sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Da amizade...



























Outro dia ouvia de uma amiga sobre as dores dos amores que passam. Dizia ela: “De repente aquela pessoa que era unha e carne, vai sumindo. Encontrou outro trabalho, outras pessoas, outros sonhos. Então, um dia, desaparece. Nunca mais a vimos, nem sequer recebemos uma mensagem na caixa do face. Sumiu. E fica aquele vazio, a sensação de que a amizade não foi forte o suficiente para se manter”.

Vi a dor naquele olhar, e não redargui. Só havia que abraçar bem apertadinho e aquecer o coração que doía por um esquecimento, uma amizade perdida.

Mas, cá com meus botões, me ponho a pensar. Não sei. Penso que amor não é coisa que some. Se sumiu, não era. Então, não há mesmo porque chorar ou ficar triste. Toca para frente. A vida é mais.

Eu mesmo tenho duas amigas que passeiam pela minha vida há 30 anos. As conheço desde o tempo de faculdade. Uma, encontrei na sala de aula, bem na porta, no primeiro dia. Cabelo enroladinho, óculos de fundo de garrafa, roupa de hippie. Era quase eu. E a outra chegou meses depois, pela mão de um colega de apartamento. O namoro com ele não vingou, mas a amizade comigo, sim.

Nessas três décadas já vivenciamos muitas coisas, inclusive longas distâncias. Cada uma criou seu mundo, outro círculo de amizade. E o que fomos nunca se perdeu. Já brigamos muito, ficamos sem nos falar, acumulamos mágoas e outras coisas ruins. Mas, o amor sempre prevaleceu. É verdadeiro. Vai superando...

Uma delas tem a incrível mania de me ligar toda vez que está feliz. O que é coisa rara. Compartilha cada pequena alegria e gosta de saber das coisas boas que vivo. Algo único. Coisa que me revigora.

Com elas aprendi que a amizade é, como amor, um compromisso. Não tem nada a ver com sentimento. É aquela certeza de que a vida que escolhemos para andar conosco é como um cristal. Tem de ser cuidada, para que não se quebre e não se perca. É estar por perto, mesmo longe. É compreender o silêncio, vibrar com a alegria, sentir a mesma dor. E, caso quebre, juntar os caquinho e colar, com dedicada atenção. Não voltará a ser fulgurante, mas não deixará de ser o que é.

Amizade mesmo não some por se misturar a outras vidas. Pelo contrário, se fortalece. Porque na relação com seres diferentes de nós vamos crescendo, mudando, ficando melhores, e esse processo só tem sentido se compartilhado com aqueles e aquelas as quais escolhemos amar.

Por isso, quando alguém se perde, há que deixar ir. Não houve liga, não houve amor. A estrada humana é cheia de belezas. Não há o que temer. 


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Liberdade restringida por um crime inexistente


























Foto: Rubens Lopes


A polícia de Santa Catarina, que atacou violentamente a manifestação de estudantes e populares na última segunda-feira, acabou prendendo três pessoas de forma totalmente aleatória e com acusações que não podem ser comprovadas. Duas mulheres e um rapaz foram levados, sob a alegação de resistência à prisão, quando a mobilização já se dispersava. O jovem foi liberado mediante fiança, mas as duas garotas, que foram acusadas também de depredação do patrimônio público, pela queima de dois cones de plástico, não tiveram o direito à fiança e permaneceram presas durante a noite.

Apesar de parte dos companheiros de manifestação ter se postado em frente à delegacia, as duas meninas ficaram incomunicáveis, e apenas as advogadas Luzia Cabreira e Daniela Félix conseguiram falar com elas. Elas permaneceram na delegacia até hoje à tarde, quando foram levadas ao Fórum para uma Audiência de Custódia, na qual um juiz decidiria sobre o que aconteceria com elas.

De novo, a frente do Fórum se encheu de estudantes e militantes sociais que foram se solidarizar com as estudantes, que cursam História e Relações Internacionais na UFSC. Mais de cem pessoas fizeram vigília esperando que as garotas saíssem em liberdade.

Pouco depois das quatro horas, as duas advogadas saíram pela porta da frente anunciando que as estudantes sairiam pelos fundos, para encontrarem apenas os amigos, evitando a mídia comercial, que, como sempre, deu destaque ao que chamaram de “baderna”, em vez da violência policial.

Quando finalmente Larissa Neves e Vanessa Canei cruzaram a porta para a liberdade, os companheiros e companheiras que esperavam em frente ao fórum deixaram fluir a emoção. Com cantos e palavras de ordem, receberam as estudantes com flores. “Companheira, me ajude. Eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”. Foi a hora do abraço, dos poemas e das lágrimas, afinal, a noite foi de apreensão.

A estudante de História, Larissa Neves, ainda estava dolorida e com hematomas. Passou por um exame de corpo de delito e as advogadas que a representam esperam uma declaração do Ministério Público sobre a agressão sofrida por ela, quando já estava dominada por três policiais.

Na audiência, o juiz Renato Guilherme Gomes Cunha concedeu liberdade provisória para as duas garotas, mas com restrições. Elas estão impedidas de deixarem suas casas depois das dez da noite e também nos finais de semana. Segundo a advogada Luzia Cabreira não há qualquer prova de que elas tenham depredado o patrimônio público, e existem os vídeos que mostram que elas não resistiram à prisão. Larissa, por exemplo, nem poderia, já que foi agarrada pelos pés e mãos, arrastada pelo chão, sendo chutada e golpeada com o cassetete. Há vídeos que mostram claramente a agressão. “O flagrante de queima dos cones é fictício. Só existe a fala dos policiais acusando e a gente sabe, pelas imagens, que os delitos não ocorreram”.

Segundo Daniela Félix, quando for o momento de fazer a defesa das estudantes, serão apresentadas as imagens e fotos que comprovam que não houve desacato nem qualquer outro crime. “Esperamos até que isso seja arquivado, pois não há provas”.

Agora, o processo segue e toda a máquina do judiciário vai se movimentar para discutir a queima de dois cones de plástico, como um grande vandalismo. É claro que tudo isso serve como punição exemplar, visando criar o medo na juventude que tem sido a ponta de lança dos protestos. Mas, o que se percebe é que o efeito é contrário. As agressões desmedidas, a prisão arbitrária e o exagero do processo só causam mais indignação e a promessa de que os atos de luta contra as medidas do governo Temer, contra o ataque à educação e as liberdades vão continuar.



Amarildos, firmes!!


Entrevista com Pepe Pereira dos Santos e Daltro de Souza, dirigentes da Comuna Amarildo, hoje na cidade de Águas Mornas. Os chamados "amarildos" foram famílias que ocuparam em 2014, um terreno na Praia de Canasvieiras em Florianópolis, reivindicando Reforma Agrária. Depois de muita luta garantiram um espaço de terra. Hoje produzem comida orgânica e conseguem gerar renda.


Polícia Militar e a violência contra os estudantes

Ato contra a PEC 241 em Florianópolis sofre a violência da polícia militar. Três estudantes foram presos, outros feridos. Nas imagens as cenas da força e da violência. Bombas, tiros e agressões. Imagens; Rubens Lopes


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A PEC 241 é ponte para a dor





























 Trabalhadores em luta contra o corte do futuro

Muita gente ouve falar em PEC, mas não sabe o que é uma PEC. É como se fosse um projeto de lei, só que mais importante, porque muda a Constituição. Daí a sua sigla, PEC, Projeto de Emenda Constitucional. No caso do Brasil, a tão comemorada Constituição de 1988, que garantiu uma série de avanços, frutos de importantes lutas sociais pós-ditadura, já foi emendada mais de nove mil vezes, e isso até 2013. Quem levantou esse número foi o advogado Thiago Santos Aguiar de Pádua, num artigo para a página Consultor Jurídico (http://www.conjur.com.br/2014-mar-09/thiago-padua-brasil-10-mil-pecs-25-anos-constituicao).


Ainda segundo os dados acima, a média geral de proposição de PECs é de 360 por ano, e pasmem, no geral, sem qualquer debate público. Ou seja, as bancadas - que representam interesses de grupos bem específicos e não a população – decidem sobre a vida de milhões, sem sequer submeter o tema a uma discussão mínima. Tudo se dá dentro do Congresso, com o silêncio obsequioso da mídia comercial. Nas mídias independentes e alternativas a discussão aparece, mas é claro que não tem o alcance dos veículos tradicionais e, geralmente, são demonizadas como “coisa de petralhas”. 


Somente quando é de interesse da classe dominante que o tema PEC se populariza, como aconteceu em 2013, durante as manifestações de junho, quando, do nada, todo mundo começou a vestir a camisa contra a aprovação da PEC 37, que tirava do Ministério Público o poder de investigação. Hoje sabemos por que houve tanto apoio da mídia comercial contra essa emenda, que foi derrotada a partir das grandes manifestações contra a corrupção. O Ministério Público iria cumprir triste papel na perseguição a um grupo bem específico de políticos: do PT.


A PEC 241


Pois na semana passada passou na Comissão da Câmara, pronta para ir a plenário, a proposta de emenda à Constituição de número 241. Se aprovada, garante ao governo o direito de congelar os gastos por incríveis 20 anos. Eu disse, 20 anos, duas décadas. Agora imagem ficar por duas décadas com o mesmo orçamento para a saúde, educação, segurança, moradia, saneamento e seguridade social? Vinte anos com a aposentadoria congelada, com os salários do funcionalismo público congelado. 


E em nome de quê esse ajuste tão perverso? Em nome do que o governo Temer chama de “herança maldita do PT”. 


Mas, qual é a verdade? 


A verdade é que o governo está decidindo, num tempo de crise sistêmica do capital, manter religiosamente o pagamento dos juros da dívida, que consome mais de 45% do orçamento geral da União. Assim, opta por pagar os banqueiros, de uma dívida ilegítima e ilegal, em vez de garantir direitos básicos à população. Não tem nada a ver com o PT, já que, de fato, no período em que esse partido governou, a economia estava em crescimento, o que permitiu melhorias nas políticas públicas. Agora, com a crise, haveria que se fazer escolhas. E o governo Temer está fazendo. Contra a maioria da população. 


Não é sem razão que o governo recém-empossado já realizou cortes em vários programas sociais, principalmente na Educação. Agora, caso passe o congelamento dos gastos, outros setores da vida cotidiana vão sofrer. 


Como a população brasileira ainda está inoculada com o ódio criado contra Dilma, contra o PT e contra tudo o que veio do governo passado, está bastante favorável para as bancadas que representam os interesses do grande capital, imporem uma grande derrota a toda gente. Afinal, os efeitos dessa proposta começarão a ser sentidos lentamente. E, quando aqueles que estão agora cegados pelo ódio ao PT se derem conta, tudo já estará consolidado. 


Nas ruas do país esta semana promete muita manifestação, pois o Congresso deverá votar a PEC em primeira votação, caso o governo consiga amarrar um acordo que garanta os 308 votos necessários para a aprovação. Nesse domingo à noite, dia 9,  as bancadas aliadas estiveram conversando com o presidente Temer, para avaliar o cenário e definir uma estratégia para vencer a batalha.


Nos movimentos sociais observa-se maior mobilização contra a PEC, mas o movimento sindical brasileiro parece adormecido. Pouco debate e pouca mobilização, o que possivelmente é fruto de todo o processo de domesticação vivido durante o governo petista, e que agora vai levar algum tempo para se recuperar. Aliado a isso, ainda tem a mídia comercial jogando pesado na consolidação da “historinha” de que é inevitável que os trabalhadores apertem o cinto para salvar o Brasil que o PT estragou.


Muitos dirão que Dilma também faria o ajuste e que isso é necessário para tirar o país da crise. Mas, quem está no governo não é Dilma, é Temer, e é ele o responsável por isso, nesse momento. Ou seja, o governo brasileiro está fazendo uma escolha. Atender aos interesses dos grandes e penalizando a maioria, que é quem precisa dos serviços públicos.  


A luta contra a PEC 241 se dará nas ruas, ainda que sejam os mesmos de sempre a gritar contra o “saco de maldades”. E é muito provável que a Câmara dos Deputados, cuja conformação é completamente favorável ao governo a aprove sem problemas. 


Assim, o que se anuncia para os brasileiros é um longo tempo de profunda escuridão, tristeza e dor, afinal, serão 20 anos com os gastos públicos congelados. Isso significa que os valores que esse ano foram investido nos serviços públicos como saúde, educação e previdência serão os mesmos daqui a 20 anos, e mesmo a classe média, tão virulenta no seu ódio aos pobres, terá de pisar miudinho para não se misturar aos que tanto despreza. Segundo pesquisas realizadas pelo grupo Tendências Consultoria Integrada, dirigido pelo liberal Maílson da Nóbrega, mais de 10 milhões de pessoas que integram hoje a Classe C serão rebaixadas as classes D e E.