quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Danilo




Ali estávamos, técnicos e estudantes, na vigília contra o atraso. Nosso Centro, o de Ciências Econômicas, estava para votar o fim do voto paritário. Um retrocesso que viabiliza o domínio completo dos professores nas consultas eletivas. A desqualificação total dos trabalhadores técnicos e dos estudantes. Coisa do tempo das trevas.

Durante dias os estudantes haviam mobilizado seus pares, bem como os técnicos. E naquela sexta-feira, estavam ali os de luta, os de sempre, os que não se acovardam. Dentro da sala rolava o debate, no segredo. Os professores não permitiram a entrada dos manifestantes. Então, o povo aguardava, do lado de fora, esperando pela hora da votação.

Foi então que vivemos um momento estelar. Essas frações de segundos que valem uma vida. Esses momentos de profunda emoção que nos fazem humanos de verdade. Vindo, devagarinho, no final do corredor, assoma o Danilo. Ele não é estudante, nem técnico, nem professor concursado. Mas é mestre.

Militante do movimento Tortura Nunca Mais, ele foi um guerreiro contra a ditadura. Participou da luta armada, esteve no Araguaia, foi preso, torturado, teve seu corpo marcado para sempre e até hoje sofre as consequências da maldade humana concretizada no ato da tortura. Mas, é um homem que não desiste. Seu conselho diário é: “estudem, estudem e estudem!”

E isso é coisa que ele faz. Lê oito horas por dia, paciente e sistemático. Por volta das três horas da tarde chega ao Iela, de onde sai só lá pelas dez da noite. Pesquisa, conversa, ensina. Em volta dele juntam-se os estudantes e o ouvem, embevecidos e reverentes. É amado e respeitado como um mestre. Não precisa usurpar 70%, para ganhar a atenção e a consideração dos estudantes e dos trabalhadores. Ele se faz imprescindível por sua prática, seu exemplo. É amado como guru.

Por isso, aquele momento, no dia da votação, foi estelar. Porque quando ele assomou no final do corredor, caminhando lento e seguro na direção dos estudantes, a reação foi imediata. A atenção que estava voltada para a sala onde os “professores” decidiam de maneira antidemocrática sobre a vida de todos, virou-se para Danilo. Todos pararam de conversar, o violão emudeceu, e principiaram as palmas. De mansinho, em meio o frenético bater de mãos, todos começaram a gritar: Danilo, Danilo, Danilo...

E ele foi se chegando, com um riso tímido diante da reverência, misturando-se ao movimento, fazendo-se gota no rio. Com sempre faz, de mãos dadas com a maioria, com a justiça, com a luta. Mesmo na derrota – porque é claro que fomos derrotados – é bonito demais viver coisas assim. 


Danilo é mestre, e nem precisa de diploma... 


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