sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Meu jesus vem passear


Sou filha do meu tempo e espaço. Nascida numa família cristã, desde pequenina o natal significou presépio, ou seja, a montagem da hora mágica na qual um menino veio ao mundo para anunciar uma boa nova. E, com ele, a promessa de que haveria outra aliança e que nossos pecados todos estariam perdoados. Lá em casa sempre demos prioridade a isso. Nunca ao Papai Noel, brinquedos, compras, etc... A expectativa era a chegada do menino. Eu mesma sempre colocava o sapato na janela, mas a mãe explicava: “os presentes não são coisas, são sentimentos e desejos”. Então, quando o dia amanhecia eu entendia que um gurizinho tinha nascido e, por força da mágica da religião, também havia passado pela janela deixando amor, saúde, alegria e todas essas coisas boas. E recolhia aquele sapato como se fora a coisa mais preciosa do mundo.


Na minha mente de criança eu imaginava não um velhinho montado no trenó, com renas e todas estas coisas da celebração européia. Eu acreditava piamente que havia um menino, bem sapeca, que saracoteava pelo mundo, montado numa grande estrela, levando presentes invisíveis aos olhos. E eu esperava o ano inteiro por esta noite de passeio divino. E o legal era que o fato dele ser um guri tirava toda a pomposidade do sagrado filho. Era como esperar um amigo, coisa íntima.


Depois eu cresci e fui conhecendo outros mitos, outras religiões. Aprendi a dar pago à terra (Pachamama) em agosto, a respeitar o trovão, a folha de coca, as plantas, os animais. Aprendi a reverenciar outras manifestações criadas pelo humano para sustentar suas dores e medos. Porque é disso que se trata quando se fala de deuses. Eles são redes nas quais descansamos de nossos terrores. E, esta construção humana me enche de ternura, porque reconheço aí a fragilidade da nossa raça. Isso me emociona.


Mas, apesar de tudo o que aprendi sobre os outros deuses, o natal ainda me encanta de um jeito muito especial. E, a despeito de todas as impossibilidades, eu espero o menino. Às vezes, nos tumultos familiares ou no barulho da festa, pode parecer que eu o esqueci, mas não. Lá no fundo do meu coração, eu o espero. E o vejo chegar, montado na estrela, rindo um riso de cristal. Também a despeito de tudo, deixo meu sapato na janela e o recolho de manhã com a absoluta certeza de que ali dentro estarão os presentes. Os que verdadeiramente importam.


E assim, nesta natal, como em todos os outros já vividos, meu jesus haverá de vir passear. E eu estarei esperando...


Que ele passe por aí também!...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fernando Baéz - um guerreiro contra a destruição cultural


Fernando Báez nasceu em San Felix de Guayana, Venezuela, e desde muito cedo começou a se interessar pela filosofia grega, especialmente Aristóteles. Depois, descobriu Averróis, o filósofo árabe que introduziu Aristóteles na Europa, via Granada. Formou-se em Educação, mas a filosofia continuou correndo rápida pelas veias. Em 1991 escreveu Reflexiones, um livro de ensaios, em 1993 foi a vez de fazer vir à luz os seus poemas no livro Alejado. Em 2000, lançou outro livro sobre o manuscrito bizantino, Tractatus Coislinianus, iniciando seu mergulho no mundo árabe.

Desde aí, Fernando Báez manteve constante interesse na poesia, filosofia árabe, censura antiga e contemporânea, escritura e na conexão do patrimônio cultural com a memória étnica. Em 2002 Báez publicou uma coleção de ensaios sobre a censura, La ortodoxia de los herejes, apresentando seu ponto de vista sobre as tentativas latino-americanas de construir uma teoria coerente sobre a questão da censura no século XX. Escritor fértil seguiu publicando poemas e outros textos sobre Aristóteles.

No ano de 1999, Fernando Báez iniciou o doutorado em Bibliotecologia e logo recebeu o Prêmio “Vintila Horia” por conta do seu ensaio acerca da História da antiga Biblioteca de Alexandria. Seu caminho pela filosofia e pelas bibliotecas consolidou a idéia de estudar a destruição cultural e encerrou seu doutorado com um livro que acabou se tornando um clássico: A história universal da destruição dos livros. Neste trabalho, que foi a sua tese, ele documenta a perda catastrófica de livros durante as guerras, tais como a destruição da biblioteca de Alexandria, queimada em 48 a.C. e as fogueiras acesas pelos nazistas.

Baéz faz da sua vida a busca pela história dos livros e a luta contra a destruição. Talvez porque, quando menino, tenha vivenciado a perda da biblioteca do seu pequeno povoado, San Félix, depois de uma inundação. Essa imagem nunca lhe saiu da cabeça e hoje, entender a destruição cultural e o que leva o poder a queimar os livros virou sua obsessão. Não foi sem razão que ele assumiu a missão de documentar, pela Unesco, a devastação de objetos culturais e religiosos no Iraque, depois da ocupação estadunidense, o que acabou gerando outro livro importantíssimo nesta área: A destruição cultural do Iraque – um testemunho do pós-guerra.

Hoje, Fernando Baéz é reconhecido como um dos mais importantes intelectuais do planeta, tendo seus livros traduzidos em mais de 12 línguas. Generoso, ele partilha diariamente com os amigos, as imagens dos estudos que segue fazendo pelo mundo no que diz respeito aos livros. No seu arquivo de fotos, estão raridades históricas como os cartazes feitos pelos nazistas incentivando a queima de livros.

Jovem e aficcionado pela memória cultural dos povos, Fernando é um intelectual latino-americano que precisa ser cada vez mais conhecido. Sua vitalidade e curiosidade investigativa colocam à nu a necessidade que o poder tem de destruir os livros, porque é deles que brotam as idéias, e as idéias movem mundo.

Veja na página do Iela (http://www.iela.ufsc.br/?page=noticia&id=1601) duas pérolas do arquivo de Baéz. O cartaz dos nazistas para queimar idéias marxistas e a contra propaganda para impedir esse crime.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Dia de festa


Amanhã será o aniversário da minha mãe. Mas ela não está mais. Encantou. Ainda assim, parece que nunca foi embora. Nestes dias em que a ausência pesa mais do que tudo, eu celebro a sua vida. Ouço um disco do Carlos Galhardo, outro da Ângela Maria. Pego seus bordados e arrisco um ponto cruz. Decido iniciar mais um tapete de crochê, que certamente durará um ano para ser completado. Como goiabada com queijo, ensaio um passo de bugio. Vejo velhas fotos e dou muita risada lembrando as coisas engraçadas que ela fazia e dizia.

Feito um inquieto micuim ela estava sempre em ação. Limpava janelas, preparava refeições, arrastava os móveis, buscava teias de aranha, cuidava da horta, adubava suas plantinhas, costurava, bordava, tudo ao mesmo tempo agora. Depois do almoço, ela descansava e todos nós corríamos para a sua cama, e ali ficávamos ao seu lado, lânguidos, ouvindo histórias, dando risada, contando causos. A cama era um porto seguro, um espaço de comunhão.

Hoje, passados tantos anos do seu encantamento, vejo o quanto dela ainda permanece em tudo que somos e fazemos, para o bem e para o mal. Gemada para curar a gripe, chá de boldo para o estômago, mangas nas tardes quentes, café da tarde com bolo, bife à milanesa com purê, pão de casa, pastel com arroz no natal, costelinha de porco comida com a mão. Aos cinqüenta anos me surpreendi outro dia com ela me olhando no espelho. Tão igual. Teimosa e generosa. Valente e melancólica. Doce e guerreira. Leoa e passarinho.

Amanhã, estarei com ela na varanda de casa, sorvendo um chimarrão. E haveremos de conversar longamente sobre as coisas do mundo. A tristeza no Haiti, a violência em Rapa Nui, a eleição da Dilma. E ela balançará a cabeça dizendo: mas que barbaridade. Depois, distraída, vai sorrir seu riso doce e perguntar: e o Internacional, foi campeão? Não mãe, foi o Fluminense! Quê?! Mas que barbaridade. E daremos muita risada...