo político garantindo postos de poder nas câmaras de vereadores, assembleias, câmara dos deputados, senado e estado. Geralmente aliados ao grande capital. Raros – se é que há - estão atuando na defesa dos trabalhadores.

Outra maneira de atuar na defesa do capital é a aposta no fanatismo, que leva o fiel a ficar sem discernimento e sem pensamento crítico. Aceitando a palavra do líder como a única verdade, a pessoa torna-se capaz dos atos mais violentos, agindo sempre em nome da salvação da humanidade. Algo assim como o que estamos vivendo hoje no Brasil, com a série de ataques a pessoas ligadas à religião de matriz africana. Não por acaso a violência centra foco nos deuses do povo negro. Bramindo um “deus” específico, que é o único salvador, pessoas atacam outras pessoas, matam e discriminam.

Foram os iluministas franceses, em particular, Voltaire (1694 — 1778), que polemizaram sobre o fanatismo, ligando essa prática a intolerância e à violência, justamente porque a Europa vivera até pouco tempo uma série de guerras envolvendo católicos e religiosos. Mas, naqueles dias, como hoje, o que realmente estava em questão não era a fé ou deus: era o poder. Com o crescimento do protestantismo, o status do papa, que era quem decidia a vida de todo mundo – inclusive dos reis – estava ameaçado. E era a igreja católica a que detinha também muita terra e riqueza. Então, enquanto nas batalhas morriam as gentes comuns, a aristocracia tramava para um ou para outro lado, sempre de olho na riqueza que poderia amealhar.

É por isso que se faz necessário uma boa análise sobre o “fanatismo” que vivemos no Brasil. Observando bem vamos ver que não são apenas ataques esparsos a outras religiões, o que poderia caracterizar uma contenda verdadeiramente religiosa. Não. Os tentáculos dessas lideranças pentecostais – justamente por estarem em cargos de poder  - se estendem para a vida cotidiana. O projeto da Escola sem partido, buscando atuar na educação. A tentativa de barrar o debate sobre gênero e o ataque aos homossexuais, interferindo na vida pessoal, a lei que permite ensino de religião confessional, tentando arrebanhar a criança para a fé, a proposta de obrigatoriedade das músicas religiosas nas rádios e TVs, atuando como mais-valia ideológica e disputando o mercado musical. Tudo isso configura a intervenção e o fortalecimento desse fanatismo, em “nome de Jesus”, em todos os segmentos da sociedade. O objetivo final pode ser justamente submeter, pela violência, toda uma população, sob o pretexto da salvação das almas.

Mas o que move o motor do fanatismo é algo bem mais prosaico do que deus. Trata-se do vil metal, dinheiro, borofa, bufunfa. A aposta é manter o rebanho ocupado na “guerra santa” pela moralidade e os bons costumes, enquanto o capital avança em mais uma onda de acumulação e expropriação. Assim, no Congresso, onde manda a bancada da bíblia, aliada a do boi e da bala, os deputados vão realizando as reformas exigidas pelo capital que manterão ainda mais cativos os trabalhadores. “Trabalhe, não pense”, diz o presidente, que fala como um gentil homem do século 16. E não poderia haver mote melhor para o Brasil desses dias. Enquanto uma legião de pessoas que trabalha e não pensa se digladia com exposições artísticas, homens nus, mães de santo e grita por intervenção militar, o capital segue impávido pelas estradas, quase sem obstáculos.

Sendo assim, talvez fosse hora de olhar com mais cuidado para esse fenômeno, vendo-o como se expressa na luta de classes. Não basta ridicularizar nas redes sociais. As pessoas estão se fanatizando, isso é claro como o sol. São poucos agora, mas podem crescer. E se levarmos em conta de que o que está por trás do fenômeno é o processo de acumulação capitalista, o tema fica ainda mais urgente. A imposição do poder sob a força das armas sempre é uma alternativa possível, mas não podemos esquecer que, para isso, é preciso que seja montada toda uma atmosfera capaz de respaldar as ações violentas. Esse é o cenário que estamos vendo crescer sob nossos olhos. É tempo de ver e começar a agir em consequência.




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sobre os novos ricos do campo e sua direitização



Cenas do filme que conta a história de Zezé de Carmargo

Nos últimos meses muitas coisas bizarras têm acontecido. Além de tudo que advém do golpe, temos visto algumas manifestações de figuras públicas que nos fazem pensar.  Há nisso tudo uma espécie de padrão: pessoas famosas, que agora são ricas, mas que foram pobres e de origem rural. E que, paradoxalmente, professam uma ideologia que vai contra tudo o que alguém, que tenha vivido a dura realidade de ser trabalhador rural, poderia defender. Meu amigo Danilo Carneiro, que esteve na guerrilha do Araguaia e que segue estudando a realidade brasileira, diria: “Isso é natural, nega”.  E por quê? Porque as pessoas não conhecem a realidade, não estudam, se informam de maneira superficial sobre as coisas, e o capitalismo, através do seu braço armado – os meios de comunicações – bombardeia ideologia. Então, se ficam ricas, e sem mudar o padrão de conhecimento, tudo o que querem é esquecer o passado de privações, e tentar se pintar com as cores da classe para qual saltaram.

Falo isso por conta da triste postura dos cantores populares sertanejos, alguns dos quais gosto muito, como Chitãozinho e Chororó, Zezé de Camargo e outros tantos que a gente vê aí nas propagadas dos políticos de direita, defendendo a classe dominante e a consequente exploração dos trabalhadores. Muitos deles têm uma história triste, de pobreza e de grandes sacrifícios para conquistarem um “lugar ao sol”. Lugar esse que no geral significa dinheiro e fama. Raros são os que, ao enriquecerem, não renegam a classe de onde vieram. No geral, tornam-se fazendeiros, na ligação com o passado de trabalhador rural, mas possivelmente reproduzem nas suas propriedades as mesmas relações de dominação e exploração que viveram.

Marx, quando fala das classes, burguesia e proletariado, deixa claro que tem uma parcela das gentes que não se enquadra nessa divisão: são os camponeses, sejam eles ricos, remediados ou pequenos. Eles, ao contrário do trabalhador da fábrica, ainda têm o controle dos meios de produção. Tem a terra e podem dela viver.  São um estamento de difícil manejo e, no geral, pendem para a direita. Lukács, durante a revolução húngara, foi um dos que se ocupou com esse tema. Ele acreditava que era necessário um trabalho diferenciado com os camponeses, para trazê-los para o lado da revolução.  Não foi entendido. Insista que era muito difícil incutir nos camponeses – os que tinham propriedade – a consciência de classe trabalhadora. "Os pequenos proprietários agrícolas, como dizia Marx, formam uma enorme massa cujos membros vivem na mesma situação, mas sem entrar em múltiplos contatos uns com os outros. O seu modo de produção os isola uns dos outros, ao invés de criar entre eles um comércio recíproco... É assim que cada família de camponês... retira seus meios de existência mais da troca com a natureza do que com o comércio com a sociedade... Na medida em que milhões de famílias vivem nas condições econômicas de existência que separam seu modo de vida, seus interesses, sua cultura, dos das outras classes e os opõem como inimigos dessas classes, é que elas formam uma classe. E deixam de formá-la à proporção que só existe entre os pequenos proprietários agrícolas um vínculo local no qual a identidade de seus interesses não engendra nenhuma comunidade, nenhuma ligação de plano nacional e nenhuma organização política".

São questões instigantes as que nos propõe Marx e Lukács, e que nos permitem entender porque os ex-camponeses, agora fazendeiros novos ricos, como esses cantores sertanejos, vão se perfilando no bloco da classe dominante. Eles saem da condição de pequenos, dos que vivem de seus próprios meios, e adentram ao universo do “patrão”, tornam-se um deles. Passam a empregar pessoas, compram fazendas que não produzem, que são apenas uma espécie de pastiche – agora melhorado – da vida que tinham antes de enriquecer. Criam cavalos, ou gado, ou arrendam, e usam as mansões – a casa-grande – para o seu bem viver. Não vivem mais do campo, vivem da venda dos discos, dos shows, são escravos da indústria cultural. Estão colocados numa espécie de limbo, ou falso limbo. Porque, afinal, não são verdadeiramente camponeses, nem produtores. São unicamente proprietários de terra, terra que não é útil, mas que serve apenas como valor de troca, como especulação.  Nesse sentido, podem se sentir confortáveis na gaveta de “burguesia” ou “classe dominante”. Fazem parte do bloco restrito daqueles que detém propriedade.  Por isso defendem aqueles que julgam serem os seus iguais. Esquecem para sempre dos antigos parceiros de classe. “Venceram” na vida.

O mais doloroso é que muitos deles, falo dos cantores ou das duplas sertanejas, reproduzem, muitas vezes, na sua arte, as letras caipiras de raiz que justamente falam da dura vida do trabalhador do campo, seus dramas de amor, suas lutas, a necessidade da migração para a cidade, e suas saudades. Canções como “O menino da porteira”, “Cabocla Tereza”, “No rancho fundo”, “A colheita”, “O homem do campo”, “Uma casa de caboclo”, “No dia em que saí de casa”, “Tristeza do Jeca” e tantas outras que tocam o coração da gente justamente por observarem criticamente os dramas do mundo rural.

Assim, envolvidos pelo capital, eles usam as dores e as injustiças do mundo rural para transformá-las em valor de troca, enquanto a gente, que ama o campo e vive em nostalgia, apreende a música como um valor de uso, algo que aparece como vital para nossa existência, enquanto eles enriquecem e se apartam da sua condição de classe. É uma contradição.

Sim, há muitas duplas e cantores rurais que não estão no furacão da indústria cultural, que seguem cantando o campo sem perder o vínculo com sua classe. Mas, de qualquer forma, para a maioria das pessoas, é bastante difícil encontrar essas informações, visto que são bombardeadas pela indústria, que é quem, em última instância decide quem e o que toca no rádio e na televisão.

Então, resta à maioria “suportar” os novos ricos rurais, com suas calças apertadas e músculos cultivados, que entre uma música caipira de verdade, alternam outras composições de amor ou de sacanagem, ficando a música de raiz meio perdida. Mas, apenas meio perdida, porque ela é necessária para acender a memória. Por isso não foge dos repertórios. Os produtores, que vendem produtos musicais, sabem bem disso. Uso instrumental de um sentimento de amor.

Ao fim, tudo isso é pra dizer que a consciência de classe é coisa difícil de lograr, principalmente se o dinheiro entra nas vidas. E também uma tentativa de não demonizar as pessoas que não conseguem transcender, compreendendo-as no seu contexto. Não é fácil escapar dos tentáculos do capital. O fato concreto é que seguirei ouvindo algumas das canções do Zezé, do Leonardo, do Eduardo e outros, assim como leio os poemas de Borges. 


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cursos Livres do IELA: A atualidade de Adelmo Genro Filho no jornalismo



Curso será ministrado pela jornalista Elaine Tavares, nos dias 21 e 28 de setembro, no horário das 9h e30 às 11h e 30min, miniauditório de Economia e Relações Internacionais, CSE/UFSC.

Adelmo escreveu sua teoria marxista do jornalismo em 1987. Seu foco foi o jornalismo informativo, a notícia. Ele mostrou que esse tipo de jornalismo não precisa ser superficial nem manipulador, como era e ainda é. Naqueles dias, a internet estava só engatinhando, as novas tecnologias nem se anunciavam. Entretanto, hoje, nada pode ser mais atual do que a proposta de Adelmo para a construção da notícia, visto que esta se mantém hegemônica no jornalismo. 

Os textos curtos, informativos, são incensados como os únicos que são bem recebidos pelo público. E no oceano da superficialidade desse jornalismo tipo manual de geladeira, Adelmo assoma como uma boia, não para salvar, mas para mostrar aos jornalistas que é possível construir uma notícia que possa escapar de sua imediaticidade, alcançando a totalidade do fato e produzindo conhecimento.

O curso oferecido pela jornalista Elaine Tavares não se propõe a uma exegese do autor. A intenção é mostrar como, nos limites dos anos 80, Adelmo enxergou uma vereda capaz de constituir um jornalismo de qualidade, mesmo no campo do “informativo” e mostrar como se pode construir notícias que fujam da “forma-mercadoria” tão comum nos tempos atuais. O segredo revelado em 1987 hoje é ainda mais sagaz e extremamente útil. Com ele, mesmo o jornalismo informativo pode ser conhecimento da realidade, com contexto, com profundidade e com bossa. 

O curso acontece em duas quintas-feiras no mês de setembro, 21 e 28, das 9h e 30min às 11h e 30 min, no mini-auditório da Economia. Vagas limitadas. Podem participar alunos de cursos de jornalismo, jornalistas e interessados no tema. A condição para a participação é a leitura prévia do livro: O segredo da Pirâmide – para uma teoria marxista do jornalismo, disponível no enlace: http://www.adelmo.com.br/bibt/t196.htm 

Inscrição no email do IELA: iela@contato.ufsc.br

O QUE? Curso Livre do IELA sobre a atualidade de Adelmo Genro Filho no Jornalismo, com a Jornalista do IELA, Elaine Tavares.

ONDE? Miniauditório de Economia e Relações Internacionais - UFSC

QUANDO? Dias 21 e 28 de Setembro, das 09:30 às 11:30


domingo, 3 de setembro de 2017

Das melancolias...



Há mais de dez anos que estudo, de maneira sistemática, os modos de produção das sociedades antigas, originárias, aqui do nosso continente, Abya Yala. E, todo encantamento que se me acomete com a originalidade e a beleza do modo de vida de tantos povos  é tripudiado por companheiros que, de maneira trocista, me acusam de querer voltar a idade da pedra.

Quando me aparecem com esse argumento tão frágil, insisto: não se trata de voltar ao passado, mas de tomar, do passado, as lições que possam fazer do presente e do futuro uma lugar melhor para todos.

É óbvio que esses 300 anos de capitalismo produziram coisas interessantes. O povo trabalhador, ainda que com sua força de trabalho capturada, deu vazão à sua criatividade e fez com que muitas coisas melhorassem a vida deveras. Mas outras não. Outras apenas “aparecem” como boas. Na sua essência, escravizam e alienam as pessoas, mantendo-as presas a roda insaciável do capital.

Dou apenas um exemplo bem prosaico. O celular. Quem pode dizer que o celular não é uma coisa boa? Ele tira foto, vira agenda, filma, manda mensagem, é reservatório de livros, é quase tudo na vida da pessoa e, ainda serve para falar com outro ser humano à distância. Uau! Perfeito. Mas, no sistema capitalista de produção, um objeto assim, tão completo, não pode ser algo que a pessoa compra e o tem para a vida inteira. Se fosse assim, acabava o ciclo e a roda econômica não girava. Então, a indústria criou, para o celular e para praticamente todas as mercadorias produzidas o que se conhece como “obsolescência programada”. 

E o que significa isso? Que a mercadoria tem tempo de vida definido. Ela não tem a durabilidade que muitas coisas tinham no passado. Por exemplo: tu fazias uma mesa e ela durava a tua vida, a vida do teu filho e dos teus netos. Não. Hoje não. Cada mercadoria tem um tempo fixo. Chega a sua hora e ela se desmancha, pifa, estraga. Precisa ser jogada fora, pois eles são construídos de tal maneira que não permitem o conserto.

No caso dos eletrônicos, como o celular, o computador, a máquina fotográfica etc..., a coisa é ainda mais grave, pois o material de que são feito não se degrada facilmente.  Assim, vai sendo criada uma montanha de lixo que o planeta não tem condições de assimilar. Só na Europa, onde esse problema começa a ser discutido, nos próximos três anos serão acumulados 12 milhões de toneladas de resíduos tecnológicos. Imaginem considerando o consumo de todo o planeta.

Hoje, diante do mundo, sinto-me conservadora. Gosto das coisas que ficam, que demoram a se acabar. Amo velhos móveis de madeira, roupas antigas que sobrevivem aos anos, artefatos que podem ser consertados milhares de vezes e que se renovam a cada mexida.  Amo canecas de louça que perdem um ou outro pedacinho, copos de lata e sapatos feitos à mão pelos artesãos de rua. Sim, gosto de algumas comodidades da vida moderna, mas queria que pudesse ser diferente. Sem tanta obsolescência. Fazem-me falta as coisas que perduram... Amores, amizades, olhares, coisas... Que mesmo na permanente mutabilidade da vida, ficam e ficam e ficam...



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

As moedinhas do pai


O pai gosta de carregar moedinhas no bolso. Precisa saber que tem um dinheirinho ali, para se acaso precisar. Mas, quando vai dormir, acaba derrubando as moedas no chão e no dia seguinte as encontra outra vez, tornando a colocar para dentro do bolso.

Creio que é por causa disso que encasquetou que brotam moedas de baixo da cama. Todos os dias, ao cair da tarde ele pega a vassoura e arreda a cama para procurar moedas.

- Pai, não tem moeda aí, aquelas caíram do teu bolso.

- Não é não. Elas aparecem aqui embaixo, todos os dias.

E toca a passar a vassoura vezes sem conta.

Por conta disso, agora, passei a plantar moedas embaixo da cama.

É indescritível a alegria dele quando as encontra.

-Tá vendo, elas nascem aqui.

E bota as bichinhas dentro do bolso, feliz da vida. Para ele, a casa da moeda já é privada! 


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os desafios dos trabalhadores na conjuntura brasileira



Passado pouco mais de um ano do golpe parlamentar/judiciário/midiático que tirou Dilma do governo, o Brasil segue um vertiginoso processo de entrega de riquezas e destruição de direitos. Uma guerra de classes, como diz o economista Nildo Ouriques, das mais violentas, na qual a proposta fundamental é aprofundar a exploração dos trabalhadores para gerar mais lucro para o capital. Na verdade, nada de novo, a não ser a o desmascaramento. Ou seja, o sistema não usa mais as máscaras. Faz tudo às claras, sem medo da classe trabalhadora. Com o golpe, a face “humana” do capital se esboroa. 

Durante os governos de Lula e Dilma, a aposta foi na socialdemocracia. Uma tentativa de gerenciar a pobreza, mas sem conflito com o capital. As políticas públicas na área da educação, saúde, moradia e alimentação, ainda que utilizando pequenas fatias do orçamento, significaram muito para um contingente imenso de pessoas. Quarenta milhões saíram do terror da fome. Milhões de jovens sem acesso à universidade garantiram seu curso superior, milhares conseguiram casa própria e acesso à saúde. Esse legado é indiscutível. 

Pode-se criticar argumentando que as vagas nas universidades privadas enriqueceram os empresários da educação, que as moradias não são lá muito boas, e que garantir comida não é suficiente. Mas, para quem vivia no limbo, a melhora foi incrível. E são essas pessoas as que recebem Lula de braços abertos na caravana que corre o Brasil. Elas sabem que mudou, estão sentindo na pele.

De qualquer forma, o discurso de candidato que Lula tem assumido nos lugares por onde passa não consegue sair do mesmo modelo que regulou os seus governos. “O Brasil vai melhorar”, “vamos garantir vida boa para todos”, “vamos regular a comunicação”. Nada de novo. A mesma velha práxis do “deixa que eu resolvo”. Isso sem contar as arrumações com velhos adversários, reproduzindo a mesma conciliação de classe que deu no que deu. Já sabemos como acaba. 

Por outro lado, a classe trabalhadora brasileira está desarmada, para usar a feliz expressão de Plínio de Arruda Sampaio Jr. Durante 15 anos tivemos um movimento sindical domesticado, movimentos sociais apaziguados, todos contando com a “boa vontade” governamental. Claro que houve exceções, mas apenas exceções. A regra foi o aplastamento das massas e a desorganização. Por isso, agora, diante dos ataques violentos do capital sobre os trabalhadores, o que se vê a inação. “Os trabalhadores não estão apáticos. Eles querem lugar, resistir, mas estão desarmados”, diz Plínio Jr. 

O desarme é fruto dessa domesticação. Há uma geração inteira de trabalhadores que não viveu o período da ditadura, que não conheceu a batalha contra o neoliberalismo representado por Collor, Itamar e Fernando Henrique. E, por conta de não saber, não consegue encontrar o caminho para a resistência. Enquanto isso, os pequenos gerentes do capital, instalados no governo golpista e no Congresso Nacional vão passando o rodo, numa destruição aparentemente incontrolável. Destruição de direitos e entrega do patrimônio público. Privatização de empresas estratégicas e acumulação de riqueza sobre o corpo massacrado do trabalhador. 

No meio de todo esse violento processo de destruição da vida nacional, chegam as notícias que, num país sério, teriam o poder de desfazer o golpe: Ministério Público investiga e chega a conclusão de que Dilma não cometeu crime de pedalada fiscal (motivo principal para a destituição). Tribunal de Contas da União investiga e chega a conclusão de que o Conselho de Administração da Petrobras, presidido por Dilma Rousseff, não cometeu qualquer “ato de gestão irregular” no episódio da compra da refinaria de Pasadena. Ou seja: as denúncias – fruto de delação premiada  - que geraram o golpe, não tem qualquer sentido. Num país sério, no qual a Justiça se pautasse pela investigação segura, e não por delações suspeitas, o impedimento de Dilma deveria ser anulado. 

Mas, nada acontece. As informações saem em notas pequenas nos jornalões, e a vida segue. O governo ilegítimo vai tirando direitos, privatizando empresas, bancos e até a Casa da Moeda, entregando as riquezas minerais, vegetais e humanas. Tudo como foi planejado naquele fatídico áudio do Jucá. “A gente tira a Dilma, bota o Michel e fecha acordo com o Supremo, com tudo...” Tudo incrivelmente às claras.

Nas ruas, a reação teve seus momentos, mas agora estancou. E ainda que as pessoas estejam indignadas e querendo acabar com todo esse terror, essa indignação não se expressa em luta. E não é para menos. Foram anos e anos esperando que as coisas boas viessem do governo, acreditando que a conciliação de classe faria a elite abrir mão de alguma coisa para benefício das massas. Isso é impossível. Como na fábula do leão, as feras podem mudar em vários aspectos, menos nos hábitos alimentares. Assim, a classe dominante. Na primeira oportunidade de retomar o controle total do país, veio com tudo, sem pruridos.

O desafio da classe trabalhadora é dar origem a novas formas de luta. Os tempos mudaram. Há que constituir também as novas armas. Isso não é coisa fácil, mas o tempo urge. Há que começar.

Nesse processo faz-se necessário também compreender que é tempo perdido remendar roupa velha. O esgarçamento é incontrolável. Pois o modo de produção capitalista, esse sistema insaciável, já mostrou claramente qual é a sua proposta: exaurir o trabalhador, tirar dele toda a vida, até a última gota, na maior intensidade possível. E ainda que tente seduzir com mentiras do tipo: liberdade de ser quem se quer, possibilidade de comprar coisas com prestações a perder de vista, participar do banquete, ainda que comendo migalhas, é certo que isso não vai rolar. No capitalismo, o único lugar reservado ao trabalhador é o de explorado e ponto final.

Mas, o capitalismo não é o modo de produção. Ele é um dos modos. Outros existiram e outros podem existir. Quem decide isso é a maioria, e a maioria são os trabalhadores. Logo, são os trabalhadores que têm o poder de mudar as coisas. O próprio capitalismo já gerou seu antagonista: o comunismo. Se no primeiro a propriedade é privada, no segundo, ela é comum. Se no primeiro o trabalhador é explorado, no segundo ele é parte de um todo em equilíbrio para o bem comum. Se no primeiro a primazia é pelo valor de troca, no segundo é pelo valor de uso. Se no primeiro a mercadoria domina o humano, no segundo o humano é livre. E por aí vai. Então, qual o medo? Porque temer a vida boa e bonita?

É tempo... É tempo.  


domingo, 27 de agosto de 2017

Morreu o Birigui


            


Conto escrito nos anos 90, baseado numa notícia de jornal...




A notícia chegou sem muita surpresa no morro do Tico-Tico. Tinham matado o Birigui. No armazém do seu Antão, a rapaziada tomava sua caninha e discutia o assunto de forma acalorada. Gervásio ria alto, com sua boca sem dentes, dizendo a toda hora: “bem feito, bem feito!”. Maria Antônia, quieta no seu canto, perto da caixa registradora, lembrava o dia em que Birigui lhe cercara na boca do morro. Ele a tinha encostado ao muro, enquanto falava baixinho que ela era uma “nega” gostosa. Foi enfiando as mãos pelas pernas acima, apertando, apalpando e o cheiro de pinga que saía de sua boca ia penetrando nela com mais força que o dedo do invasor. Não tinha como gritar e, mesmo que gritasse, quem iria ajudar? Então, o jeito foi deixar-se ficar, muda, enquanto ele brincava nela até cansar. Depois do serviço, Birigui foi embora, assobiando um pagode do Aragão, sem nem sequer olhar para trás. Por isso, ela também repetia, no silêncio de si, “bem feito, bem feito”.

            Cada um naquele bar tinha uma façanha do Birigui para contar. Era nêgo ruim, vagabundo. Nunca ajudou a mãe, que vivia abraçada nos santos, pedindo proteção para o “pobre filho”, como ela o chamava. E o “pobre” estava sempre encrencado com a polícia. Tinha assaltado um mercadinho lá para os lados de Coqueiro, e acertou, sem dó, a cabeça do dono, só porque ele demorou-se em abrir a caixa onde estava o dinheiro. Traficava drogas e estava sempre aprontando. Isso sem contar o número de mulheres que ele havia estuprado ali mesmo, no morro.

            Ninguém, em sã consciência, gostava do negro agigantado, com aquela marca de queimadura no lado direito da cara. A mãe dele contava que o acidente, responsável pela cicatriz, tinha acontecido nos tempos de criança. Ele havia queimado a cara no dia em que botara fogo num gato, que tinha amarrado vivo, numa espécie de pau-de-arara. Era nêgo ruim o Birigui. 

            Quando trouxeram o corpo para o morro, a correria foi geral. Todos queriam ver a cara daquele a quem nunca tinham ousado desafiar. Antes, ele era o dono do morro, agora estava ali, servindo de piada para todo mundo. Até os garotos menores, vinham e tocavam, sem medo, na queimadura da cara, puxando para ver se era real. Depois, riam, riam muito e berravam, “olha a cara do negão, olha a cara do negão”, numa espécie de cantiga de roda.

            O seu Antão, satisfeito, ofereceu o espaço do bar para fazer o velório, afinal, no barraco da velha não iria caber toda a gente que queria olhar para o Birigui inerte, morto, sem perigo. Assim, a notícia do velório no bar logo se espalhou. Foi colocada uma cartolina branca, com enormes letras vermelhas, bem na porta do armazém. “HOJE PROMOÇÃO: CERVEJA GELADA SÓ UM REAL”.

            Quem subia o morro, na volta do trabalho, via a placa e ia ficando. Era o velório do Birigui. Farra total. Na pequena sala, de chão de madeira, colocaram o caixão aberto. As cadeiras ficaram encostadas no lado direito da sala, para os parentes. Mas de parente mesmo, apareceu só a mãe. Ela chegou cedo, na mesma hora em que chegou o caixão. E ficou ali, sentada, quase sem se mover. Só os lábios mexiam num sussurrar sem sentido, talvez numa língua desconhecida, destas dos orixás que enchiam que enchiam seu congá. Não tinha lágrimas a velha. Todas já haviam secado, ao longo dos oitenta anos de vida.

            E enquanto ela adormecia o filho bandido com suas rezas, em volta o clima era de festa. Seu Antão ia e vinha na velha geladeira, buscando a cerveja gelada. Os filhos da nega Carlota enrolavam um cigarro de maconha e já tinha gente por perto querendo ajudar a “puxar”. As meninas foram chegando com roupas de domingo, os cabelos amaciados com manteiga de karité. Juvenal trouxe o violão e logo Maneco mandou buscar o pandeiro e o cavaco. A galera se assanhou e, em dois toques, o pagode correu solto. Algumas mulheres, vizinhas do barraco do Birigui, trouxeram linguiça para fritar, e logo um cheiro gostoso invadiu o velório.

            No pique do samba, decidiram afastar o defunto para o lado, quase colado à parede. A velha mãe seguiu junto, com suas lamúrias, parecendo não notar a festa que rolava ao seu lado. Quando o samba parava para a rapaziada descansar, a mãe Mariana vinha com seus causos de assombração. Nesta hora, todos davam uma espiadinha no morto. Manezinho, chapado, levantou com fúria e, sem mais delongas, acertou a cara de Birigui.

            - Reage agora, vagabundo – berrava com a voz pastosa, os olhos vermelhos feitos brasas. A galera ria e aplaudia.

            Quando o dia clareou, encontrou a velha ainda ao lado do caixão, ela também um pouco morta. As portas do bar estavam fechadas e, do lado esquerdo, perto do balcão, saíam gemidos. Era Eneida, que se enroscava no corpo do Dagoberto, numa dança de pernas e bocas. Estava acabado o velório. Dali a pouco seria hora de enterrar o morto. E quando o casalzinho afogueado saiu do bar, o velho Biga gritou, do barraco da frente.

            - Festa boa, heim?

            E Daboberto, ajeitando as calças, retrucou:
            - Boa demais para um safado feito o Birigui.  
                   
            A nêga sorriu e foi se afastando, subindo o morro com o passo cadenciado de velha passista.  

            Ninguém acompanhou o enterro de Birigui, só a mãe. Afinal, aquela gente ali tinha muito mais o que fazer na vida.