terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Sobre passeatas e construção de realidades



Não há problema nenhum de as pessoas saírem às ruas para manifestar sua alegria ou descontentamento. É um direito sempre defendido por todos os que, sistematicamente, participam de protestos e lutas. Num país onde as instituições estão fechadas à participação popular, o único espaço onde a voz pode se erguer são as ruas.  E ainda que muitos dos que marcharam nesse domingo tenham uma posição clara e definida pela volta de um regime autoritário aos moldes da ditadura militar – o que é grotesco - não dá para deixar de ver que entre os manifestantes também estão as pessoas que verdadeiramente querem ver estancar a corrupção endêmica no país. Uma corrupção que não está unicamente nos partidos ou nos políticos. Ela existe em todas as instâncias do nosso tecido social. 

A pauta do combate à corrupção é uma pauta que toca a todos e é justamente por isso que a direita tradicional aproveita o mote para envolver aqueles que a mídia chama de “cidadãos de bem”. Porque, em última instância, não há criatura na terra que, sendo de bem, não seja contra a corrupção. Daí o apelo que essa pauta tem, conseguindo levar para a rua pessoas de tão variadas ideias. Há que pensar sobre isso e sobre o uso das ruas para as lutas também da direita organizada, que hoje usa movimentos como o Movimento Brasil Livre e o Vem pra Rua, para esconder as siglas partidárias, tão rechaçadas pela maioria da população. Um pouco de observação atenta e pode-se ver a ligação desses movimentos com partidos como o DEM e o PSDB.

Um pouco de história

Nos últimos anos, ainda na ditadura, as primeiras caminhadas pelas ruas foram no período da luta pela anistia, lá pelo final de 1978. O governo militar estava nos estertores e as pessoas já se arriscavam a realizar passeatas, depois de um longo período de repressão brutal. Por todo o país aconteciam marchas pedindo a volta dos exilados, gente que tinham saído do Brasil justamente por conta da perseguição do regime de exceção. Era um clamor nacional, uma pauta humanitária que unia a esquerda e pessoas sem muita ligação com a política institucional.  Mas, as caminhadas, sempre pacíficas, recebiam o mesmo tratamento de hoje: muita polícia, muito porrete, prisões. E eram um risco concreto para a vida de quem participava.

Naqueles dias a mídia comercial, completamente atada aos interesses da ditadura, não divulgava as caminhadas que cresciam, e cresciam. Era como se nada estivesse acontecendo. Quando não havia como negar, quando ficava grande demais, os manifestantes eram atacados: os “comunistas”, os “subversivos”, os “desocupados”. Palavras um pouco diferentes das de hoje, mas com o mesmo sentido. Os que marchavam eram sempre “do mal”, sem qualquer contextualização. A realidade era invertida. A mentira era a lei. 

Só que aquela era uma vaga que não tinha parada, e dia a dia crescia, com mais e mais gente saindo para a rua, até que em agosto de 1979 foi assinada a Lei da Anistia. Veio a hora, então, de as gentes saírem de novo para a rua, celebrando a volta dos companheiros e companheiras de sonho. A partir dali as ruas seguiram sendo ocupadas na luta pelas eleições diretas, outra pauta que unificava toda a nação brasileira. Manifestações gigantescas, também invisibilizadas pela TV e pelos jornalões.  Ainda assim, todo aquele povo sem medo seguiu se manifestando, fazendo acontecer o fim do regime militar. E quando ele acabou, misteriosamente, na mídia, as pessoas que haviam lutado e arriscado suas vidas passaram a ser aquelas que “construíram a democracia”. Com o passar do tempo, as manifestações tão demonizadas entraram para a história como um momento de grande importância para a nação. Porque a realidade está fora dos meios de comunicação e, ao se impor, exige que o discurso dos meios mude. 

Daí a necessidade de uma reflexão sobre a cobertura que a mídia deu às manifestações desse domingo, mais uma vez querendo inventar uma realidade que não existe. Sempre apostando na mentira e no encobrimento. Primeiro elemento a ser analisado: a mídia cobriu os atos desde as primeiras horas, como se fosse um grande acontecimento nacional, incorporando o mote de combate à corrupção, sem matizar os diferentes grupos que ali se manifestavam. Boletins de hora em hora no rádio, na TV e na internet, uma espetacularização sem conteúdo. Um bom motivo para desconfiar. Por que, afinal, essa mesma mídia, não deu igual cobertura para as manifestações contra a PEC 55, que mexerá com a vida de milhões de pessoas ao congelar gastos no social? Da mesma forma como considera bom para as finanças o congelamento dos investimentos, os meios de comunicação não mostram o outro lado. Se as finanças ficam equilibradas, como ficam as gentes?  Isso não se fala. 

Segundo elemento: como podem os meios de comunicação de massa saudar como “importantes” e “necessárias” as atividades dos grupos que pedem intervenção militar? Que mundo é esse em que algumas pessoas vão às ruas pedir o retorno da censura, da morte, da tortura e das desaparições? Como podem pedir isso, se isso é considerado um crime hediondo. Por que então, os meios não explicam a diversidade de grupos que se manifestam na rua? E que entre os que ali marcham realmente preocupados com a corrupção, há também os que atuam pelo retorno do terror? Claro, se a mídia mostrasse quem organiza e o que defendem, muitos cidadãos não participariam. 

Terceiro elemento: as manifestações pedindo o fim da corrupção e a volta do regime militar acontecem sem incidentes com a polícia. Nenhuma repressão. Pelo contrário, são protegidas pelos policiais e as pessoas tiram “selfies” com os fardados, tidos como heróis. Isso acontece porque as manifestações não se insurgem contra o poder. Elas, de fato, não incomodam quem está no comando da vida no país. O fim da corrupção é uma pauta vaga, porque não define o como. E os que defendem o totalitarismo do poder Judiciário, nesse momento, estão ajudando os velhos políticos corruptos a colocar por terra o tal do estado democrático e de direito burguês. Afinal, como dizia Jesus: “a lei existe para o homem e não o homem para a lei”. 

Já os trabalhadores que lutam contra a PEC da morte, que congela os gastos com saúde, educação, segurança e moradia por 20 anos, esses são chamados de “bandidos”, “bandidos”, como se pode ver no vídeo que mostra um policial bastante alterado, partindo para cima dos manifestantes, em Brasília, com bombas e balas de borracha. A polícia é ensinada a defender o estado, não a “res publica”. 

Assim, não mostrando os matizes e os objetivos que levam as pessoas às ruas, a mídia vai cumprindo seu papel de fiel defensora da classe dominante. Mentindo e inventando realidades. Por isso a luta contra a corrupção “é boa”, enquanto a luta contra o congelamento dos investimentos públicos “é má”. Na verdade, cada uma dessas lutas tem de ser analisada na sua totalidade, com todos os matizes que carregam.

Possivelmente, a despeito da mídia, a história desenhará lá na frente o aspecto totalizante dessas manifestações rua. E, de novo, aqueles que hoje batalham contra a barbárie imposta pelo capital serão reconhecidos como os “importantes sujeitos” que lutaram contra o terror do congelamento dos investimentos sociais. Manifestando-se contra a violência, contra a destruição de direitos, pela vida. Assim como foi durante o período da ditadura. Já os que saíram às ruas domingo serão mostrados como os que, ainda que bem intencionados, acabaram engrossando a fileira daqueles que pediam a intervenção militar – coisa que carrega ainda simbolicamente o sentido da morte, medo, violência e perseguição. Basta uma olhada nos cartazes que as pessoas  carregam, os dizeres que defendem. Tudo está às claras. 

É sempre bom lembrar que as ruas seguem sendo o espaço das lutas do povo. Mas, é preciso também perceber que algumas dessas lutas acontecem sem riscos, sem truculência da polícia. Há que se perguntar por quê?  

Está claro que o que se vive é a luta de classes e é natural que os policiais estejam do lado de quem defende o uso da força contra os trabalhadores que enfrentam as políticas recessivas do estado. O estado que é dominando pelo capital. Porque os policiais, ainda que sejam trabalhadores, no geral, defendem a classe dominante. O antagonismo está explícito. Será preciso ainda muito trabalho para que esses trabalhadores - que hoje cumprem a triste missão de reprimir, bem como os que gritam pela volta dos militares - compreendam o verdadeiro sentido da segurança pública. Lá na frente, quando vier o doloroso resultado das medidas tomadas pelo Congresso Nacional contra a maioria da população, talvez alguém possa despertar. 

O debate em questão pretende colocar em pauta justamente a diferença que existe entre a ideia de sociedade defendida pelos trabalhadores em luta, e a que defende a volta dos militares. É preciso ter tudo muito claro e depois, cada um e cada uma, observando os objetivos de cada concepção de mundo, que decida seu caminho. Mesmo aqueles que hoje marcham, seguindo com a consciência ingênua, o que acreditam ser apenas uma luta contra a corrupção. Não tenho dúvidas de que se tiverem as informações e compreenderem o que realmente acontece, passarão a engrossar as fileiras dos que atuam contra as medidas arrochantes do governo. Medidas que buscam manter em equilíbrio, não as contas, mas os bancos e os ricos.

Para os trabalhadores em luta, na história recente, desde as caminhadas pela anistia, o horizonte é a vida boa para todos os que produzem riquezas, numa forma de governo na qual o poder seja exercido pela esmagadora maioria. Ao contrário dos que defendem a mão-dura dos militares, do poder totalitário, os outros defendem a democracia radical, aquela na qual as pessoas participam e decidem juntas. É claro que é bem mais cômodo ter alguém definindo as coisas pela gente. Democracia é coisa difícil, precisa comprometimento, participação, paciência. Ainda assim, há os que preferem o caminho árduo, espinhoso e longo, que é também cheio de belezas e de encontros amorosos. O que move esses princípios é o amor, unicamente o amor. O desejo de que todas as pessoas no mundo tenham o direito de comer, dormir, morar, sentir-se seguro, dançar e ser feliz.

É fato que esse sentimento oceânico que move os lutadores sociais encontra a dureza da luta de classes. E há que enfrentar os que impedem esse sonho de amor. Isso será feito. Não há saída. Os trabalhadores seguirão tomando as ruas e lutando pela construção desse mundo sem classes, no qual o trabalho não será mais do capital, mas das gentes. Mas, nesse meio tempo, é preciso também conversar com as gentes que estão fora do circuito dos partidos e movimentos organizados. Essa é também uma longa batalha de comunicação. 


sábado, 3 de dezembro de 2016

Escritos em Movimento

Do lindo trabalho da jornalista Miriam Santini de Abreu, que faz um memorial das ocupações urbanas em Florianópolis, entrevistando parte do pessoal que fez parte desse processo que começou nos anos 80. Tive a honra e a felicidade de participar desse momento tão importante da vida da cidade. 

'No final dos anos 1980 e início dos 90, a jornalista Elaine Tavares fez a cobertura jornalística das primeiras ocupações em Florianópolis e participou da equipe que produzia o “Jornal das Comunidades”, uma publicação da então Coordenação da Comissão de Associações de Moradores de Florianópolis distribuído em várias localidades. Na entrevista ela avalia aquele período e fala do papel do jornalismo comprometido com as lutas sociais. Entrevista feita no dia 16 de maio de 2016.'

 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Da Serra ao Seridó - um documentário de Fernando Leão








Sempre guardo na memória aquelas manhãs, no curso de Jornalismo, quando adentrava pela sala de aula uma criatura auroreal, dessas que parece estar sempre nascendo: Gilka Girardello. Era professora de redação. Por ser também contadora de histórias, ela sempre achava um tempo, entre o ensino das técnicas, para uma narrativa. E a gente ouvia, embevecido. Com ela aprendi que o jornalismo é isso mesmo: uma contação de histórias. E que aquele que se dispõe a contar tem de ter olhos de lâmpada, capaz de captar toda a beleza que se expressa no humano. O cuidado com os detalhes, com o singular. Ser sempre humano, demasiado humano. Cuidar do personagem narrado como se fosse um cristal.

Hoje terminei de ver o documentário do jornalista Fernando Leão, “Da Serra ao Seridó – vivências em um Brasil de Contrastes”, e enquanto a viola da trilha final ia serpenteando, deixei que as lágrimas caíssem mansinho. De alegria e de assombramento. Alegria, por ver, no documentário, essa vida imanente. Histórias de pessoas singulares. Humanos que são mundos inteiros. E assombramento por saber que ainda há quem seja capaz de pegar a vida do outro com tamanha delicadeza.

Fernando expõe duas realidades tão diversas. O seco e árido Seridó, no Rio Grande do Norte, a exuberante  e verde serra catarinense. Em cada um desses espaços geográficos - tão distintos - ele encontra pessoas dispostas a abrir suas casas e vidas. A prosaica existência, carregada das belezas cotidianas. 

Impossível não se emocionar diante da fala do seu Deca, contando que trabalha desde os quatro anos. Impossível não gargalhar com a senhorinha de Florânea, ao descobrir que vive 63 anos, com o marido, “numa paz de deus”.

As vidas que passam pelo documentário de Fernando são essas histórias com as quais nos deparamos todos os dias, muitas vezes sem notar, a vida das pessoas comuns. Mas, o jornalista de verdade, esse não pode passar impune. Ele tem de ser capaz de ver o invisível. E é o que Fernando faz. Eterniza no vídeo esses universos de belezas.

O vídeo é espaço fértil de memórias, fazeres, encantos, arte. Junta pessoas de lugares tão distantes que fazem as mesmas coisas: uma benzedura, um bordado, uma pintura, a lida do campo, a superação de deficiências. Cada um de um jeito único, como único é o humano.

E o que fica, ao final, é certeza de que a melhor coisa que podemos fazer, como jornalistas, é mesmo contar histórias. Porque elas revelam os universos que vivem em nós.

Da Serra ao Seridó é esse registro seguro, da vida das gentes, dessa imensa mátria: Brasil. Parabéns Fernando e equipe! Tá lindo!


domingo, 27 de novembro de 2016

Dos totens do nosso tempo



Um totem é um uma construção sagrada, feita pelas comunidades, para designar sua relação com o transcendente. Pode ser a figura de um animal, pode ser uma figura mítica, pode representar alguém. O fundamental de sua existência é justamente estar ali, para lembrar que existe algo profundo no humano, que se conecta com a beleza suprema do sagrado. Não é religião, é abertura reverente para o não-sabido.  São comuns nas comunidades originárias, que nunca caíram na armadilha do monoteísmo. Ou seja, gente que não é a escolhida de um deus, mas que é capaz de compartilhar o mundo com várias entidades consagradas.

No mundo moderno também vamos construindo nossos totens, sejam eles reais ou simbólicos. Troncos fincados no chão que existem para nos chamar, nos interpelar, nos carregar de volta para nosso lugar sagrado. Algumas pessoas reconhecem como totens, os xópins, por exemplo. São seus lugares de devoção. Outros elegem determinadas igrejas, onde descansam seus corpos na dura batalha da vida. Há os que constroem totens com dinheiro, acreditando que ali está a redenção para todas as dores. E há ainda aqueles que erguem totens a partir de pessoas e ideias.

Desde bem pequena escolhi o meu, construído ao longo da vida, com desenhos e rostos. Imagens de vida boa, gente sorrindo, Minha mãe, Che, Camilo, Farabundo Martí, Sandino, José Martí, Zumbi, João Cândido, Chiquinha Gonzaga, Fidel, Carlos Fonseca, Juana Azurduy, Bartolina Siza, Anita Garibaldi, Dandara. Pessoas que, de um jeito ou de outro deram sua vida por um mundo melhor.

Ontem, quando Fidel encantou, fui acarinhar seu rosto no desenho do meu totem, esse que fica à entrada de mim, sempre me lembrando de que a vida só tem sentido se for para todos viverem em abundância. Chorei. Não por ele, que teve vida tão plena e se foi como quis, sem nunca se dobrar. Chorei pelos que não entenderam até hoje o que foi e o que é a revolução cubana. A obra de um povo, não de um homem.  Realizei minhas rezas e cerimônias, imaginando o gigante chegando ao paraíso, encontrando com todos os que, com ele, realizaram essa obra de amor. Sim, eu creio no paraíso, esse lugar onde as almas descansam.

A revolução não é um jogo de contas de vidro. É a explosão violenta de um povo oprimido também por violência. É campo de morte, de dor, de decisões duras. Mas, é construção de caminhos que levam ao bem-viver. Crianças nas escolas, comida na mesa, saúde de qualidade, arte. Cometem-se erros. Mas, claro, as revoluções são feitas por homens e mulheres. Não por santos. O que vale é reconhecer, fazer  autocrítica e seguir.

As figuras que compõem meu totem são criaturas humanas, com seus claros e escuros. Não são heróis, são caminhos. Veredas abertas chamando para o grande meio-dia. Não os reverencio por santos, mas por sua dolorosa e pungente realidade. Não peço licença por isso. É o meu totem. É a minha entrada da alma.

Nesses tempos obscuros do novo século, diante da inexorável perda física de Fidel, começo a esculpir novas caras no meu tronco sagrado. Três deles ainda vivos. Mais na frente, com certeza, serão lembrados como os que mudaram o mundo. Snowden, Assenge e Bradley Manning. Cada um deles, a sua maneira, e com objetivos diferentes, colocaram à nu o império. Snowden e Assenge, exilados de suas pátrias, vivendo como fugitivos. Bradley encarcerado numa solitária, nu, quase enlouquecido, dentro do país que tanto ama, e pelo qual decidiu revelar ao mundo as atrocidades cometidas pelos exércitos de ocupação. Ele pensava, na sua ingenuidade, que se o governo dos EUA soubesse o que acontecia  no Iraque, iria por um fim em tudo aquilo.  Não, deram fim foi nele.

Nenhum desses três é comunista sanguinário. Não. São pessoas que querem viver na verdade. Que também sonham com um mundo livre, de pessoas soberanas.

Tampouco eu sou sanguinária, ainda que comunista. Preencho-me de ternuras e amores, de sonhos de vida boa e sigo, acendendo meus incensos, dizendo minhas orações, reverenciando meu totem sagrado. É esse tronco esculpido de gentes, desejos, lágrimas e risos que pontifica à porta de mim. Ali estão todos os mortos que nunca morrem, os que guiam meus passos e enchem os meus cântaros da água mais pura: essa que verte do desejo mais doce da “eko porã”, a vida bonita, como dizem os Guarani.  

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Governo gaúcho ataca comunicação pública



O Rio Grande do Sul é o estado que tem hoje, proporcionalmente, a maior dívida pública do país. Ela supera em mais de duas vezes a receita. Passa dos 50 bilhões enquanto a arrecadação chega a pouco mais de 20 bilhões. A dívida com a União ultrapassa os 40 bilhões, 98% fruto de um refinanciamento de títulos mobiliários feito em 1998, no governo de Antônio Britto (PMDB). Outros passivos da dívida são déficits previdenciários, precatórios e empréstimos internacionais (perto de quatro bilhões). Outra pequena parte é composta de empréstimos internacionais.

Observando as reportagens de jornais gaúchos sobre o que o atual governador chama de “calamidade financeira” a impressão que dá é de que a dívida apareceu de paraquedas no colo de Ivo Sartori. O máximo que se faz é colocar a culpa nos governos passados (principalmente os do PT), como é normal suceder. Mas, indo mais fundo nas pesquisas surgem as informações do período da ditadura militar, durante o chamado “milagre econômico”, quando os governadores biônicos emitiam Letras do Tesouro, pagando juros escorchantes, para fazer andar as grandes obras estruturais típicas do regime. É quando a dívida vai adquirindo as cores estratosféricas.

Com as sucessivas crises inflacionárias dos anos 80 o estado já não conseguia resgatar as letras emitidas e os juros foram comendo o orçamento. Além disso, no final da ditadura novos títulos foram emitidos para poder garantir que as eleições fossem vencidas por pessoas amigas. E foi o que sucedeu. Com a grande crise do final dos anos 80 e os planos de ajuste federal a dívida mais uma vez foi às alturas. O Plano Real, que mudou a moeda, quadruplicou os valores devidos, fazendo com que a dívida passasse a índices absurdos. Foi aí que Antônio Britto, então governador, afinado com o governo federal, refinanciou tudo (com novas taxas de juros), ganhando um fôlego para algo que obviamente iria estourar no futuro.

E assim, sucessivamente, os governos que se seguiram foram administrando a dívida existente e contraindo outras, já que o estado precisava andar. “Até aí morreu neves”, como diz o velho ditado. Essa é a história de todas as dívidas, seja dos estados ou mesmo do país. O que não se consegue saber é em quê exatamente todo esse dinheiro foi gasto e se os contratos firmados à época tinham legitimidade. Se considerarmos que o maior montante da dívida foi contraído no período da ditadura, por si só já seria ilegítima, como bem aponta o historiador Alejandro Olmos, um dos auditores da dívida do Equador e especialista na dívida argentina. Um governo de exceção fazendo empréstimos sem que o povo soubesse as regras do negócio ou como tudo foi gasto torna o processo sem legitimidade. E se forem feitas as contas sobre o tanto de recursos que já foram pagos em juros ilegais – estratosféricos – certamente essa dívida já foi totalmente quitada. Mas, para isso, seria necessário fazer uma auditoria minuciosa. O Equador fez isso e descobriu que 70% dos valores eram ilegítimos e ilegais. É de fundamental importância para os gaúchos conhecer o conteúdo e regras dos contratos. Aí se escondem as armadilhas.

Quem paga a conta

Historicamente quem paga a conta dos excessos dos governos são sempre os mesmos: os trabalhadores. Quando as coisas apertam e os juros comem todo o orçamento surgem os velhos bordões; “estamos falidos”, “precisamos apertar os cintos” “é necessário um ajuste fiscal”, “tem que enxugar a máquina pública”. Logo em seguida vêm os cortes nos serviços públicos e em setores do estado que são minúsculos e que não representam quase nada no todo da dívida.
Agora, no Rio Grande do Sul, diante da quase impossibilidade de mexer no orçamento, pouco menos de 2% está destinado aos investimentos, o governador, que é do partido do atual presidente (PMDB), decidiu aplicar a velha receita de cortar nos serviços à população em vez de enfrentar de verdade a questão da dívida. Afinal, é bem mais fácil enfrentar os trabalhadores – que estão sob seu comendo – que enfrentar os bancos.  

No pronunciamento que fez essa semana (21) Ivo Sartori (PMDB) anunciou não apenas o estado de calamidade financeira do estado como também um pacote de medidas que, segundo ele, vai estancar a crise. No conteúdo do pacotaço está a extinção de 11 órgãos ligados ao executivo, a redução de secretarias, de 20 para 17 e a demissão de mais de mil trabalhadores entre comissionados e efetivos. Segundo ele, isso vai garantir uma economia de 146 milhões ao ano, o que, no computo geral de uma dívida de bilhões nada mais é do que uma migalha.  Por outro lado, para o setor privado isso é um grande presente, porque abre espaço para que possa se expandir onde antes era o estado quem dominava. Como adverte o economista Maicon Cláudio da Silva, do IELA, “quando o estado fecha estatais ou espaços públicos encolhe os espaços público e joga para o capital fazer a sua festa. Fechar a TV e a rádio publica significa dar mais poder ao setor privado”. 

É fato que o estado rio-grandense vem sistematicamente gastando muito mais do que arrecada, bem como mantém uma folha de pagamento que chega a consumir quase 60% da receita, mas também é de conhecimento público que alguns gastos – como os da publicidade e propaganda, por exemplo – são exagerados numa situação de crise. Informações nos jornais do estado dão conta de que para criar um consenso na população da necessidade de “cortar na carne”, o governo encheu os bolsos do oligopólio midiático (RBS), gastando 3,5 milhões, de março até agora. Ou seja, investiu dinheiro público na mídia comercial, para convencer as gentes de que é preciso acabar com as empresas públicas que dão “prejuízo”.

Não por acaso uma dessas empresas é a Fundação Piratini – que garante a comunicação pública no estado através da TV Educativa e da Rádio Cultura. Essa fundação é uma conquista histórica do povo gaúcho e desde o ano de 1974 garante uma comunicação de qualidade no campo da informação, da cultura e da arte.

O fechamento dessa fundação levantou em rebelião a classe artística, jornalistas e população em geral que entende a importância de uma comunicação pública, fora do contexto comercial, que não vê a informação, a arte e a cultura como uma mercadoria. Poucos estados do Brasil podem se orgulhar de ter um espaço de comunicação pública, controlado pela sociedade civil. Durante todos esses anos a fundação caminhou entre os seguidos governos, sempre garantindo espaço para o debate de todos os temas candentes do estado, para os artistas, o cinema, enfim, a vida que vive e se expressa no Rio Grande. A opção por fechar esse espaço de comunicação é uma jogada que fortalece cada vez mais o oligopólio midiático e torna toda a vida cultural do estado refém da lógica da mercadoria. 

Segundo levantamentos feitos pelo jornalista Marco Weissheimer, publicado no jornal Sul21, “a Secretaria Estadual de Comunicação gastou este ano, até o mês de novembro, R$ 6.237.444,26 em publicidade institucional. No mesmo período, a Assembleia Legislativa gastou R$ 5.723.906,18 em publicidade institucional. Enquanto isso, políticas como a qualificação de assentamentos receberam apenas R$ 372.801,60, em 2016. Já a qualificação dos sinais de cobertura da TVE e FM Cultura recebeu R$ 156.760,92 e a qualificação dos recursos humanos na administração recebeu apenas R$ 10.350,52”. Ele mostra também que só o jornal Zero Hora (da RBS) recebeu mais recursos que a TVE, a Rádio Cultura e o setor de recursos humanos da fundação juntos. Ou seja, isso evidencia uma opção deliberada pelas empresas privadas em detrimento da pública. E, quem perde com isso é a população que fica cada vez mais exposta a um pensamento único, produtor de mais-valia ideológica.

A decisão de Ivo Sartori não surpreende já que vivemos num tempo em que a comunicação é um dos commodities mais importantes no mundo. Com a informação domesticada os donos do capital conseguem inventar um futuro. Eles lançam “verdades” que, incorporadas como tal no presente imediato, tornarão o futuro tal qual eles querem que seja. Assim, é a partir da informação que o sistema capitalista de produção consegue criar mais um momento de expansão do capital. E, para isso, a comunicação precisa ser privada. Não pode estar controlada pela sociedade. Logo, aproveitar a dita “calamidade” para destruir justamente a comunicação pública, é um passo natural para qualquer um que esteja aliado aos interesses da classe dominante.

Importante ressaltar que o estado que hoje temos não é mais o velho estado liberal burguês, amparado num pacto social, com algumas garantias para os de baixo. Esse estado que surgiu com as repúblicas está morto e enterrado. O que temos na atualidade são empresas travestidas de estado, cujo objetivo é facilitar para a burguesia a gestão da expansão cada vez maior do capital. Não é sem razão que estamos vendo, sistematicamente, os presidentes dos países, os governadores de estados e prefeitos, serem nada mais do que “gestores”, gerentes, capitães do mato. Elegem-se inclusive com essa consigna. Vejam figuras como Trump, nos Estados Unidos, João Dória, em São Paulo ou Marcelo Crivela, no Rio de Janeiro. São incensados por sua capacidade de esgrimir os problemas sociais, resolvendo as questões sempre do ponto de vista fiscal, financeiro ou de gestão. Na verdade, esses governantes - logo, logo - perderão até o nome de presidentes, governadores e prefeitos e serão chamados de CEO ( a sigla em inglês para chefe executivo). Por exemplo, Michel Temer é o CEO da empresa Brasil, assim como Sartori é hoje o CEO da empresa Rio Grande do Sul. Meros gerentes do capital.

Não se enganem, portanto, com o discurso de que o estado está falido. A tática envolve, primeiro, criar um consenso via mídia privada, e depois aplicar o bom e velho chicote no lombo dos trabalhadores, afinal são eles, e só eles, os que podem produzir valor (a riqueza material). Com isso, o governo fica autorizado a aplicar medidas amargas como o desemprego e o sucateamento dos serviços públicos.  Tudo isso para seguir pagando uma dívida que – com certeza - já foi paga, com o sacrifício de todos os gaúchos e gaúchas. Mas, para o capital, as pessoas são mero detalhe. Não importa quantos tenham de morrer, quantos pais de família precisem ser destruídos, quanta dor e sofrimento sejam causados nos trabalhadores. O que importa mesmo é equilibrar as contas, permitindo que os juros da dívida sigam sendo pagos.

Há um dado no caso gaúcho que é a folha de pagamento dos trabalhadores. Segundo o governo há que demitir, pois a folha consome bem mais do que permite a lei de responsabilidade fiscal, chegando a quase 60% das receitas. Mas, se esses trabalhadores são aqueles que permitem que os serviços públicos sejam oferecidos à população com qualidade eles não são um gasto, são um investimento. Claro que isso na perspectiva de quem está se importando com as gentes. O que não é o caso. Os estados-empresas só tem uma preocupação: cuidar para que os bancos sigam comendo sua odiosa ração, constituída da força de trabalho dos trabalhadores. Para isso é preciso jogar mais gente no desemprego, para baratear a força de trabalho e mantem os trabalhadores sob a ameaça constante da fome e da miséria.

É por isso que a Fundação Piratini está entre as vítimas. Porque ela tem alcance no estado, ela é pública e ela pode ser uma “rugosidade” na pretendida manufatura da opinião pública. Como ela possibilita o espaço para as vozes dos movimentos, dos artistas, dos intelectuais, pode ser um grande entrave para o projeto de sistemática dominação do sistema capitalista de produção.

Nesse sentido, é fundamental a resistência do povo gaúcho contra o desmonte das empresas públicas. Elas são o pouco que resta da velha lógica da “res pública”, o pouco que ainda não foi sequestrado pelos bancos e pelo centro do poder. Assim, a batalha pela manutenção da TVE e da Rádio Cultura, não é uma batalha qualquer. É a trincheira estratégica que pode colocar barreira ao projeto dominante. Porto Alegre, onde fica a sede dessas empresas públicas, tem nas mãos o futuro do Rio Grande. Vencer a batalha da comunicação sobre a concepção de estado é praticamente começar a vencer a guerra contra o capital.

É tempo de os trabalhadores organizados pararem a avançada do estado/bancário/empresa. Se a reforma de Sartori passar, abre a porteira para a tropa toda. Assim que os gaúchos e gaúchas de todas as querências estão com essa tarefa histórica para cumprir.

Essa luta é grande, mas não é impossível. Estamos juntos!



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A universidade necessária



A Universidade Federal de Santa Catarina está em processo de luta. Há uma greve dos técnicos-administrativos, vários Centros estão ocupados e os professores decidiram acampar em frente à reitoria para apoiar o movimento dos estudantes e realizar também a sua própria luta contra a PEC da morte. Todos os que estão envolvidos com as ocupações sabem muito bem que só a luta mesmo pode mudar as coisas, já que as instituições legislativas estão ocupadas por pessoas que representam os interesses de grupos econômicos. 

No Centro Socioeconômico a batalha está mais dura. A ocupação, iniciada pelos alunos do Curso de Relações Internacionais, apesar de não estar impedindo as aulas, tem sido violentamente atacada por um pequeno grupo de alunos contrários ao movimento. Por duas vezes esses alunos provocaram tumultos, inclusive agredindo estudantes que nem estão na ocupação. 

Por conta das agressões a direção do centro decidiu suspender as aulas na segunda e na terça-feira, justamente para garantir a segurança dos ocupantes. Segundo nota divulgada pela direção, já estão sendo feitas as diligências para identificar os agressores, e que medidas administrativas serão tomadas. 

Agora pela manhã, o centro foi reaberto e as aulas estão acontecendo normalmente. O ambiente ainda está tenso porque na segunda-feira, mais uma vez, um aluno tentou desobstruir a entrada referindo-se aos ocupantes com palavras agressivas e ameaçando mais violência caso as aulas não fossem retomadas.

Gentilmente, os estudantes da ocupação informaram ao estudante que as aulas não estão paradas por causa deles, e sim por conta das agressões que outros estudantes, contrários à ocupação, realizaram. Ainda assim, percebe-se que não há desejo de diálogo por parte dos agressores. Tudo o que querem é tumultuar. Insistem em defender o seu direito de ir e vir, mas não querem saber de defender o direito dos outros alunos à livre manifestação. Muito claramente, esses jovens defendem a democracia que lhes interessa. 

A segurança do campus está presente no CSE e segundo o coordenador, está atenta para garantir a segurança dos estudantes. 

Ontem aconteceu uma reunião entre os estudantes e o reitor sobre uma possível desocupação em função da realização do vestibular. Mais de mil alunos realizarão a prova no CSE e isso não acontecerá caso se mantenha ocupado. Os estudantes deverão discutir o tema.

Na parte da manhã, o vice-diretor do CSE, Rolf Hermann Erdmann circulou pelo prédio onde são realizadas as aulas e constatou que muitos professores não vieram. Alunos que exigiram aulas estavam fora das salas, sem os professores. Poucas salas estavam ocupadas com aula normal.

A luta segue. Hoje a partir das 12h e 30min as três categorias devem realizar uma assembleia para discutir o processo. 


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Os meios alternativos no Brasil



Foto: Jeane Adre

Conferência proferida no 22° Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação

Antes de falar dos meios alternativos – que eu prefiro tratar de independentes, comunitários  ou populares -  é preciso pontuar alguns elementos referente aos meios de comunicação que dispomos na chamada mídia corporativa ou comercial. Isso é importante para entendermos a ideia de alternativa. Seríamos nós uma alternativa a quê?

Do ponto de vista do sistema capitalista que rege o mundo nós estamos colocados na periferia. Somos um país dependente e subdesenvolvido. A outra face de uma moeda, na qual  para que um seja rico e pungente, outro tem de ser explorado até o âmago. Fazemos parte dos explorados. Que isso fique claro.

Essa mídia corporativa, tal como a conhecemos é visceralmente ligada ao capital. Tanto que o primeiro jornal diário do mundo nasceu em 1650, na Alemanha, nos albores desse então novo modo de organizar a vida, espalhando-se a ideia depois para a França, Inglaterra e demais países da Europa. Assim, o que antes eram folhas literárias e políticas passaram a ser jornais diários que misturavam as notícias com o anúncio das mercadorias. Era necessário dar notícias desse mundo novo que emergia dos burgos.   

Do final do século 18, pelo século 19 afora até a primeira grande guerra no século XX os jornais acompanharam a lógica liberal, então hegemônica. Eram empresas privadas, com ligações políticas com o poder, que buscavam potencializar – com as notícias  - a venda de mercadorias. O poder instituído já sabia da importância estratégica de formar opinião pública, por isso os jornais eram armas potentes da classe dominante.

Com o final da primeira grande guerra e a ascensão dos Estados Unidos como grande potência mundial, começou uma mudança  no processo informativo. Já não era suficiente só anunciar produtos, havia que usar os veículos para formar um consenso sobre como ser no mundo. Havia acontecido também a revolução russa em 1917, e ela colocava uma novidade no mundo: a proposta socialista se fazendo corpo. Mais um motivo para a comunicação mudar. 

É nesse período, de 1918 a 1950 que começam a tomar corpo as teorias de comunicação baseadas na persuasão. Usava-se dos recursos da ciência para buscar formas de enredar as gentes, fazendo-as crer que o “mundo livre” do capitalismo era o melhor dos mundos. O rádio, iniciando sua trajetória pelas ondas do ar em 1918, passa a ser um importante meio de distribuição desse consenso. O cinema, igualmente, torna-se uma usina ideológica, principalmente dos EUA, e os meios em geral – que eram unicamente privados – passam a ficar bem mais abertamente ligados aos Estados. Afinal, é ponto pacífico que os estados nacionais são os espaços que organizam as burguesias locais ao mesmo tempo em que são por elas dominados. Nascem então as principais teorias de comunicação, dando status de ciência ao processo de persuasão e controle das mentes.

Com a segunda grande guerra e o advento da televisão, esse processo recrudesceu. O novo veículo agora entrava nas casas com áudio e vídeo, aprofundando ainda mais a manufatura do consenso. A tal ponto de até hoje o mundo inteiro saudar o fim da segunda guerra como uma vitória dos EUA, com o famoso desembarque da Normandia, eliminando completamente da história o sacrifício de milhões de russos, que foram os que realmente pararam a máquina de matar de Hitler. O cinema e o jornalismo inventaram outra história. Com a chamada “guerra fria”, depois do fim da segunda grande guerra, o processo ficou ainda mais forte. Alienar as mentes era estratégico e os meios de comunicação de massa – rádio e TV – concessões dos Estados, estavam amarrados nessa missão. 

E assim como era no centro do sistema, também na periferia. As teorias, os veículos e as técnicas de comunicação eram importadas sem qualquer visão crítica. A periferia sempre tentando “progredir” como o centro, sem dar-se conta de que isso era impossível. O único desenvolvimento que os países periféricos podem ter no sistema capitalista é o desenvolvimento do subdesenvolvimento, conforme bem revelou Gunder Frank. 

O conhecido “neoliberalismo”, que é uma fase a mais do processo de acumulação capitalista trouxe para o mundo das comunicações novas tecnologias. O advento da internet, possibilitando interconexão mundial deu a receita mágica: ilusão de democracia e aprofundamento da dominação. A famosa www passou a ser uma correia de transmissão planetária da mesma lógica de fabricação de consenso. Totalmente dominada pelos mesmos grupos que controlam a produção da informação, a “rede” se espalhou dando possibilidades de interação, coisa nunca antes possível. 

A ideia de que, agora, qualquer pessoa é produtora de conteúdo abre um espaço importante de debate. E mais do que nunca é preciso ter bastante claro o que é espaço de opinião e o que é informação de qualidade. No geral, as redes sociais, além de espalharem opiniões, reproduzem as informações que são produzidas pelos mesmos grupos que controlam os meios de massa como rádio, TV, jornais e revistas. 

No campo da vida real, as empresas que controlam servidores e grandes produtores de informação seguem sendo as mesmas, com um elemento novo: a crescente participação das entidades financeiras  - bancos  - no controle acionários dos conglomerados midiáticos. Ou seja, a financeirização da vida não está mais circunscrita à economia clássica. Não basta aos bancos definirem a situação econômica dos países, eles têm de inventá-la também. Isso significa que, com o controle da informação, eles podem produzir um futuro dentro dos seus interesses.

Nesse sentido, a informação produzida pelos grandes meios de comunicação assume a condição de commoditie, vendida num mercado futuro. Torna-se irmã siamesa das matérias primas de base como cereais, minerais, petróleo etc... Os grandes meios fabricam informações que não apenas influenciam no presente, mas também conformam o futuro. Inventam uma realidade vindoura moldada aos seus interesses. Isso é novo e precisa da nossa atenção.

O sítio do jornal espanhol El País, por exemplo, tem 30 milhões de usuários, e metade desses leitores está na América Latina. Hoje, o El País é comandado por uma instituição financeira, tem uma dívida astronômica de três milhões de euros. Uma dívida que não é cobrada porque interessa aos donos do jornal que ele sobreviva, mesmo nessas condições. A dívida é cinco vezes mais o patrimônio do jornal, mas o que vale mesmo para o banco que o domina é a sua capacidade de criar opinião. Eles sabem que um jornal capaz de influenciar tantas pessoas é um investimento par ao futuro. 

Essa financeirização da vida já tinha sido prevista por Marx no seu clássico, o Capital. Agora está aí nos desafiando e invadindo também o campo da informação. O que fazer? Essa é a pergunta abissal!
O espaço internético deu possibilidades para a criação de mídias alternativas, independentes, populares. Mas, a questão que temos de pensar diante desse cenário é: são realmente essas mídias uma alternativa? Têm eficácia na desconstrução da fabricação do consenso? Qual é poder dessa mídia diante da realidade que se nos apresenta?

Se observarmos bem a situação da mídia dita alternativa no Brasil, vamos ver que apesar dos múltiplos veículos hoje possíveis, ela ainda não se configura uma alternativa. Não é de massa. Enquanto a Globo e suas irmãs siamesas chegam a 97% do território nacional, os meios alternativos continuam circulando em guetos, no qual o público é o já cativado, já propenso ao discurso de desconstrução. Poucos espaços alternativos, independentes, populares e comunitários conseguem fugir dessa bolha.

Os meios mais estruturados continuam se concentrando no eixo Rio-São Paulo- Brasília, reproduzindo como sempre o colonialismo interno. É comum o Piauí reproduzir informações produzidas nos meios alternativos paulistas, mas é raro ver esses meios reproduzindo o Piaui. 
O Vito Gianotti passou boa parte de sua vida gritando na montanha, junto com a Claudia Santiago (ambos fundadores do NPC), sobre os veículos sindicais e sua possibilidade concreta de ser uma mídia de massa. Nunca foram levados em consequência. Deram cursos em todo o país, mas não conseguiram quebrar a mediocridade e a falta de entendimento do papel estratégico da comunicação por parte de boa parte dos dirigentes sindicais. 

Do ponto de vista de sustentabilidade os meios alternativos estão sempre na corda bamba, reféns de governos amigos ou de fundações estadunidenses e europeias – em sua absoluta maioria entidades que existem para manter as coisas bem acomodadas. Fundações como a Rockfeller, Kellogs, Ford, a de George Soros e outras, europeias de cunho social democrata, anti-comunistas, são praticamente o governo mundial. Elas ditam as políticas governamentais em seus países de origem e ao financiar grupos comunicativos na periferia do sistema estão nada mais nada menos do que garantindo o controle da informação. Enquanto interessa provocar a “desordem” o dinheiro jorra. A “revolução” promovida pelas mídias alternativas – como vimos no oriente médio, com a mal chamada primavera árabe, vai até certo ponto. Até onde não toca nos interesses do sistema. Então, é ilusão chamar de alternativa uma mídia financiada por esses gangsteres. Os “golpes coloridos” no oriente mostraram claramente o que acontece. 

No Brasil, a televisão ainda é o meio de massa pelo qual a maioria se informa. Como já disse ela chega em 97 dos lares. Não é sem razão que o governo investe nela a maior fatia do bolo publicitário. No governo de Lula e Dilma isso não mudou. Houve um decréscimo na publicidade das revistas e jornais, mas a TV se manteve como maior sugadora de verbas (67%). A novidade do governo petista é que ele passou a investir também na internet (os blogs de jornalistas mais afinados ao projeto e alguns coletivos), ainda assim o investimento nessa comunicação foi irrisório: 8% da verba total. Em 2015 o governo investiu 44 milhões no facebook, enquanto a Globo levou 206 milhões. No campo dos jornais a Folha de São Paulo e o jornal Valor Econômico tiveram crescimento das verbas publicas de publicidade, e na internet, os que mais ganharam foram a UOL, o G1 e o R7. Ou seja, tudo seguiu como sempre. E ainda assim, essas mesmas mídias que sugaram as verbas públicas foram decisivas no golpe. 

O governo brasileiro – na era petista – não pensou a comunicação como uma área estratégica, ou pensou errado, acreditando que as empresas que sempre foram capacho dos governos conservadores se abririam para a proposta petista. Equivocadamente o governo petista não deu espaço para a comunicação alternativa, livre, comunitária e popular. Perdeu a batalha nesse campo e, com isso, abriu passo para a grande derrota final.

A TV Brasil que nasceu para se conectar ao generoso projeto da Telesur, criado por Hugo Chávez, foi outro equívoco. Não se integrou a Telesur, não potencializou a comunicação comunitária e nacional, não abriu o sinal para o país. E apesar dos avanços, com a construção de uma programação crítica, seu alcance sempre foi reduzido. Deveria ter sido uma rede aberta, com acesso para qualquer um que tivesse uma antena torta com um bombril na ponta. 

Agora, com o fim da era PT, um número grande de blogs e coletivos produtores de informação crítica, ou mesmo de informação pura, com um viés classista, estão amargando a falta de recursos para existir. Os parcos 8% que eram divididos aos veículos dito alternativos do eixo Rio-São Paulo-Brasília já não existem mais. O governo Temer vem aumentando exponencialmente as verbas para os veículos de massa, que seguirão fabricando o consenso que o poder quer.

Diante disso, quais os nossos desafios? Como atuar de tal forma que venhamos a ser efetivamente uma alternativa? Não há respostas simples nem possibilidades reais diante da ordem. 

O que podemos fazer, na ordem, é resistir. Com nossos blogs, nossos coletivos, nossas rádios comunitárias. Afinal, se ainda não somos uma alternativa de massa, somos certamente um espaço importantíssimo de organização, inclusive dos movimentos sociais. Os veículos comunitários, livres e populares foram fundamentais na articulação da resistência ao golpe, tem prestado um serviço inestimável na divulgação das ocupações de escolas e universidades, totalmente silenciadas pela mídia comercial. Assim, há que seguir, apesar de todos os obstáculos.

Só que esses não são tempos para resistir apenas. Há que atacar, surpreender, vencer a batalha comunicacional. Porque sem essa vitória sempre estaremos na defensiva, esgrimindo canhões com bala de rolha.

Por isso que o horizonte tem de ser a mudança do estado, a mudança de sistema, o fim do sistema capitalista de produção. Isso tem de estar em cada pequena intenção, cada pequeno texto, cada foto. Mas, nosso protagonismo como produtores de informação tem de estar calcado na universalidade. Para isso serve o jornalismo. As informações estão aí, pulando na internet, nas ruas, nas redes sociais. Mas elas estão pulando sozinhas, isoladas, em bolhas, muito mais desinformando, que formando. 

Nossa função é dar a esse mosaico de informações loucas e saltitantes a dimensão da totalidade. Nós, os jornalistas, conhecemos o segredo, que foi desvendado pelo grande teórico do jornalismo, Adelmo Genro Filho. Ele mostrou como se faz jornalismo é produção de conhecimento, que pode existir sem ser manipulador. Há que estudar Adelmo, compreendê-lo e fazer jornalismo crítico. Temos os recursos humanos e teóricos. Há que usar esse poder.