sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando tudo fica gris







O rio Uruguai, sempre uma bênção






Onde era o bar do picolé, agora é agropecuária, mas segue ali, firme.










A escola Francisco de Miranda, ainda de pé...






 
Minha irmã mais velha foi quem me ensinou a ler. Ela chegava da escola e fazia os deveres numa pequena lousa de "brinquedo", fazendo as vezes de mestra, ensinando. Eu, olhuda e atenta, aprendia. Mal sabia ela o tanto de bem que me fazia. Tinha cinco anos quando fui levada para a escola pela nossa vizinha, Maria Tereza, que era professora. O colégio era longe, ficava no bairro do Paso, bem na beira do Rio Uruguai, e a gente ia de ônibus. Pelo caminho, eu vislumbrava uma cidade diferente da que se via pelo "centro". O quartel, enorme, se estendendo por metros a fio, os guardinhas parados vigiando o nada, as casinhas pequenas, os pátios cheios de bergamoteiras, as pessoas sentadas na varanda, as mulheres varrendo a calçada, a gurizada correndo pelas ruas de chão. A Escola Municipal Francisco de Miranda tampouco era diferente do bairro onde se encontrava. Simples, com partes de madeira, carteiras velhas. A diferença é que tinha, bem na entrada, a foto do grande precursor das batalhas de libertação nessa nossa imensa Abya Yala: Francisco de Miranda. Imagino eu que foi ali que meu sentido de pertencimento a essa américa baixa foi se formando.

Na hora do recreio, a gurizada se espalhava pelo campo enorme que havia em frente a escola e a maior aventura era correr até o casarão da esquina para comprar picolé. Naquelas horas de folguedo também era possível se misturar às crianças do bairro, muitas delas com voz argentina. Essa coisa boa de viver na fronteira. Uma mistura de línguas e costumes. Voltar para casa, tão distante da escola, era sempre triste. Era como adentrar outro mundo, um mundo que não tinha o encantamento da vida do Paso. Foi assim que me apeguei aos livros. Por sorte, meu pai tinha pena dos vendedores de livros que batiam à porta, com sua algaravia de provações, e comprava tudo o que ofereciam. Assim, desde bem pequena tive contato com o que há de melhor da literatura nacional. Coleções inteiras com as obras de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Castro Alves, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos. Também chegavam livros sobre os Incas, Maias, Astecas, os povos africanos, os grandes filósofos, os mitos gregos. A minha casa era um mundo encantado.

Foram os livros também os responsáveis pela minha tristeza. De tanto conhecer as coisas do mundo, fui ficando macambúzia. Tanta impotência com os dramas humanos. Como entender a destruição dos indígenas? Ou a dor de um continente inteiro, como o africano? Como explicar a violência do nazismo? Por que havia tanto mal, tanta miséria, tanto aniquilamento? Minha mãe, católica praticante, dizia: "são os desígnios de deus". Mas, eu, desconfiava. Se deus era puro amor, aquilo não era obra dele. Parecia evidente que era obra humana. Mas, por quê? Não tinha a resposta. Lia mais e mais, e nada. Decidi que não poderia ser alegre com tanta tristeza nesse mundo. Passei muitos anos assim, mergulhada na desesperança.

Todo esse pano de fundo me levou ao jornalismo. Amante das palavras, a vida só parecia fazer sentido quando eu mesma juntava as letras e contava as histórias. Se não havia como salvar as pessoas de tanta tragédia, pelo manos narrá-las, para que não se perdessem na noite da história. E assim fui, pelos caminhos, re-construindo mundos. Pretensiosa aventura, sempre inconclusa. Já era adulta quando percebi que podia ter direito a algumas alegrias, e re-aprendi a rir com vontade, gargalhar, desfrutar dos pequenos momentos de felicidade que aparecem na vida da gente, num átimo. Esses que valem uma vida.

Ontem, vendo um vídeo que contava a história de um homem - Nicholas Winton - que ajudou a salvar 700 crianças do horror nazista, me abateu a tristeza de outrora. O repórter aludiu ao terror daqueles dias, tão longínquos. E o sábio velhinho redarguiu, ligeiro: "Não se engane, os dias de hoje não são melhores do que aqueles. Falta ética e compromisso". Bateu como um martelo. Pura verdade. "A humanidade não aprendeu nada", disse, desolado. E me deixou, assim, nessa tristeza infinda...


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Cem anos do contato










Guerreiros xogleng

















Uma crônica de amor

A noite caíra, e Helga seguia espiando pela janela. Esperava ver o homem que havia dias a espreitava desde o mato, poucos metros adiante. A mãe advertira para que denunciasse qualquer movimento suspeito. Mas como dizer suspeito àquele olhar de doce surpresa? Nunca vira ninguém assim, nem sentira esse sentimento oceânico, que lhe enchia o corpo e a alma. “São bugres, perigosos”, dizia o pai, que já mandara seus homens pelo mato para caçá-los. Mas, para Helga, aquele que lhe tomara o coração, era quase um deus.

Foi no princípio do inverno que eles se encontraram. Ela saíra com um cobertor e depositara no lugar onde ele sempre estava. Não imaginava que ele aparecesse. Enganou-se. Devagar, ele saiu do meio das árvores. Ela estacou, sem palavras. Ele sorriu, ela também. E ficaram olhando um para o outro, no encantamento. Ele pegou a coberta e se foi. Ela correu. Desde aí se viam todas as noites. Ela pulava a janela e seguia para o mato, onde ele a esperava. Conheciam um ao outro sob o luar, no toque suave de mãos. Ela amava sua cor de cuia, ele amava a tez branquinha. Ela não sabia o significado das palavras xokleng, ele tampouco entendia as dela. Mas, sorriam e tudo estava compreendido.

Até que um dia, ele não veio mais. Ela temeu. Sabia dos “bugreiros”, matadores de índios. Já vira, inclusive, o tal de Eduardo Hoerhann, chamado de “pacificador”. Ouvira que ele andava convencendo os índios a se integrar ao mundo branco. Parecia-lhe tarefa impossível, tendo eles uma existência tão livre e pura. O pai dizia que eram selvagens, mas a ela parecia que os selvagens eram os brancos. Ouvia e cismava, olhando pela janela, buscando na mata.

Soube, era outubro, que Hoerhann havia atraído uns 400 índios para um posto em Ibirama, mas que ainda havia alguns espalhados pela região de Blumenau. Os “bugreiros” seguiam atuando, caçando os “hostis”. Pensou no homem que amava e soube que ele jamais seguiria para o posto. Era certo que estava morto. Não sabia seu nome, não sabia nada além da doçura de seu olhar e do toque suave de suas mãos. Mas, era o suficiente para uma vida. Quando o pai lhe apresentou o futuro marido, nem piscou. Faria o que era devido. Casaria, teria filhos. Sempre fora assim. A diferença é que ela tivera aquelas noites de puro amor.

Passou todos os anos da vida espiando pela janela. A vila cresceu, as árvores sumiram, tudo desapareceu. Tinha noventa anos quando contou do momento mágico que vivera quando era ainda uma menina. A neta andava metida com gente do Cimi, circulando pelas aldeias do povo Xokleng. Viu na garotinha de cabelos esvoaçantes a mesma guria que fora um dia, na velha Blumenau de 1914. Numa tarde de abril falou do encontro com o homem que lhe roubara a alma. “Era um xokleng, vó”. Sim, era. E vivera dentro dela esse tempo todo. No silêncio.

Agora, nesse junho de 2014, quando a história registra 100 anos da “pacificação”, a neta de Helga escuta pela televisão sobre a luta do povo Xokleng. Eles estão na Barragem Norte, exigindo que o governo cumpra o acordo feito em 1992, quando precisaram também invadir a barragem construída sobre suas terras. Cem anos se passaram e nada mudou. Na mesa ao lado, alguém maldiz: “são os bugres, vagabundos”. Nora pensa na vó, na coragem que teve em viver seu amor, na força que precisou para aguentar a ausência. Olha de novo para os dois casais que sorriem ao lado. “Bugreiros, tal e qual os do passado”. Haverá de passar muito tempo até que realmente aconteça o contato, capaz da pureza e do amor, como o vivido por Helga e o jovem guerreiro Xokleng.