sábado, 19 de agosto de 2017

Casa da América Latina






Fotos: Rubens Lopes

Minha casa, nossa casa: Abya Yala

Florianópolis inaugurou nesse dia 18 de agosto a Casa da América Latina, uma proposta que floresceu a partir da professora da UDESC, Carmem Suzana, e que foi abrindo raízes junto a outras companheiras e companheiros, também latino-americanistas. Essa vontade viva de ter um espaço onde os irmãos e irmãs de Abya Yala pudessem se encontrar e onde pudesse pulsar essa alma mestiça de negro/índio/espanhol/português que nos faz povo.

Pois nessa noite foi assim. Amigos, música da pátria grande, Artigas, lembranças, emoções, alegrias. Tudo junto e misturado nessa paixão que move a vida desde que Bolívar entendeu que sozinhos somos fracos, juntos somos gigantes e saiu por aí a semear. Simón não viu acontecer, Artigas também não. Mas nós a faremos, pátria/mátria nossa.

A inauguração teve sons da américa, batida de tambor, chorinho, poesia, imagens. Teve comida compartilhada, teve criança, velho, moço. Teve argentino, uruguaio, chileno, cubano, brasileiro, caboclo, branco, negro, índio, tudo o que somos. Teve abraço, teve riso, teve até lágrimas. Essas que brotam da pura emoção da vida compartilhada. E teve a presença segura da sempre amada Gina Couto.

Nessas imagens de Rubens Lopes, um pouco da alegria que nos invadiu. A alegria que vem da certeza de somos companheiros e estamos juntos, mesmo que a vida esteja gris, que haja golpe. Porque somos Abya Yala, somos povo latino-americano, somos um só vibrando nesse imenso continente. Caminhamos... Estamos juntos...

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Governo Temer agora ataca os trabalhadores públicos



Depois da destruição dos direitos dos trabalhadores privados, o governo já está anunciando medidas de ajuste para os servidores públicos. Pelo visto não sobrará pedra sobre pedra. E nesse tabuleiro, o aspecto da classe é o que mais se destaca. Para os ricos, chovem benesses. Para os trabalhadores, arrojo. Havia tempo que o sistema capitalista não mostrava sua cara feia tão destemidamente. A maquiagem da concessão de um direito aqui, outro ali não está mais sendo usada. Tudo é feito às claras e só não vê quem não quer. Como num explícito campo de batalha, os grupos em guerra estão bem definidos, e quem avança, sem piedade, é o “exército da noite”, o capital. Já é tempo de os trabalhadores encontrarem um caminho de ataque.

O governo de Michel Temer, que foi escolhido para realizar os ajustes necessários ao capital, vem cumprindo à risca todo o receituário. Para garantir apoio da elite dominante abre os cofres: perdão de dívida dos banqueiros em bilhões de reais, perdão da dívida dos latifundiários, em bilhões de reais, e o enchimento sistemático dos alforjes de deputados e senadores, para que mantenham o congresso alinhado e votando todos os projetos necessários. Dinheiro às pencas. E tudo isso num quadro de “profunda recessão”, como alega o governo. 

O mantra repetido pelos meios de comunicação é de que o Brasil foi quebrado pelos governos de Lula e Dilma e que agora é preciso que os brasileiros apertem o cinto para reconstruir o que o PT destruiu. Mas, se o país foi deixado quebrado, de onde está saindo todo esse dinheiro para comprar parlamentares? E por que o governo está perdoando dívidas bilionárias? Obviamente que os caraminguás que vai tirar dos trabalhadores não se comparam ao valor de benesses oferecido aos ricos. Mas, a resposta é simples. No sistema capitalista de produção, as relações sociais que garantem o domínio de 1% sobre 99% são as que permitem que esse pequeno grupo explore ao máximo a maioria, e que essa maioria sustente seu luxo e seu bem-viver. 

A contrarreforma trabalhista colocou por terra uma série de direitos que tiram vida do trabalhador. Ele precisará trabalhar com mais intensidade, por mais tempo, e terá seus ganhos reduzidos para uma linha ainda mais baixa do que a do necessário para se manter em estado de sobrevivência . Isso significa que ele viverá mais estressado, ficará doente com mais frequência e com muito menos possibilidade de viver feliz.

O governo passou pelas votações olimpicamente. Comprou o apoio dos parlamentares e ignorou a voz das ruas. Agora, quer colocar seu dedo podre na categoria dos servidores públicos, que são aqueles que sustentam todo o edifício dos serviços garantidos à maioria da população que é empobrecida.

Pois o governo Temer anunciou que não vai cumprir com os acordos salarias feitos pelo governo anterior, boa parte deles só garantidos por lutas. Ou seja, vai descumprir a lei, já que os acordos são projetos de lei aprovados. Não vai cumprir, e pronto!  Quem o obrigará? Não há justiça para os trabalhadores, já sabemos.  Com isso, ele também coloca na mesa o fato de que não haverá reajuste salarial para ninguém. Nem os acordados no passado, nem os que venham a ser necessários no presente. 

Anunciou também que vai limitar os salários dos novos trabalhadores a cinco mil reais. Para cumprir ele precisaria criar uma lei, aprovada no congresso, alterando as tabelas de mais de 150 carreiras de trabalhadores públicos. Pois bem, ele deve fazer isso, o Congresso obedece.  Mas isso só vai valer para novos concursados. Portanto é um anúncio bombástico, para enganar os trouxas, fazendo as pessoas acreditarem que ele está botando ordem na “bagunça” que é o serviço público. Vejam que o que se trata é de inventar um consenso sobre as coisas. 

Temer ainda informou que serão extintos 60 mil cargos do Executivo Federal e que não vai haver reposição deles. Ora, isso significa que se um professor se aposentar, outro não será contratado, ou um policial, ou um médico, um trabalhador administrativo, um analista. O que ele planeja? Acabar com o serviço público? Terceirizar ainda mais e tornar mais precário o que existe? Parece que esse é o plano. 

Outra proposta para os servidores é o PDV, Plano de Demissão Voluntária. Mais uma bobagem. Quem vai desistir do serviço público num período que o próprio governo afirma estar em recessão? Quem será tolo o suficiente para deixar o trabalho seguro pela incerteza do mercado? Pode até haver quem seja, mas o impacto será pequeno. Há ainda a proposta de aumentar a contribuição para a previdência de 11 para 14%. 

Tudo isso, diz o presidente de fato, Henrique Meireles, vai gerar uma economia para o Estado de 70 bilhões em 10 anos. Oi? 70 bilhões em 10 anos? Só o perdão ao Itaú foi de 23 bilhões. A dívida dos latifundiários é de quase um trilhão. A não cobrança de impostos no novo REFIS (refinanciamento de dívidas) discutido hoje no Congresso poderá fazer com que mais de 500 bilhões deixem de entrar nos cofres públicos. E a Receita Feral já divulgou que existem pelo menos 30 programas de parcelamento de impostos. Para os ricos e só para os ricos. 

Ou seja, as medidas anunciadas com estardalhaço contra os servidores públicos não têm nada a ver com economizar, visto que não impactarão em praticamente nada. Se a economia será de 70 bilhões em dez anos, significa que a economia anual será de menos de um milhão. Ora, isso é troco. Isso é resultado de uma política muito clara: o Estado dirigido por Temer e sua trupe nega/ tira recursos dos trabalhadores os, e os repassa aos ricos, para que acumulem mais e mais. Nada de novo, só o escancaramento do Estado como instrumento da classe dominante. 

Assim, o que está na pauta nessa cruzada contra os trabalhadores públicos é obvio: a destruição de tudo aquilo que é público, do que serve à maioria. E, de quebra, o governo ainda devasta a capacidade de luta de uma categoria que sempre foi guerreira. Há que destruir, via meios de comunicação, a imagem do trabalhador público. Fortalecer a ideia de que são vagabundos, relapsos, incompetentes e que emperram o progresso nacional. Apenas mais um pacote de mentiras. Quem, senão o trabalhador público é o que carrega o serviço público nas costas, sempre sem as condições necessárias?  Basta ver como vive o professor, o enfermeiro, o trabalhador da educação, o técnico agrícola, o previdenciário? 

Então, agora, virá a enxurrada de reportagens e notícias falando mal do serviço público que é para preparar a população para o consenso, semelhante ao criado pela reforma trabalhista: “as medidas no serviço público melhorarão a vida de todos”. Mais mentiras que assumem o caráter de verdade por conta do bombardeio midiático. 

Aos trabalhadores está colocado o desafio. Sair do estupor. Juntar forças e organizar a luta. Afinal, se são as relações de classe que determinam a existência do capital, é preciso desarticular, desmontar esse edifício construído pela classe dominante. 2018 está muito longe. A destruição da vida está bem aí, na porta. É tempo de reagir, coletivamente, como classe trabalhadora. É nesse movimento que podemos avançar.   


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Lutar contra a fascistização da vida


 A miséria da política

Lembro como se fosse hoje aquela passeata, em Florianópolis, em 20 de junho de 2013. Era o auge dos protestos contra a corrupção - início da batalha contra o governo petista -  e a capital catarinense viu saírem às ruas pessoas que sempre jogaram pedra nos manifestantes tradicionais. O protesto juntou mais de 30 mil almas, coisa nunca vista. A RBS, rede catarinense filiada a Globo, transmitia ao vivo, e saudava a iniciativa. Estranhamente não chamava ninguém de “baderneiro”, nem se ouvia o estridente mantra da garantia do “ir e vir”. Naqueles dias, a classe dominante dava sua bênção para a ocupação das ruas, a Globo chamava ao civismo e as pessoas acorreram aos borbotões.  

Eu lá estava com os companheiros de sempre. E, aturdida, via as pessoas manifestarem seu ódio contra os militantes de partidos políticos e movimentos sociais. Ou seja, nós. A passeata virou uma batalha, na qual jovens vestindo camiseta – doada por partidos de direita – com inscrições contra a corrupção berravam: “sem partido, sem partido”, e enfrentavam os militantes que se agrupavam com suas bandeiras. Exigiam, de forma violenta, que fossem baixadas as bandeiras partidárias e que a passeata seguisse como uma gosma informe. Uma falsa gosma, pois como disse, os partidos de direita estavam ali, distribuindo camisetas e insuflando a massa contra os partidários da esquerda. Apenas não carregavam bandeiras, porque nunca o fizeram. Eles agem nas sombras.

Aproximei-me de umas jovens “encamisetadas”, que gritavam alucinadas, com olhos em brasa, contra as bandeiras de partidos de esquerda. E perguntei:

- Por que vocês são contra os partidos?

- Hã? É porque é sem partido, ora!

- Sim, mas por quê?

- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? – inquiriram e me encararam, agressivamente.

Naquele dia, uma massa furiosa nos atacou e obrigou que os grupos embandeirados se descolassem da passeata, seguindo na frente. Escancarava-se a luta de classes e o ovo do fascismo que tomou conta do país estava posto.

Lembro que comentei com vários companheiros sobre o que estava começando ali. No dizer de Adorno, o fascismo é um vírus que existe latente, em cada um. Diz ele que dadas as condições, ele brota, forte, e se espalha incontrolavelmente. Eu via aquilo na passeata. Um ódio irracional na massa, mas extremamente racionalizado nas direções políticas da direita. Um processo de construção de um consenso que foi crescendo, se consolidando e acabou no impedimento da presidenta Dilma. Jogada de mestre.

As atitudes fascistas também se consolidaram e estão a todo vapor. Uma delas é a proposta da “Escola sem Partido”, exatamente igual ao esquema das passeatas de junho. Sem partido de esquerda, porque os de direita poderão agir. Não querem que se fale de Marx, mas poderão incensar Hayeck. Então, como assim, sem partido? Mas, a massa desinformada não captura essa sutileza. Para ela, o mal é o socialismo, o comunismo, o velho discurso de volta outra vez.

Voltaremos a viver os terrores do fascismo cotidiano, com os nossos vizinhos denunciando-nos como comunistas, ou então colegas de trabalho, resolvendo questões pessoais com denúncias anônimas sobre nossas atividades de “doutrinação”. E a justiça, que é da classe dominante, agirá, confiscando nossos computadores e acusando de “comunistas”, como se sonhar e lutar por um mundo melhor fosse crime.

Pois essas são coisas que já estão acontecendo em todo o território nacional. Aqui em Santa Catarina vivemos o drama da professora Marlene de Fáveri, acusada por uma aluna de fazer proselitismo de gênero, seja lá o que isso seja.

E ontem na cidade de Abelardo Luz, no oeste do estado, dois trabalhadores do Instituto Federal de Educação, Ricardo Velho e Maicon Fontanive, foram denunciados, sabe-se lá se por um colega ou quem, de serem agentes do Movimento Sem-Terra dentro da escola. Seus computadores e celulares foram apreendidos pela polícia federal, com o beneplácito da justiça local, é claro. Eles foram afastados de suas funções públicas e foi quebrado o sigilo de correspondência eletrônica feita com a reitora Sônia Regina de Souza Fernandes. Ora, o MST é uma organização clandestina, por acaso? Não foi justamente esse movimento social de massa o grande responsável para que fosse criada a escola federal naquela cidade? Não foi a luta dos trabalhadores sem-terra que permitiu que centenas de jovens pudessem ter acesso ao ensino técnico de qualidade na região? Que crime pode haver, então, as ligações que por ventura alguns trabalhadores da escola tenham com o movimento? Pois, então, o que é isso? O acirramento da luta de classes.

Eu vivi a ditadura militar, como criança e adolescente, e lembro muito bem o terror que viviam as famílias que tinham qualquer posição crítica ao regime. Os vizinhos vigiavam e acusavam anonimamente, muitas vezes se aproveitando da denúncia de “comunista” para vinganças pessoais. Era um tempo de vigilância e de medo. Não se podia pensar. Só dizer sim, sim, sim, ao regime. Nas escolas, tínhamos educação moral e cívica, com a doutrina do terror. Isso podia, já falar de algum autor crítico, jamais. Era doutrinação. E é disso que se trata a Escola sem Partido.  

Mas, no covil dos fascistas, são os comunistas, os críticos, os diferentes, e qualquer outro inimigo, mesmo pessoal, os que devem ser perseguidos. Nós já passamos por isso. E não foi bom. Nem para as pessoas, nem para o país. Apenas o pequeno grupo que comanda é que se dá bem, enquanto a vida da maioria fica gris. Há que botar freio a essa fascistização da vida. Ou ela se espalhará como rastilho de pólvora, no fundamentalismo do terror. É hora de juntar forças, mulheres, negros, índios, trans, trabalhadores formais, informais, homossexuais, enfim, todos os oprimidos pelo capital e pelo patriarcado. Essa luta é de todos nós.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Quem é o inimigo?




Mulher e soldados têm algo em comum: são trabalhadores, da mesma classe. 

O sistema capitalista de produção é uma máquina de ódio e sobre esse sentimento se sustenta. Sua principal arma – que mantém a maioria das gentes sob seu comando – é a invenção de que o inimigo de cada um é outro. A pobreza, a miséria, a dor, a desgraça, a fragmentação, a doença, nada disso tem a ver com a forma como a sociedade se organiza. Tudo é culpa do outro. O outro passa a ser aquele a quem cada um e cada uma tem de eliminar.

Mas, prestem bem atenção. O outro que tem de ser eliminado não é qualquer outro. É o outro da mesma classe, a classe empobrecida. E essa é a que tem de se digladiar diariamente, para disputar um espaço na sociedade do “mundo livre”. Está consolidada a ideia de que o rico, o “bem nascido”, o criado a toddy é um abençoado por deus e a que ele se deve toda a reverência. A ele nenhuma culpa é imputada, nasceu marcado pela bênção. Se matar alguém dirigindo bêbado, pobrezinho, teve uma má noite. Se estuprar uma menina, coitado, não foi por mal. Se agredir uma mulher, estava exaltado. Se juntar os amigos para matar negros e gays, é porque essa gente não deve prestar mesmo. Essa é a ideia que permanentemente é inoculada nas gentes.

É claro que muitos conseguem escapar dessa lavagem cerebral, mas uma boa parte das pessoas é envolvida por essa ideologia. Então, o que acabamos vendo, perplexos, é pessoas da mesma classe, que sofrem os mesmos dramas, se agredirem em si, disputarem, competirem e até se matarem. Esse é o bom trabalho da ideologia. Tornar real o que não é. Mostrar como verdade o que é mentira. Iludir, enganar, obscurecer. E àqueles que são tomados por essa ideia de que o outro, pobre, negro, gay, comunista, macumbeiro, é o inimigo muito dificilmente conseguimos tocar com o discurso.

É por isso que não adianta muito insistir no facebook para que os paneleiros apareçam quando o Dória joga água nos mendigos em noites de inverno. Os que bateram panela contra o PT, a Dilma ou contra os comunistas, definitivamente acham que está certo “limpar” a cidade dos mendigos, porque a ideologia diz pra eles que os mendigos são ladrões e eles têm medo dos ladrões. Todos temos. Então, como o outro, sujo e desempregado, é o inimigo, que o estado o elimine.

Igualmente é inútil chamar os paneleiros para bater panela contra o Aécio, o Caiado, o Temer, ou o Gilmar Mendes. Eles fazem parte desse grupo de bem nascidos, sobre os quais não recai culpa. Imaginem se o neto do Tancredo vai ser um traficante? Isso só é possível aos pobres e pretos da favela. Rico não comete crime. Rico é abençoado.

Para os que estão sob o comando da ideologia só os pobres podem ser ruins, perversos, criminosos, violentos, inúteis. Vejam a Argentina, onde milhares se levantaram na última semana para exigir a aparição com vida de um artesão que foi levado pela polícia e sumiu. Pois se milhares pedem pela vida do jovem, outros milhares de seres silenciosos estão em casa, concordando com a ação da polícia. Afinal, pensam, o que um hippie, um artesão, representa para a sociedade? Nada. Eles não produzem para o sistema. Devem ser eliminados. E secretamente, essas pessoas assentem a cabeça diante do crime.  

Da mesma forma é possível sentir essa silenciosa aprovação quando os jagunços matam índios no Brasil, ou quando fazendeiros matam ambientalistas e sem-terra. O Datena grita na TV que eles são bandidos, vagabundos, marginais. E as pessoas assentem, crédulas, dando graças aos céus por haver jagunços e fazendeiros tão legais que limpam o mundo dessa ratatuia.

Como entender a simpatia que uma mulher da classe alta venezuelana, como a Lilian Tintori, desperta nas brasileiras. Ela é loira, jovem, rica. Seu marido, Leopoldo Lopez, é o responsável pela morte de mais de 40 pessoas nas guarimbas de 2014, e agora, durante as guarimbas de 2017, incentivou outras tantas. Então porque os brasileiros e brasileiras se doem tanto pelo fato de ele estar preso? Por que não fazem campanha pelos tantos negros e negras que hoje mofam nos cárceres, alguns até sem julgamento? Ou pelos que estão presos porque roubaram um pote de manteiga? Que mistério é esse que leva a tanta simpatia pela riquinha branca? É essa ideologia que promove a divisão entre os empobrecidos, para que permaneçam sempre atados ao poste da escravidão. Matem-se entre si, mas amem seus algozes.

É claro que essa silenciosa massa que odeia seus iguais não é uma gente do mal. Estão aí, pelos séculos e séculos sendo inoculadas nesse ódio aos seus. E não é coisa fácil escapar. Ainda que os empobrecidos sejam 99% da população mundial, não conseguem compreender o seu poder. E o poderoso 1% que domina o mundo tem os meios e as condições para sistematicamente fortalecer essa ideologia de que é o pobre que é ruim. Só ele pode ser capaz de maldades e violência e contra ele há que estar toda a força.

É por isso que gritar pelos paneleiros no facebook não ajuda em nada a mudar esse quadro. A saída é a lenta e esgotante batalha de construção da consciência de classe. Só que isso não acontece com discursos vazios ou cheios. A consciência de classe só desperta quando estamos jogados na luta coletiva. Quando caminhamos em comunhão na direção de um objetivo que transforme nossas vidas. 

E essa construção é algo que precisa de intenso trabalho na vida real, no chão do mundo, no encontro cara-a-cara com esse outro que nos vê como inimigo. Temos de retomar, com urgência, o contato com a vida. As novas tecnologias são boas, são legais, e podem até ser revolucionárias, mas elas sozinhas não mudam a vida. Assim como uma faca não pode sair matando sozinha, a internet também não tem esse poder. São as pessoas por trás da técnica que movem a roda da história.


Temos de voltar ao encontro, ao olho no olho, ao aperto de mão. Com o celular no bolso, porque não, mas tecendo a trama da vida na relação real. Os tempos estão sombrios e estamos perdendo. É hora de parar de resistir e atacar. Mas, para isso, temos de quebrar essa ideologia de que o inimigo são os nossos iguais. Dura batalha, dura batalha... Mas, temos de seguir.  


terça-feira, 8 de agosto de 2017

UFSC e Israel - uma parceria impensável?



O reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancelier recebeu em seu gabinete o Cônsul-Geral de Israel, Dori Goren. A pauta da conversa foi uma possível parceria público-privada para implementação de startups, um nome bonitinho/colonizado para um tipo de empresa de tecnologia em fase inicial, na modalidade .com.  

Além de receber um representante de um dos governos mais violentos da terra, em flagrante processo de genocídio contra o povo da Palestina, o reitor afirmou, segundo notícia no sitio da UFSC, que a gestão está aberta a parcerias com a iniciativa privada e, que, legalmente não há nenhum impedimento. Ainda acordou uma possível visita ao estado terrorista de Israel em novembro deste ano.

Mas a coisa ainda fica pior. O Cônsul deverá também realizar na UFSC uma série de palestras sobre História e Ciência Políticas. O que ensinará esse senhor? Como matar crianças, mulheres e velhos de maneira violenta? Como ocupar as terras alheias? Como dizimar um povo? 

Definitivamente é uma vergonha que a UFSC se preste ao papel de estabelecer parcerias com um país como Israel, que tem sido boicotado por todos aqueles que lutam por justiça para o povo Palestino. 

Israel, que é um estado teocrático e militarmente poderoso, aliado dos Estados Unidos para fazer a política suja no Oriente Médio – embora não merece nenhuma citação disso na mídia comercial, tão pródiga em atacar países que não se alinham com os EUA – vem desde o ano de sua criação, 1948, ocupando as terras palestinas, instalando colônias, promovendo assassinatos e torturas, inclusive à crianças.

É fato que a maioria das pessoas que circulam pela UFSC pouco se importam com a vida dos Palestinos. Mas outros há que sim, se importam e lutam para ver o fim do massacre e da violência. E esses repudiam veementemente a atitude do reitor.

O grupo "UFSC à esquerda", que reúne professores, estudantes e TAEs, publicou uma nota na qual repudia essa parceria, tanto a público-privada, contra a qual a comunidade universitária lutou incessantemente desde a sua proposição, quanto contra a com o estado terrorista, e lembra: “Neste caso, há uma dupla afronta ao sentido público da universidade. Não apenas coloca a produção de conhecimento e a formação dos estudantes a serviço de interesses particulares, mas o faz em parceria com o Estado de Israel – que violenta abertamente o povo palestino. Mais uma evidência de que em nome do pragmatismo de mercado esta universidade está pronta para abandonar qualquer compromisso com a vida dos povos.”

E assim vamos, caminhando para o abismo! 

Há quem venha dizer que um reitor tem de receber todo mundo. Certo. Concordamos. Receber sim, mas estabelecer parcerias com um estado terrorista? Aí já é demais. 





terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dos tantos Rafaéis



Hoje no Brasil existem quase 800 mil pessoas encarceradas, 150 mil cumprem prisão domiciliar e existem mais de 300 mil mandatos de prisão que não são cumpridos por falta de vagas no sistema penitenciário. O que ultrapassa o número de um milhão de almas. O Brasil tem a quarta maior população carcerária no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, Rússia e China.  Mais de 250 mil pessoas estão presas de maneira provisória, com seus processos ainda não julgados. Menos de 1% dos encarcerados respondem por crime de corrupção, esse mote que levou milhares às ruas com suas camisas amarelas. 

46% dos apenados foram presos por crime contra o patrimônio, 28% estão encarcerados por envolvimento com drogas, apenas 13 % são crimes contra a pessoa e os negros são a maioria nos presídios: 61%. Esses números são do Ministério da Justiça e dizem respeito ao ano de 2014, portanto já devem ter aumentado bem mais. 

Isso leva a seguinte reflexão: a impunidade, de que tanto falam, não existe. Pelo menos não para os pobres e negros, a maioria nos presídios, no geral pagando por pequenos furtos ou o tráfico de drogas de pouca monta. Porque os figurões, os que são donos da droga, os que são os donos dos helicópteros e dos aeroportos, esses não vão parar na cadeia nunca. Eles estão nos salões e nas telas de TV curtindo a vida ou destruindo países. 

Rafael Braga, pobre e negro, preso em 2013 por portar um vidro de Pinho Sol durante uma manifestação está na prisão, mofando. Com ele, outros tantos, possivelmente mais de 90% da população carcerária. E olhem que levar Pinho Sol na mochila não configura crime algum. Já os ricos e bem nascidos que matam pessoas, por estarem embriagados ou que traficam drogas, não são tocados e saem da cadeia pelos braços de mães e pais bem posicionados.  A impunidade, portanto, tem um perfil de classe. As leis são feitas pela classe dominante, logo, servem a ela.

De minha parte, sou contra o encarceramento, a não ser em casos ultra/extremos. E esses são mínimos. A justiça deveria ser pedagógica.

Uma boa olhada nos crimes de uma sociedade nos leva a ver que muitos desses crimes se devem ao modo como a sociedade se organiza. Por que há tanta gente pobre envolvida com o tráfico de drogas? Por que as pessoas roubam? Essas são perguntas importantes.

Sendo assim, não se trata de defender cadeia para os ricos que cometem crimes. Não. Há que acabar com os ricos que gestam uma sociedade dividida, de maioria oprimida. Há que acabar com a divisão de classes e o domínio de uma sobre a outra. Construir uma sociedade sem classes, como no comunismo. Nesse modo de produção, não haverá ricos, nem pobres, todos terão o que precisarem na justa medida. E, vejam, o comunismo é apresentado como se fosse o diabo, enquanto o capitalismo – que é o diabo – é apresentado como o melhor dos mundos. Pois é mundo que está aí e que espelha esses tristes dados. 

Há que inverter a lógica, construir outra forma de organizar a vida. Ainda não chegamos a isso, e talvez demore muito para alcançarmos o comunismo (comum viver). E mesmo quando chegarmos ainda haverá crimes, pois o humano precisa de tempo para transcender. De qualquer forma, acredito que 90% ou mais desse trágico sistema prisional desaparece. Eu aposto nisso, e para isso caminho!

Sam


Tenho profunda predileção por figuras e personagens marginais. Essas pessoas que não aparecem, não por medo, mas porque não julgam necessário embandeirar seus feitos. E, são, muitas vezes, fundamentais para o desenrolar da história humana. Na arte, são os que me encantam e mais puxam meu olhar.
Na saga “O Senhor dos Anéis”, ainda que Frodo seja o herói, meu coração se aquece com a trajetória de Sam, o amigo que o acompanha e que, ao fim, é quem torna possível que a missão se complete. Ah, como ele é especial, e amigo, e leal, e companheiro, e terno. Depois, ao voltarem para casa, tudo o que quer é casar com seu amor e viver feliz. Tendo sido mais herói que o herói. Morro de ternura por ele.
Agora, na saga do Jogo dos Tronos, outro Sam rouba meu olhar. Desde sua aparição na patrulha da noite, com aquela pureza peculiar aos que são bons. Personagem marginal, mas capaz dos atos mais lindos. Ah, como ele é especial, e amigo, e leal, e companheiro, e terno. Absolutamente incrível seu gesto de salvar um completo desconhecido. Absolutamente adorável sua sede de saber. Mais herói que os heróis.
Gosto dessas gentes quietas, que olham com doçura, que sabem sem pompa, que amam sem reservas e que se enfurecem contra os vilões do amor.
John Bradley West, esse ator inglês que faz Sam, é perfeito... ! Pura doçura!!!


domingo, 30 de julho de 2017

Ainda é 1500



A cena é tocante. Na beira do asfalto, um grupo de indígenas olha, entre estupefato e triste, outro grupo de gente, branca, postado em cima da passarela. Os brancos estendem faixas, denunciando uma “invasão” dos indígenas e dizendo que a demarcação das terras ameaça o seus lares. São moradores da comunidade Enseada de Brito, que fica próxima à terra Guarani, no Morro dos Cavalos. Vê-se que são “bem-nascidos” e poderiam estar no rol das chamadas “pessoas de bem”. Um deles ostenta a camisa amarela da CBF, de triste papel no Brasil atual.  Na verdade, um pequeno grupo organizado por políticos da região ligados ao DEM. De longe, eles se olham. Os Guarani, como sempre, no silêncio circunspecto. Esperam, tranquilos, mas não mansos.

Lá no alto, os brancos ostentam o preconceito e a ignorância. Pouco sabem sobre o mundo indígena. Em nem querem conhecer. Tal como no longínquo 1500, chegam com suas bandeiras e verdades, vendo o outro, diferente, como inimigo. E não são.

Já os Guarani observam com aquele mesmo olhar afiado com o qual miraram as caravelas naqueles tempos distantes. Viram os homens chegarem e acolheram com risos e oferendas. Mas, ao longo desses mais de 500 anos, eles já sabem que a hospitalidade nunca valeu de nada diante da cobiça. Carregam bem fundo na alma e no corpo e memória da violência, do massacre, do assassínio, do terror.

Hoje, nesse domingo de sol, eles se olharam outra vez. Distantes. O diálogo mais uma vez impossível.

A terra da área do Morro dos Cavalos é uma terra que já foi demarcada, portanto, legalmente terra indígena. Ali vivem as famílias que conformam a comunidade Guarani. E, como é do seu costume, as famílias se movimentam dentro da área. Assim, ora estão aqui, ora ali. É a sua maneira de viver.
Incansáveis na perseguição aos indígenas, alguns políticos da região, liderados pelo vereador Pitanta (DEM), continuam provocando a discórdia na tentativa de jogar a comunidade de Enseada contra os Guarani. Já foi assim durante o processo de demarcação, foi assim durante a desintrusão, foi assim nas conversas sobre a obra na BR 101. Acostumados a mandar no pedaço, eles não reconhecem a forma de viver dos indígenas, não aceitam o fato de que a terra está demarcada e buscam atrapalhar a vida dos Guarani ao máximo, esperando talvez que eles desistam e vão embora.

É a história “patas arriba”. Chamam de invasores aos donos originários de toda aquela terra. Uma terra que os Guarani nem reivindicam, e poderiam. Afinal, tudo era deles. Mas, em vez disso, se contentam com o espaço conquistado, que nem é o ideal. Agora, tudo o querem é viver em paz, do jeito deles.

É uma vida de sobressaltos. Quando não têm de viver esses momentos patéticos, precisam se defender de jagunços, de jornalistas mal intencionados, de políticos oportunistas, da justiça, da polícia, de tudo. O tempo todo na defensiva, como se fossem bandidos. Não são.

A farsa da “manifestação” armada pelo vereador é só mais um ataque dos tantos, cotidianos e sistemáticos. Porque a intenção é colocar medo, fazer com que se movam, saiam da terra, abandonem tudo. Afinal, quem pode viver assim, o tempo todo ameaçado, acossado?

O dia acabou e os manifestantes foram para casa. Jantarão felizes, por certo, comentando a ação contra os índios, os quais odeiam sem conhecer. Na aldeia, os Guarani discutem e se preparam. Sabem que não acaba aí. A terra é ouro para o branco.

Estamos no século XXI e no Brasil os colonizadores conseguiram exterminar grande parte dos povos originários. As pessoas brancas acham bonito vê-los no museu ou nas apresentações do dia do índio. Mas, não suportam saber que eles estão por perto, que se movem, que lutam, que buscam garantir seus direitos. Índio bom é índio quieto e distante. Mas o fato é que eles estão aqui e aqui ficarão.

Tenho dúvidas sobre se essas pessoas que são capazes de sair à rua, portando cartazes que chamam os indígenas de invasores, estão abertas ao diálogo. Tenho dúvidas. Mas, é preciso seguir tentando. Os povos originários, que chegaram a um número de 150 mil nos anos de 1960, praticamente a beira da extinção, agora já passam de um milhão. Levantam-se e assumem sua identidade. Querem viver em paz nos seus territórios. Para isso é preciso que o povo brasileiro os conheça, sem armaduras, de peito aberto, pronto para um encontro verdadeiro.

No velho Brasil colônia, dominado pela cobiça, isso não foi possível. Mas, hoje, muitos há que se solidarizam, que respeitam, que apoiam e que lutam junto. Essa é ainda uma longa caminhada. Mas, não há saída. Como dizem os chiapanecas, das montanhas mexicanas: “nunca mais o mundo sem nós”. E assim é. É preciso reconhecer o território originário, demarcá-lo e garantir que os povos vivam em paz. Mas, não nos iludamos. O que está por trás de ações como essa de hoje, na Enseada, é a velha luta de classes. Os indígenas, como os trabalhadores empobrecidos, estão no mesmo lado. O inimigo é o mesmo. E contra ele, vamos – como dizia o velho Quixote – travar uma longa e feroz batalha. 

Fotos e informações: Comunidade Guarani




sábado, 29 de julho de 2017

Ratos de Esgoto

Escrito em 1990, esse pequeno conto narra a realidade das famílias que ocupavam as margens da Via Expressa, na entrada de Florianópolis. Um tempo de intensa luta por moradia. Esperidião Amin era o prefeito, logo substituído pelo seu vice Bulcão Viana. 


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Nos barracos da Via Expressa o clima é de aparente calma. Algumas pessoas estão sentadas em frente das casinhas, espantando o calor. No boteco, improvisado no barraco do Zé Pedro, os homens tomam a pinga do fim de tarde, fazendo hora para não voltar para casa. O trabalho já foi duro e, agora, aturar mulher e filho, é “dose pra leão”, diz Antoninho, um branco azedo, conhecido na comunidade por viver brindando com sopapos a sua mulher Otávia.

            Carlos Alberto também passa pelo boteco. É ali que fica sabendo das fofocas. Como ele trabalha de servente de pedreiro na ilha, fica fora o dia todo. Dentro do bar a discussão está acirrada. Todos falam sobre os ratos que andam competindo com as pessoas pelo espaço na favela. Euzébio, um negro forte, de voz arrastada, diz que é preciso fazer uma cruzada: “vâmo pegá uma turma e saí por aí matando tudo que é rato que a gente encontrá”. Todos têm uma ideia brilhante e falam sem parar, esquentados pela pinga. Enquanto isso, dois ratos enormes passam pra lá e pra cá, indiferentes à discussão, roubando açúcar do saco que fica sob o balcão.

            Carlos lembra os dois filhinhos, que já foram mordidos por rato, e a raiva vai tomando conta. Ele sai do bar e vai em direção à sua casa, um amontoado de tábuas velhas, coberta com pedaços de telha e lona preta. Ritinha está sentada no degrau da porta. Um filho no chão e o outro no colo. Em volta da casa, um valo fedorento deixa passar todo o esgoto que vem dos apartamentos do lado contrário à Via Expressa. Rita tem os olhos arregalados na escuridão. Está com medo.

            - Trouxe vela? – pergunta com a voz firme, sem ternura.
            - Trouxe! – responde secamente o garoto, que já é homem apesar dos 18 anos apenas. Ele entra e acende a vela. Só aí Ritinha se mexe. Bota os filhos na cama e vai preparar a comida para o seu homem. Estão casados há dois anos. Ela tinha 15 e ele 16. Duas crianças que se agarraram, com medo de ficar sós na vida. Sem pai nem mãe ela só tinha um destino: virar puta. Mas ele, que há muito tempo a espiava convidou-a para morar junto. Ela aceitou. Gostava dele, era carinhoso, bom, trabalhador. Quando ela teve o primeiro filho, estava com medo, e ele ficou o tempo todo do seu lado, vigiando, enquanto a parteira Maria lutava para tirar de dentro o guri que teimava em não sair.

            A vida até que corria tranquila por ali, mas agora tinha os ratos que andavam roubando a paz no barraco.
            - Será que ele não pode fazer nada – rumina a menina, enquanto mexe devagar uma mistura de arroz, feijão e macarrão branco.

            Carlos está estirado na cama. Também pensa nos ratos. Sabe que Rita tem medo, mas ele não dá conta de matar todos eles. Bem que queria, mas eles são muitos, aparecem sem que se possa fazer nada. Devia ser por causa da sujeira que tem ali, o esgoto, e o lixão lá atrás. Já tinham reclamado na prefeitura, mas nada fora feito. Era preciso que eles fizessem uma limpeza geral.

            Rita está de costas, perdida em pensamentos e Carlos olha fixo para sua bunda. Gosta dela, ainda mais quando estão na cama. Bem que ela podia não ficar tão emburrada.
            - Semana que vem vou puxar um rabicho do poste de luz, então ponho luz aqui em casa e compro uma televisão. Ela vai gostar – pensa feliz.

            Na madrugada, quando já estão deitados, Rita ouve um gemido fraquinho. Por um segundo, sente-se morrer.

            - São os ratos – assombra-se.

            Corre para a vela, acende e joga a luz sobre as crianças. O maiorzinho dorme na cama com eles, está bem. A pequenina está num berço improvisado com restos de cadeiras. Quando a luz da vela chega ao bebê, ela sente o terror invadir o seu corpo. Um rato está grudado na cabecinha que a criança mexe devagar, com um choro miúdo. Nesta hora o medo se vai e Rita avanço no rato com as duas mãos, puxa com força, tentando tirá-lo da cabeça da filha. O rato resiste, finca os dentinhos. O bebê chora, Rita também, mas não larga o bicho. Pega um pedaço de pau que está no chão e bate. O rato solta a criança e a mulher geme baixinho enquanto levanta a filha e a encosta contra o peito, as duas chorando. Na cama, o marido e o filho sonham.

            Quando o dia chega Carlos encontra Rita sentada, com a filha no colo, chorando mansinho.
            - O que foi? - pergunta. Ela conta, sem soluços, o choro caindo salgado e quieto. Ele fica puto, não vai trabalhar. Pega uma pá, e sai para limpar o terreno.

            - Hoje acabo com esse lixo – resmunga entredentes. Os restos de esgoto estão por toda a parte. Ele se enfia no meio da merda, da sujeira, e vai cavando uma vala em volta do barraco. Depois, entra em casa e vai tirando tudo o que tem para fora. Limpa cada canto, tira tudo o quanto é papel velho, pano sujo, tudo. Rita assiste assustada aquela faxina toda, mas não diz nada. Esperava por isso, queria isso.

            Já vai longe o meio dia quando Carlos termina a limpeza. Vai à venda, compra veneno para ratos e espalha em cada cantinho da casa.
            - Cuida pras crianças não tocá – orienta a mulher.

            Passam dois dias inteiros sem que apareça qualquer rato. Carlos puxou o rabicho do poste e agora tem luz na casa. As coisas vão melhorar, pensa a mulher. Mas naquela tarde, o marido chega doente. Tem dor de cabeça e muita febre. Rita se apavora e chama a sogra. Levam-no para o hospital, pois nenhum remédio acaba com a dor. Lá, o médico diz que não é nada, só um problema de estômago, e manda de volta pra casa. Mas a dor não vai embora, e ainda tem o vômito, a febre alta.
            No outro dia, volta de novo para o hospital. Mais um pouco de remédio para estômago. Aquilo não estava certo. Carlos enfraquece, perde o prumo. Rita se apavora e leva para outro hospital, afinal, já se iam três dias naquele sofrimento e aquele homem era tudo o que ela tinha.  
  
            No Hospital Regional, outro médico examina e manda internar. É grave.
            - O que ele tem? – indaga a menina. A pergunta fica sem resposta.
            - Vamos fazer alguns exames – diz o médico.
            Três dias depois o garoto está morto. Diagnóstico: Leptospirose. Uma doença causada por ratos. Carlos deve ter se contaminado quando limpava as valas do esgoto em volta da casa. A urina do rato, em contato com alguma ferida, fora a sua sentença de morte. Isso, aliado ao descaso da saúde pública que não se importa muito quando o paciente é pobre e preto.

            Na Via Expressa, durante o enterro do menino (tinha só 18 anos), o clima era de revolta. Tinham um morto naquela batalha dura contra os ratos, e era um deles, gente. Ritinha, agarrada aos dois filhos, já não chorava mais. Tinha medo. Desses medos mudos de quem nada espera. A casa estava limpa, a vala também. Já não tinha ratos a morder cabeças. Mas, até quando? Os esgotos continuavam correndo no meio da comunidade. Os ratos voltariam. E quando isso acontecesse, Carlos não estaria mais ali.

            Naquela noite, a primeira sem ele, a vizinha trouxe uma televisão, “que é pra menina se distrair”. Na hora do jornal, o prefeito da cidade falava de um novo projeto. Era a construção da marina na Barra, “onde os barcos vão poder atracar sem problemas, com muito mais conforto”, ressaltava a cara branca no vídeo.

            Foi só aí que Rita chorou. Chorou de medo, de dor, de solidão. Ela, menina, entregue aos ratos, não tinha nenhum portinho onde ancorar. Seu único porto estava agora enterrado. Não tinha mais ninguém. E enquanto uma menina amansava sua dor lá para os lados da Via Expressa, a cidade continuava a brilhar, longe, além da ponte, fria e bela...


            Pouco tempo depois a polícia derrubava todos os barracos da Via Expressa, que era para deixar a cidade com cara bonita para os turistas. Nem ratos, nem gente, nada mais assomava no espaço. Era só um verde artificial, de grama nova, que perdura até hoje.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ódio aos indígenas: até quando?


Não bastou exterminar centenas de etnias, roubar as terras, escravizar, matar, destruir a cultura. Parece que nunca basta. Todos os dias, os povos originários precisam recomeçar a luta contra o preconceito e a ignorância. De cinco milhões na época da invasão, hoje mal chegam a um milhão e ocupam apenas 12% do território nacional. Muitos já perderam grande parte dos seus costumes e saberes, precisam garantir as forças para não morrer, para conseguir um mínimo de território onde possam ser quem são. Outros, na força da luta, uma luta renhida, conseguiram demarcar terras, nas quais tentam viver. 

Eu disse, tentam! 

Porque a guerra contra eles ainda não terminou. Todo dia é um 1500. 

Pois nesse domingo está sendo chamada uma reunião no colégio da comunidade de Enseada de Brito, Santa Catarina, para discutir o que chamam de mais uma “invasão indígena”, referindo-se a presença de um grupo Guarani na terra do Morro dos Cavalos. A terra que é dos Guarani desde os tempos imemoriais. 

Ocorre que ali na Enseada desde há tempos vem sendo travada uma luta contra os Guarani por gente que tudo o que quer é rapinar a terra. E, esses, insuflam a comunidade contra os índios, os quais poucos conhecem de verdade. Resta o preconceito e todas as simbologias construídas durante séculos de discriminação e inverdades. 

O mote da reunião é que os índios estão pondo em risco a água da comunidade. Como se os índios não fossem os poucos nessa bola azul chamada Terra que cuidam, de verdade, do ambiente. 

Pois domingo agora, eles já chamaram até a imprensa para denunciar a “invasão”. Seria engraçado se não fosse trágico. Quem são os invasores? 

É certo que o tempo passou e que é preciso encontrar formas de viver em paz, índios e brancos. Mas é certo também que o problema não está no índio. As pessoas precisariam conhecer a cultura originária, entender como funciona, como se move no mundo, compreender seus mitos, sua forma de ser. Fosse assim, muito do ódio se dissiparia. 

Mas, sabemos, a questão não é só a ignorância. O não saber. Aflora também a rapinagem, o espírito predador dos que apenas querem a terra para especular. Onde hoje tentam sobreviver os Guarani, há quem veja prédios, condomínios, empreendimentos rurais. Negócios, lucros. E nessa ambição, vão contaminando mentes e corações contra aqueles que só querem seguir vivendo suas vidas na terra que é deles por direito. 

As campanhas de ódio contra os Guarani do Morro dos Cavalos não são de hoje. O que surpreende é que passado tanto tempo, ainda não tenha sido possível uma convivência harmoniosa por parte dos moradores da cidade. Os índios não são monstros de sete cabeças. Eles só vivem de maneira diferente. Compreender isso já é um bom passo para o entendimento. Tomara que o povo de Enseada seja capaz. 

SOS Campeche Praia Limpa

O Movimento SOS Campeche praia Limpa nasceu de uma indignação, de ver, no verão, o esgoto escorrendo para o mar. Naqueles dias de final de dezembro, um pequeno grupo decidiu que se alguém estava jogando esgoto na rede pluvial, era preciso que fosse parado. E a primeira ação foi encher de sacos de areia as saídas de esgoto no rio Rafael. O lugar era quase invisível, pois o mato e a sujeira já tinham tomado conta do rio, que sequer se podia ver. Mesmo assim, o povo adentrou pela vala, buscando as saídas. E encontrou. Então, as gentes foram enchendo os sacos de areia e formando uma barreira. A partir desse dia o grupo só fez crescer. Cada domingo era uma ação direta. Sacos e mais sacos de areia nas embocaduras dos canos, discursos, informações aos banhistas, caminhadas com faixas e cartazes. Depois, o SOS começou um longo trabalho de identificação de cada saída de esgoto e construiu mapas, os quais foram entregues às autoridades. Não haveria de ser só um protesto de verão. Por isso, quando o verão se foi e com eles os banhistas, o SOS seguiu seu trabalho, devagar e sempre. Fez reunião com a Casan, discutiu a rede de esgotos, pediu fiscalização. E lá veio a Casan, mais tarde, fechando as saídas clandestinas, sempre orientada pelos mapas do SOS epela presença dos lutadores. Mas, o trabalho não ficou por aí. Começaram as articulações com a Associação dos Pescadores e com a Floram. Cada dia um passo. Trabalho de formiga, incansável e imparável. Nessa semana, junto com os pescadores, o SOS conseguiu levar o intendente, Edir Gonçalves, para a uma reunião no rancho do seu Getúlio. A proposta era limpar os rios do Campeche, desassorear, deixar o curso d´água à mostra, para que pudesse respirar, ser visto, correr livremente no seu curso, sem o peso da sujeira e do esgoto. Hoje o rio Rafael, que mais parecia uma vala malcheirosa, recebeu um trato, ficou livre da sujeira, a água brotou. Está suja ainda, muita sujeira estava ali atravancando o caminho, mas pode ser que volte a correr limpinha. É uma primeira vitória, pequena, singela. Mas, para quem é campechiano, ama esse lugar e viu nascer mais esse braço de luta no bairro, o que fica é um sentimento oceânico de alegria. Porque quando a comunidade viva se une e luta, as coisas acontecem. Parabéns ao grupo SOS Campeche Praia Limpa. Isso é só o começo. A luta segue. Viva o Campeche.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

De tristezas e alegrias


Sim, ando triste. Mais que triste. Tristíssima! Não fosse assim, não seria humana. A vida pesa. E, de fato, surpreende-me que alguém possa dormir bem à noite. Há coisas demais que provocam dor. As guerras na África, a destruição do mundo árabe, a morte de carroceiros pela polícia, o assassinato de meninos negros nas comunidades de periferia, o massacre de trabalhadores sem-terra, o assassinato de líderes populares, as guarimbas na Venezuela, os pacotes de maldade do Temer, a condenação de estudantes em Honduras, os horrores nos acampamentos de refugiados, o racismo em todas as partes do mundo, o ódio aos pobres, as caçadas aos animais e às gentes, os dramas familiares que me consomem, a destruição do Morro do Lampião, a demora do Plano Diretor, a exoneração do Daniel, as guerras do tráfico nas quais pobres matam pobres, a impunidade aos ricos, o machismo que mata mulheres, homossexuais, travestis e trans, a prisão de Rafael Braga. E por aí vai...

As coisas tristes saltam na nossa cara, sem compaixão. E pesam. Por isso, por vezes, encarranco com as pessoas que parecem "felizinhas" o tempo todo. Como isso pode ser possível? Sempre quis compreender. Eu, desde bem pequena, sou prisioneira da melancolia e, por vezes, quando a alegria me assalta, envergonho-me. Não me parece justo!

Os tempos que vivemos não perdoam a tristeza. São como deuses implacáveis exigindo felicidade, paz interior, espíritos apaziguados. Eu não lhes dou essa oferenda. Tenho esse freio na boca, com o gosto do fel que a raça humana produz, dia após dia. Sou como as carpideiras que se estraçalham diante do morto, num convulsivo choro, barulhento e estridente. Seus gritos não são teatro. São a desesperada não-aceitação do que é tido como normal. Minha tristeza é isso: carpideira, inconforme.

Sim, a vida me exaspera e eu me rasgo a alma. Não tenho poder contra os vilões do amor. Não posso resolver os problemas do mundo, nem sequer os meus, tão prosaicos. Sou como um seixo na beira do lago, vergando ao sabor do vento, na inescapável impotência. E as lágrimas são como lavas, escorrendo e queimando, tão destrutivas quanto a dor que procuram aplacar. A tristeza não tem fim, como já dizia o poetinha. Então, o que nos salva?

Outro poeta, mais popular, anuncia: “felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”. E é assim mesmo, Odair. Eles chegam, num átimo e nos fazem plenos. São como relâmpagos, um risco de luz. Pode ser uma greve geral, um projeto que começa, um programa de rádio, uma fruta madura na manhã, um beijo cálido, um sindicato que se ganha.

Hoje foi assim. No ônibus, em meio a toda a tristeza das gentes que voltam para casa depois de um longo dia de exploração, deixei que o olhar se fosse pela barra da rua, perdido, esperando nada. Então o vi. Um desses bonecos que ficam em frente às borracharias. Feitos de plástico, com tubos que parecem braços e que dançam pela força do vento que é insuflado neles. Não sei por que, mas esses bonecos me dão uma alegria inexplicável e intensa. Aquelas carinhas estranhas, meio quadradas, e aqueles braços numa dança alucinada. Aquilo é tão esfuziante, tão engraçado, tão alegre.

Sempre fico feito uma pluma ao vento quando vejo um desses bonecos dançantes. Toda a tristeza se vai, tudo é esquecimento. Só vem aquela vontade louca de ficar, tal qual o boneco, mexendo os braços, alucinada, com aquele riso bobo. É meu momento estelar.

Não sei quem foi o maluco que inventou esses bonecos, mas se alguém souber, por favor, diga-lhe: essa estranha criatura feliz me arrebata do porão e, por um segundo, vive em mim toda a alegria do mundo. É por essas e outras que os humanos ainda são capazes de me surpreender.   


terça-feira, 25 de julho de 2017

La Constituyente vá!


Essa é uma semana movimentada na Venezuela. No próximo domingo, dia 30, acontecem as eleições para a formação de uma nova Assembleia Constituinte que pretende enfrentar a grave crise que se abate sobre o país e aprofundar o poder popular. A campanha tem sido intensa, muitos são os candidatos que concorrem representando setores da sociedade e também regiões do país. A intenção é garantir a maior representatividade possível.

Os políticos de oposição, que são os responsáveis pela guerra econômica e pelas “guarimbas” (trancamento violento de ruas e incêndios a prédios públicos) decidiram não participar do processo e seguem buscando construir espaços paralelos de poder, sem muito sucesso. Chegaram a organizar até um plebiscito consultando a população sobre a saída de Maduro e conseguiram mobilizar sete milhões de pessoas, o que não avança muito no número de votos que têm garantido na disputa com o chavismo. O resultado, que não tem qualquer valor oficial, não surpreende, afinal, a política na Venezuela sempre foi bastante polarizada e a participação intensa. De qualquer forma, a capacidade de organização da oposição mostra que a disputa continua dura, com tem sido desde sempre na luta de classes vivida pelo país a partir do aparecimento de Hugo Chávez.

Hoje, as guarimbas que chegaram a colocar fogo em um hospital infantil e vários prédios públicos, arriscando a vida de centenas de crianças, já começam a ser rechaçadas com vigor pela própria população. O medo está esgotado. Nas ruas, não são poucas as ações de enfrentamento com a exigência do destrancamento das ruas e as protagonistas são as mulheres. Elas saem dos carros, arregaçam as mangas e retiram as barreiras das ruas além de darem lições de moral nos guarimbeiros. Na última semana uma tentativa de incêndio no prédio da TV pública VTV foi imediatamente rechaçado pelos trabalhadores que colocaram, literalmente, os guarimbeiros para correr. Os grupos seguem com trancamentos surpresa nas ruas do centro da capital, mas ninguém se arrisca fazer uma guarimba nas comunidades de periferia, onde o bolivarianismo é forte. E é justamente nas comunidades onde a campanha para a Constituinte tem sido mais intensa. Ali, as pessoas estão preocupadas em garantir a vida na Venezuela, vida boa para todos, sem marcha atrás.

De qualquer forma o dia 30 não deverá ser tranquilo. A oposição mais violenta, comandada por Leopoldo Lopez, vai agir e esperam-se atos de terror. Desde o dia 20 de julho a MUD, que congrega a maior força de oposição comandada por Henrique Capriles, convocou uma greve geral, incentivando o desaparecimento de produtos das prateleiras e chamando a população para parar o país, impedindo assim que as eleições aconteçam.

Também convocou um “governo de unidade”, que nada mais é do que a proposta de um golpe. Ou seja, eles criam um gabinete de governo paralelo e comandam a greve, visando a derrocada do presidente. A greve foi chamada para a última sexta-feira e conseguiu garantir vários pontos de trancamento de rua. Houve dois mortos nos enfrentamentos, mas o movimento da oposição não chegou a ser massivo. Como já se viu, há certo esgotamento das ações violentas. De qualquer modo é certo que essa semana haverá mais alguma tentativa de barrar a eleição e não será na paz. A MUD segue apostando numa saída não eleitoral, pois sabe que não tem maioria.

No campo do chavismo as coisas também não são um lindo céu azul. Há divergências e grupos em disputa. A diferença é que mesmo aqueles que estão mais à esquerda e criticam o governo de Nicolás Maduro sabem que com a oposição no poder a Venezuela volta na história. Então, preferem o silêncio e fazer a disputa por dentro, tentando ganhar o maior número de cadeiras na Constituinte para fazer avançar as políticas mais radicais.

Segundo a análise do economista Nildo Ouriques, o principal nó na divisão das forças chavistas é a política econômica que tem sido levada pelo presidente Maduro e que, segundo ele, é a que alimenta a oposição. Maduro seguiu apostando na conta de capital aberto, sem tocar nos banqueiros. “A conta de capitais abertos permite que o sistema bancário pegue as divisas petroleiras e coloque tudo fora do país. Isso provoca a inflação e todo esse caos econômico. O governo tinha que ir para cima dos bancos. E não vai”. Nildo insiste que o governo Maduro não tem uma estratégia econômica para fugir do poder dos bancos, prefere manter o acordo com a elite, mantendo-a endinheirada e não consegue dar um uso produtivo para as divisas por causa do rentismo. Então é um círculo que precisa ser rompido.

Outra divergência entre os chavistas reside no fato de que Maduro não chamou um referendo para decidir se ia ou não à Constituinte. É fato que a Constituição atual permite que o presidente, com seus ministros, decida, mas essa nunca foi uma prática do chavismo. A posição mais previsível era de que a população fosse primeiro chamada a decidir sobre isso, como sempre foi no governo de Chávez. Maduro considera que a situação de guerra que o país atravessa foi a que levou a uma decisão assim, mas, de qualquer forma, há quem não concorde. Ainda assim, a aposta agora é garantir que a Constituinte saia e a vida siga, com a população conquistando mais poder.  

O fato é que enquanto a população se organiza para não permitir que retorne ao poder o grupo apoiado e financiado por Washington, a batalha midiática contra a Venezuela segue a todo vapor. Os meios chamam de ditadura um país que mais faz eleição na América Latina, senão no mundo. Pois na Venezuela ainda quem manda é o povo. E se isso é uma ditadura, ela é bem mais democrática que a ditadura do capital na qual quem manda é um pequeno grupo de endinheirados.

Por isso que quem vai dar a direção sobre para onde vai o processo bolivariano é a população. Não tem sido fácil nesses anos todos acossada pelo ataque direto e implacável do imperialismo. Golpes, guerra econômica, violência. Todas as armas contra o poder popular estão sendo testadas por lá. E a população tem resistido. Agora, é mais uma prova. Está mais do que claro, pela análise das falas da oposição, que a tática é derrubar Maduro pela violência. Ninguém quer paz no grupo da elite, até porque não são eles os que estão nas ruas fazendo o combate. Não são eles os que tombam. Seus jatos estão sempre à postos para tomar o rumo de Miami. Já para a gente venezuelana, não há ir e vir para os Estados Unidos. A vida dela é ali mesmo, na Venezuela de Bolívar. E, com ele, assim como com a memória de Chávez, seguirão construindo a liberdade. 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Terras indígenas: não sobrará nada se não houver luta

Povo indígena tem outro modo de organizar a vida

O presidente Michel Temer aprovou no dia 19 de julho, o parecer feito pela Advocacia-Geral da União e com isso, determina que toda a administração pública federal observe, respeite e dê efetivo cumprimento à decisão do Supremo Tribunal Federal no julgamento da Ação Popular PET nº 3388/RR (caso Raposa Serra do Sol). Essa ação determina que o governo pode atuar, suspendendo, inclusive, a demarcação de terras indígenas, se for para garantir “salvaguardas institucionais”. O argumento do presidente é o suprassumo do cinismo: que isso “servirá para garantir a pacificação dos conflitos fundiários entre indígenas e produtores rurais, diminuindo a tensão social existente no campo, que coloca em risco a vida, a integridade física e a dignidade humana de todos os envolvidos”.

Com essa anuência formal ao parecer da AGU o presidente indica que o caminho está aberto para os latifundiários, a bancada do boi, o agronegócio, os grileiros de terra. Qualquer terra indígena, sob o argumento de que exista sobre ela “um interesse nacional” poderá ser tomada. Nelas podem ser abertas estradas e instalados equipamentos públicos. Ou seja, sem essa de respeitar o direito ou a vontade dos povos originários. Cabe lembrar que as terras indígenas conformam parcos 12% do território nacional, mas sob elas estão muitas riquezas, tanto minerais como vegetais. 

Qualquer pessoa com um mínimo de compreensão sabe que o conceito de “interesse nacional” pode variar bastante conforme a direção que um governo dê a isso. Logo, a notícia mostra que Temer já sinaliza favoravelmente a grandes transformações no âmbito das terras indígenas. A assessoria do planalto, bem como a mídia comercial, que é servil ao Estado e ao capital, insistem em dizer que essa assinatura de Temer ao parecer da AGU, não muda nada na lei e nem no andamento das demarcações, sendo apenas a internalização de uma decisão do Supremo que já está tomada. 

Isso é uma meia verdade. A decisão de intervir nas terras usando a desculpa de “interesse nacional” foi mesmo tomada pelo Supremo, mas as comunidades indígenas estão em luta contra ela. Eles sabem – com uma sabedoria de 500 anos – que qualquer coisa pode ser “interesse nacional”, inclusive o assassinato sistemático de indígenas para “limpar” as áreas, tornando-as presas do latifúndio. Lembram bem que isso já foi uma política nacional e que agora ainda segue, camuflada, mas segue. Basta ver a completa omissão do estado diante dos ataques dos latifundiários que, inclusive, fazem ações contra os índios em conjunto com as forças públicas. 

Outro ponto de rechaço total é o chamado marco temporal. O Supremo quer reconhecer terras originárias apenas aos indígenas que estavam sobre a terra no ano da promulgação da Constituição, 1988. A ocupação anterior não vale. Pouco importa aos brancos togados se esses povos não estivessem sobre as terras porque tinham sido expulsos a ponta de bala. Isso não lhes toca o coração. A justiça, como qualquer outro poder instituído é representante do capital e como tal, não tem compaixão. 

A terra é o elemento principal da acumulação capitalista. Foi a partir do roubo de terras, com a expulsão dos camponeses para a cidade que esse sistema começou. Jogando as famílias na cidade, sem qualquer possibilidade de manter a vida, o sistema capitalista de produção ofereceu a “liberdade” de essas pessoas venderem sua força de trabalho. Assim, lá foram elas para as fábricas, enquanto as ovelhas – que dariam a lã para os capitalistas - tomaram os campos que eram seus. 

Esse processo de acumulação nunca parou. Cada vez que o capitalismo precisa se expandir, ele recorre ao roubo de terras. Porque uma família que tem um pedaço de terra, tem a condição de se manter. E é preciso tirar tudo dela, para que ela possa servir ao capital. 

Esse é discurso do deputado catarinense Valdir Colatto, ferrenho defensor do agronegócio, para os povos originários. Segundo ele, “essa gente” precisa trabalhar e não ficar querendo uma terra que não é mais dela. O que ele quer é fazer o que sempre é feito: limpar as terras de gente para que elas possam ser tomadas pelo agronegócio. Aí, quem sabe, se os índios forem “bonzinhos” podem até ganhar um emprego na propriedade, desde que seja por comida e moradia, dentro do novo modelo trabalhista brasileiro. Ou seja, o que o agronegócio quer é tornar o indígena uma mãos de obra assalariada, para que dele possa ser extraída a mais-valia, coisa que hoje não acontece, porque os povos têm suas terras e têm outro modo de organizar a vida. Afinal, seriam mais de um milhão de pessoas entrando no sistema de exploração. 

O estado brasileiro já fez vários experimentos com os indígenas. Tentou escravizar, não deu certo. Eles resistiram. Tentou exterminar, não deu certo. Eles sobreviveram. Tentou incorporar na sociedade branca, não deu certo. Eles são discriminados. E, ao longo de todos esses séculos as comunidades resistiram, encontrando formas de seguir vivendo, mesmo sem o território. O que move é a luta. Ainda que sem terra os povos se organizam e lutam. Muitos conquistaram o território à custa de muito sangue. 

Agora, enfrentam mais um capítulo dessa acumulação selvagem. Sim, porque selvagem é o capital. Esse sistema que tudo que toca, destrói. 

Por isso não há surpresa na decisão de Temer. Tornar capilar a decisão do Supremo, contaminar todas as instâncias, inocular o ódio aos indígenas como se eles fossem os responsáveis pelo atraso da nação. Tudo isso faz parte do golpe, dado para que essa nova reacomodação do capital possa se fazer. O ataque aos povos indígenas não está descolado do ataque aos trabalhadores  - com a aprovação das leis trabalhistas e da previdência. É a “sétima cavalaria” chegando para “salvar” os latifundiários, os assassinos de índios, os ladrões de terra. 

Esse é um tempo difícil para os indígenas, assim como para os trabalhadores. O que está em curso é o projeto de uma classe, a dos ricos, sobre outra, a dos empobrecidos. É tempo de entender que tudo está ligado e que essa é uma guerra de classes. Tanto aqueles que estão despojados dos meios de produção, os trabalhadores, como os indígenas, que também estão nessa condição, estão sob ataque, sistemático, desde a invasão. Por isso a luta tem de ser uma só. Os trabalhadores precisam entender o mundo indígena e defendê-lo, compreender que é outro modo de vida, e os indígenas precisam compreender que os trabalhadores são seus potenciais aliados nessa batalha. Esse encontro precisa se fazer para que a luta seja unificada. Todos estão em luta contra o capital.

Por isso a batalha contra esse projeto não se esgota na queda ou saída do atual governo. Essa é uma luta que só poderá ter vitória quando os trabalhadores, os indígenas, os negros, as mulheres e todos os excluídos caminharem juntos na construção de outra sociedade, que terá ser construída na compreensão das diferenças. Enquanto isso, resistimos! 

Afinal, mesmo a sétima cavalaria, que era considerada imbatível sob o comando do general Custer, um dia caiu sob o heroísmo do povo indígena que uniu as forças para combater o assassino de índios.  Cheyennes e Sioux, juntos, com Touro Sentado e Cavalo Louco à frente derrotaram Custer na batalha de Litlle Bighor. É assim: unidos, somos mais e podemos vencer.